quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Critica: Spring Breakers




Em determinado momento de Spring Breakers, o personagem Alien (James Franco) mostra para as personagens de Vanessa Hudgens e Rachel Korine as coisas que possui em sua casa. Armas (que nunca usou na vida), uma cama redonda, cds, um poster de Scarface, uma televisão gigante, o melhor sistema de som do mercado, um x-box, um carro com cor vibrante. "Olha toda essa merda!" diz ele.
A essência do filme está nesta cena: tanto Alien quanto as garotas só estão naquela situação devido a cultura que lhes foi vendida. A mesma que permite (financia) o spring break norte americano, onde jovens descansam da faculdade, e se reúnem para beber, se drogar, transar. Num espaço de tempo onde tudo é legalizado. A grande verdade é que Spring Breakers não é um filme idiota glamorizando o estilo de vida das 4 garotas, a verdadeira missão do longa é funcionar como um alerta. Afinal, quantas garotas hoje em dia postam em blogs, tumblrs fotos glorificando a tal semana de "descanso"?

Spring Breakers conta a história de 4 belas jovens (Selena Gomez, Vanessa Hudgens, Rachel Korine, Ashley Benson) que precisam de dinheiro para poderem ir ao Spring Break, e que para isso resolvem assaltar uma lanchonete. Ao chegarem na semana de festa, conhecem um guru/traficante/rapper chamado Alien (James Franco), que promete leva-las a um novo mundo.

Apenas por essa sinopse, o espectador comum poderia esperar um filme idiota (ao estilo de Crossroads, não curiosamente estrelado pela cantora Britney Spears, que tem papel temático importante em Spring Breakers). Com muita diversão, praia, bebidas, jovens bonitos, uma boa dose de irresponsabilidade.  A questão, é que o filme não patrocina isso. Existe todo o pacote de sobra. Mas Spring Breakers faz o papel de questionar: como que chegou a esse ponto? Ou então, quanto mais tempo isso irá durar?




Vale dizer que este é um filme que nem todos irão gostar. Não apenas devido ao tema, mas pelo estilo de filmagem de Harmony Korine (diretor do fantástico Kids). Que muitas vezes lembra o estilo de direção dos recentes trabalhos de Terrence Malick, pois é um filme muito mais sensorial. Muitas vezes, cenas que se passaram anteriormente retornam para ressaltar um sentimento, ou então falas se tornam refrões que permeiam o filme todo (o mais clássico sem dúvida, é o sussurro chapado de James Franco: "Spring break....").
A proposta do longa não é apenas que você observe como mero espectador, mas como um dos jovens participando da festa. Por isso, muitas vezes uma fotografia caleidoscópica é empregada a fim de que o espectador sinta como tivesse tomado ácido junto com as meninas (em muitos momentos lembra Medo e Delírio, de Terry Gilliam).

Porém isso não ocorre o tempo todo, quando um pingo de responsabilidade (ou seria peso na consciência?) bate na cabeça de uma das meninas percebe-se que a fotografia volta ao estilo documental (emprega-se o estilo 16 mm, fazendo parecer que as festas são sonhos e que a volta da consciência seja como um despertar). Algo semelhante com o que Oliver Stone fez em alguns de seus filmes (incluindo o mais recente, Selvagens).

O elenco do filme é bastante competente, todas as meninas estão muito bem (apesar de algumas terem muito mais espaço que outras). Porém, o grande destaque sem dúvida alguma é James Franco. Que faz um personagem totalmente diferente de seus personagens anteriores (este é o terceiro traficante que o ator interpreta, e não guarda semelhança alguma com nenhum dos dois anteriores). Fazendo com que Alien seja o personagem mais humano do filme. Assustador em muitos momentos, infantil em outros e sempre imprevisível. E é o mais próximo que a nova geração terá de um Scarface.

Falando no personagem de Al Pacino, não dá pra deixar de falar de um ponto muito importante do filme: a cultura pop. Além de ser o grande impulsionador dos personagens (todos eles só são daquele jeito porque músicas, filmes, jogos, seriados vendem que isso é ser cool), ainda é bastante presente na narrativa. Temos referências a Gta (em determinado momento duvidamos do que aparece em tela, pois a situação e o local parecem ser saídos do Gta San Andreas), a Britney Spears ("o mais próximo que nós temos de um anjo na Terra", diz Alien em determinado momento), etc.




Outra cena que sintetiza Spring Breakers, sem dúvida alguma é o momento videoclipe/tributo a música "Everytime" de Britney Spears. Nele vemos o grupo cantando e dançando a música (ressaltando o quão jovens e "inocentes" aquelas pessoas são), enquanto que intercalam-se momentos nos quais o grupo ataca gangues rivais com violência e terror. Ao fim, apenas ouvimos o sussurro chapado de James Franco.

Spring Breakers é um filme assustador, Harmony Korine é um diretor competente (veja o travelling na cena que as jovens assaltam a lanchonete, por exemplo) que consegue tornar o filme um retrato da geração que cresceu vendo filmes adolescentes da Disney (não é a toa que temos duas ex estrelas do estúdio do Mickey Mouse), e que agora quer mesmo é festejar por nada. E que por fim revela: isso continuará para sempre. Mesmo que o spring break dure apenas uma semana.

Nota: 9.0