domingo, 4 de agosto de 2013

Critica: Only God Forgives




Nicolas Winding Refn declarou que escreveu e quis dirigir Only God Forgives quando sua mulher ficou grávida. O diretor de Drive sentia muita raiva e estava cheio de perguntas existenciais. Ao perceber que a única pessoa que poderia responder suas perguntas era Deus, imaginou uma briga física entre ele e o Senhor do Universo.  O conhecimento desta curiosidade é bastante significativo para entender Only God Forgives, filme do diretor que não é sobre a vingança (como todo mundo pensava). Mas sim um filme sobre brincar de Deus.

Para os que esperam outro Drive, receio que irão se decepcionar. Only God Forgives é um filme muito mais lento, muito mais filosófico, cheio de metáforas e que se não seguisse uma linha narrativa linear, quase teria o mesmo efeito que o polêmico (mas excelente) Anticristo, de Lars Von Trier.

Only God Forgives conta a história de um britânico chamado Julian (Ryan Gosling, mais uma vez trabalhando com o diretor), que tem um clube de boxe tailandês com o irmão em Bangcoc. O irmão é assassinado, e a mãe dos irmãos (Kristin Scott Thomas) vai para a cidade tailandesa pedindo para Julian vingar seu falecido irmão.

Podemos perceber pela história (e até mesmo pelo título) que o filme tem leves contornos e referências bíblicas. Mais especificamente a história de Jacó, filho de Isaque. Que era o filho favorito de sua mãe (Rebecca), enquanto que seu irmão (Esaú) era o filho favorito de seu pai. Por ser mais forte, mais peludo (um símbolo que para os antigos significava maior amadurecimento, pelo fato de estar mais próximo fisicamente de um homem) Esaú que iria ficar com a herança de seu pai. Porém, influenciado por Rebecca, Jacó se passa pelo irmão, rouba a herança (e a benção) e foge. Válido também dizer, que em determinado momento Jacó luta com Deus.




A produção dividiu opiniões no Festival de Cannes. Ao fim da sessão, a platéia se dividia os que vaiavam e os que aplaudiam o filme. Isso aconteceu porque todo mundo estava esperando por um novo Drive. Um filme com um protagonista (interpretado por Ryan Gosling) que sofre uma perda, e que sai sozinho (como um justiceiro/vigilante) matando bandidos. De forma implacável, fria e sobre humana.

Only God Forgives já começa ousando pela inversão de papéis, afinal não é Ryan Gosling o justiceiro/vigilante que mata todos os bandidos. Mas sim o personagem Xang (Vithaya Pansrigarm), que tem o apelido de Anjo da Vingança (não é a toa). Que é um ex policial que faz justiça com as próprias mãos em Bangcoc, sendo chamado pelos cidadãos caso aconteça uma impunidade. Quando encontra o tal criminoso, Xang age como juiz-juri-carrasco. Basicamente, ele brinca de Deus.

O personagem Julian (Ryan Gosling) queria fazer o mesmo. Sabe lutar muito bem, tem os contatos certos da cidade, tem um bom senso de justiça. Porém não quer intervir na cidade, pois sabe que é um estranho por lá. Sempre evita ter um contato maior com os boxeadores de seu clube, e com os viciados pra quem vende drogas. Mas mesmo assim, queria ser um vigilante. Queria ser um deus da cidade.

O diretor consegue deixar bem claro o paralelo entre os dois personagens de maneiras sutis, mas muito eficientes. A começar pelas suas roupas. Eles são os únicos personagens que surgem em tela vestidos de negro (como anjos da morte) por exemplo. Ou então, um fato curioso:Quando surgem em tela a 1a vez, ambos estão nas sombras. A única diferença entre os dois, é que um age e o outro reprime.

Esse ato de reprimir do personagem Julian, fica bem claro numa sequência que gerou polêmica. Nela, o personagem pede para uma prostituta o amarrar numa cadeira, e após isso a mulher começa a se masturbar na sua frente. Muitos entenderam isso literalmente, mas há um significado por trás.

Julian sempre se poe atrás das grades (o ato de pedir para ser amarrado), e sempre tem uma tentação de ir e dar uma de deus (a prostituta o atiçando, se masturbando). Porém ele só observa, fica longe do problema (não se levanta e transa com a mulher). Essa interpretação pode ser classificada como correta, se observarmos depois o momento em que Julian enfim resolve agir.

Logo depois de tomar a decisão, uma cena surge de Julian indo na direção da prostituta e enfim tomando-a. Ele resolveu retirar as algemas que o prendiam, e enfim foder com a cidade/prostituta.




O filme tem um elenco bastante competente. Que tem um vários destaques além de Ryan Gosling (que está bem, numa atuação contida mas que sempre deixa bem clara o que o personagem sente e pensa). Como por exemplo Kristin Scott Thomas, interpretado a mãe do protagonista. A atriz surge numa atuação assustadora, deixando bem claro que controla seu filho (num momento em que o humilha, logo depois a personagem levanta um novo cigarro, que é acendido pelo seu filho como um criado faria para sua Ama) e que o despreza.

Ou então o ator Vithaya Pansrigarm, que faz o personagem mais intrigante do filme. Xang é um homem obviamente perturbado, que acha que deve fazer justiça com as próprias mãos mas que ao mesmo tempo tem um carinho muito grande pela sua filha. E ao mesmo tempo, tem o hábito curioso de após "executar sentenças" (entenda como matar) ir cantar no seu karaoke favorito (isso tem um sentido maior, se considerarmos que Karaoke para os tailandeses é quase religioso, ou seja:Xang está lavando sua alma).

Apesar de ter uma história bastante pesada, muita violência (Drive parece um filme infantil se comparado a Only God Forgives, e olha que é um filme que tem uma cena em câmera lenta na qual uma mulher tem sua cabeça estourada por uma escopeta) o filme é absurdamente lindo. Pois Nicolas Windng Refn chamou para ser diretor de fotografia, o grande Larry Smith. Tem experiência em criar filmes com atmosferas de sonhos, e espaços oníricos (é dele a fotografia do grande De Olhos Bem Fechados, último filme de Stanley Kubrick que diz muito sobre sonhos e realidade).





Não é um filme perfeito, claro. É extremamente pretensioso em alguns momentos, quase que querendo dizer para o espectador "olhe como sou inteligente e você burro".

Mesmo assim não é um filme ruim, como tantos críticos disseram. É um filme que deveria ter sido feito antes de Drive, pois assim as pessoas não estariam esperando um filme semelhante. Poderiam aceitar melhor os temas propostos pelo diretor. Assim, como o personagem Xang, Nicolas Winding Refn poderia brincar de deus de uma forma menos conturbada.


Nota:8.5