domingo, 6 de outubro de 2013

Critica: Segredos de Sangue (Stoker)



Park Chan Wook havia acabado de dirigir Sede de Sangue (Thirst) quando recebeu o roteiro de Segredos de Sangue. Após assistir ao mais novo filme do coreano, fica claro porque o diretor aceitou trabalhar enfim para o cinema ocidental:Assim como seu último filme, Segredos de Sangue flerta constantemente com o vampirismo. Do seu título original (Stoker, que é o sobrenome do autor do livro Drácula), até o jeito dos personagens da estranha trama, tudo redireciona para os monstros mais lucrativos de Hollywood.

Mas ai está o melhor de Segredos de Sangue, ao invés de utilizar uma solução óbvia e se limitar a reproduzir um filme de vampiros gótico moderno como Sede de Sangue, Park Chan Wook transfere o vampirismo e seus elementos principais para o monstro mais assustador de todos:O ser humano.

Na trama, a jovem India (Mia Wasikowska) acabou de perder seu pai num acidente de carro. Assim, ela e sua mãe (Nicole Kidman) recebem a visita de um tio que nunca ouviu falar (Matthew Goode). No que pode ser muito mais do que uma simples visita de família.

A pergunta que permeia constantemente a narrativa porém, não se refere as intenções do tio e sim:Quem é o verdadeiro monstro?






É chover no molhado falar sobre a produção do filme. Como nos seus filmes anteriores, Park Chan Wook cria um ambiente que é frio e desolador. Tal como o agora clássico set do apartamento do vilão de Oldboy, a casa da família Stoker consegue impressionar pela beleza e pela falta de vida ali dentro. A impressão que fica é que a família Stoker já parecia estar de luto antes mesmo do patriarca da família morrer.

O luto é uma palavra fundamental em Segredos de Sangue, pois reflete muito da personagem protagonista India. Uma menina que desde pequena foi instruída por seu pai a controlar seu instintos (caçando, ou seja: Matando algo sem que venha na cabeça o sentimento de culpa). Reprimindo simbolicamente o desejo sexual curioso que a menina possui.
As roupas que parecem ter sindo vindas da era vitoriana, o cabelo negro sem brilho (como se toda vida da alma de India tivesse se perdido), a expressão facial que não muda nunca, tudo reflete o estado de espírito perturbado da protagonista.

Tão interessante quanto India, é seu tio. Charlie é um homem que tem uma presença sombria, e que sempre está calmo. O que transfere um ar muito mais assustador após vermos que seu semblante permanece mesmo após cometendo atos horrendos.  Charlie é também um dos elos que tornam Segredos de Sangue um filme de vampiros. Note o jeito que Charlie mata suas vítimas (sempre chegando próximo do pescoço), ou então o jeito que Park Chan Wook sempre o filma: Sempre parece que o personagem está por cima das situações (o que o diretor brilhantemente ressalta, no simples fato de Charlie sempre ser filmado num nível superior. Num degrau mais alto da escada, em cima de uma tumba). Como um falcão, ou então um morcego.




A comparação com animais fica mais interessante ainda quando percebermos que Park Chan Wook quer representar os personagens por animais. Insetos para ser mais específico (os animais mais antigos do planeta, como se a maldade que existe na família estivesse presente desde o começo dos tempos). India em determinado momento, ao enfim se dar conta da morte de seu pai deixa uma aranha subir pela sua perna. Como se o medo e aflição da perda de seu pai, deixassem espaço para o seu lado sombrio vir (ou subir, como a aranha) a tona.

Já Charlie é representado por um inseto mais simples. Uma mariposa, que parece ser antiga (mais uma vez ressaltando a maldade presente desde o início, o que percebemos ao longo do filme que é verdade) e que se disfarça. Criando uma aparência aparentemente bela, cortês e educada mas que na verdade é apenas o disfarce de um monstro.

A comparação com os insetos que o filme insiste fica mais interessante se percebermos que ambos os insetos são rivais, e que um come o outro.




O filme ainda consegue criar cenas magníficas ressaltando como que esses "monstros" tentam deixar de lado seus impulsos psicopatas. A cena aonde um determinado personagem do filme toma banho porém começa a se masturbar pensando num assassinato (seria o banho uma forma de purificação?).

Vale dizer que é um filme recheado de cenas com uma moral um tanto questionável. Não espere personagens bonzinhos, ou finais felizes ao assistir Segredos de Sangue. Os personagens aqui podem muito em ficar lado a lado de outros seres com maldade na alma famosos. Como Alex De Large (Laranja Mecânica), Hannibal Lecter (O Segredo dos Inocentes), Norman Bates (Psicose).

Este último é meu ponto de partida para falar de outra coisa bacana do filme: Suas referências a Alfred Hitchcock. Temos bastantes similaridades da trama com A Sombra de Uma Dúvida, e uma referência explícita a Psicose na presença de Charlie. Note que o personagem é quase um sósia de Norman Bates, de Psicose.

Segredos de Sangue não é uma obra-prima como Oldboy. Porém é um filme muito acima da média dos filmes de hoje em dia, e que ainda consegue mostrar um outro lado assustador dos filmes de terror/suspense: o monstro mais assustador de todos somos nós.

Nota: 9.0