quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Critica: A Ninfomaniaca-Parte 1



Os filmes de Lars Von Trier sempre encararam o amor de maneira curiosa, muitas vezes considerando o sentimento como a ruína do ser humano. Pois posteriormente ao amor, viriam a aparecer o ódio, a tristeza e a dor (a junção dos três: o luto). Após a personagem de Nicole Kidman ser acolhida pela vila em Dogville, os habitantes fazem na sofrer. Em Anticristo, após uma transa apaixonada o filho do casal (Willem Dafoe e Charlotte Gainsbourg) morre gerando o já comentado luto.

Em A Ninfomaníaca, curiosamente o diretor dinamarquês parece ter optado por não abordar o sentimento dos apaixonados. Sequer flertando com este. Desde a 1a cena em que aparece, a personagem Joe (Charlotte Gainsbourg, na sua 3a participação com o diretor) deixa bem claro que gosta de fazer sexo. Não porque sente falta de amor (em determinado momento, ela deixa bem claro que optou por manter isso distante de sua vida), mas simplesmente porque gosta. Esse é o maior mérito de A Ninfomaníaca, filme que assim como Azul é a Cor Mais Quente mostra que uma mulher não é um ser passivo que depende da boa vontade de um macho para obter prazer.

Não deixa de ser curioso o fato do filme não ser um ode ao prazer/vida/amor (caso diferente do já citado Azul é A Cor Mais Quente, que celebra os três), mas como um ode a falta de humanidade nas ações de um indivíduo (e que ação mais humana para exemplificar isso do que o sexo?). E mais interessante ainda, o fato da protagonista se julgar um horrível ser humano por gostar de sexo.

Na trama, Joe é encontrada machucada por um idoso (Stellan Skargard), que a leva pra sua casa. Lá, a mulher afirma que é um ser humano horrível e resolve contar para o homem sua vida erótica. Numa espécie de releitura nórdica de As Mil e Uma Noites, abusando dos simbolismos (o fato do idoso ser um pescador não é mera coincidência) e com a polêmica que só Lars Von Trier poderia proporcionar ao espectador. O diretor já é inteligente por ter introduzido uma sinopse que facilmente poderia ser a trama básica de um soft porn dos anos 80, mas que é totalmente diferente disso.


Vale dizer que A Ninfomaníaca herda a beleza plástica dos trabalhos anteriores de Lars Von Trier, por isso espere pelas cenas aonde o que predomina é o estilo (o que aqui faz bastante sentido, afinal em teoria é um porno, uma obra do audiovisual constituída por fetiches). A fotografia de Manuel Alberto Claro ajuda a criar o clima onírico necessário para o filme (justo para uma obra que se coloca como parte do "cinema de sensações") e a direção de Von Trier continua sendo extremamente criativa.

O único ponto que parece fora do lugar é a trilha sonora, que tem músicas da banda alemã Rammstein. Que é conhecida como uma banda de metal pesado, e que foi posta no filme justamente para indicar a polêmica e o fato de ser um tema "profano". Para um filme que tenta desmistificar o sexo e mostra-lo de maneira natural, para que mostra-lo acompanhado de uma música agressiva? Ressaltar a condenação que Joe se impõe?

Claro que isso leva a outro ponto clássico dos filmes de Lars Von Trier: a polêmica. O diretor sempre tenta tornar a experiência cinematográfica de alguma maneira extremamente desconfortável para o espectador. Em Anticristo, o diretor parecia ter mostrado algum amadurecimento pois como a crítica Isabela Boscov fez muito bem de observar, o diretor parecia sofrer junto com a platéia (é fato que durante a produção de Anticristo, Lars estava sofrendo por uma crise de depressão). Porém em A Ninfomaníaca parece que Lars voltou a apenas expor para chocar e definitivamente sentir, e não para refletir. Manipulador e fascinante como sempre, porém sem muito a oferecer.

Ainda estão presentes o humor negro, os questionamentos filosóficos dos personagens (seria o sexo uma forma de sair do vazio, ou uma forma de entrar-se no vazio?) e as grandes atuações dos atores. Porém, A Ninfomaníaca é um filme extremamente irregular. Não fica claro se é devido ao fato desta ser uma versão censurada (a versão mais pesada do filme será exibida em festivais), ou se a decisão de dividir o filme em dois foi uma boa ideia. Pois quando A Ninfomaníaca termina, não há climax ou uma preparação para avisar o espectador que o filme acabou. Apenas um corte seco, e cenas do próximos capítulos (mais um filme do diretor que é dividido em capítulos).




Para os fãs, A Ninfomaníaca soa como mais um excelente filme para a filmografia de Lars Von Trier. Para quem como eu não tem o diretor de Dogville como um ídolo, o filme soa muito mais apático do que outra coisa. Claro, isso se deve ao fato dessa ser apenas a 1a metade de um filme. Isso com certeza atrapalha a experiência, e frustra quem espera ver um filme com começo, meio e fim. Além da estrutura monótona que é empregada no filme, o que certamente tem relação com a versão light do longa (estima-se que 1 hora de filme foi cortado). Grande parte da jornada de auto-crítica de Joe deve ter se perdido na edição.

Por fim, o que determinará se A Ninfomaníaca é um bom filme será a sua segunda parte. Até lá, é apenas um filme sobre pessoas que tentam preencher o vazio de suas vidas com sexo. E de uma mulher que se condena por isso. Muito pouco para um diretor com tanto talento como Lars Von Trier. Fica-se a promessa e a expectativa para a segunda parte. Uma pena que tão vazia quanto as vidas das pessoas da história, seja também esta primeira metade.

Ps: O justo seria eu não dar nenhuma nota para o filme, mas como filme isolado A Ninfomaníaca recebe a nota abaixo.

Nota: 7,0