terça-feira, 27 de agosto de 2013

Critica: Não Tenha Medo do Escuro




O gênero do horror/terror tem caminhado por direções muito comuns, apelando para o torture porn e sempre querendo chocar mostrando violência. Estou falando de filmes como A Centopeia-Humana, O Albergue, Jogos Mortais. Que acham que assustam mostrando violência, tripas, sadismo. O que claramente, não é verdade.

O gênero tem como objetivo assustar o espectador, não choca-lo. Existem muitos filmes de terror bem sucedidos e que não apelam para o sadismo:O Bebe de Rosemary, O Exorcista, A Bruxa de Blair, A Noite dos Mortos Vivos. Todos constituem de um horror mais clássico, inspirado em livros (como os escritos por Lovecraft, Allan Poe) e mitologias de folclore popular. Nisso podemos incluir lendas, mitos, histórias de ninar.

Guillermo Del Toro é um diretor que aprecia muito esse tipo de horror, é fã confesso do gênero dos monstros (para se ter uma ideia apenas alguns filmes da sua lista dos 10 favoritos: Nosferatu, A Bela e a Fera, Frankenstein, Freaks). Grande parte dos filmes que dirigiu flertam com o tema, desde Cronos (que se trata de vampiros) até Pacific Rim (que é sobre monstros gigantes). No caso de Não Tenha Medo do Escuro, o diretor mais uma vez escreveu o roteiro porém resolveu deixar outro dirigir. E ocupou o posto de produtor do filme. Mesmo assim, é um filme do mexicano queira ele ou não

O filme fala sobre o medo infantil, não somente de monstros e do escuro. Mas também da separação dos pais, do medo de ficar sozinho, de crescer. Claro, Não Tenha Medo do Escuro não tem como tema central essas coisas e sim a luta de uma menina para não ser arrastada para o inferno por criaturas que não conseguem ver a luz.

Por isso, temos a variação de uma lenda infantil que se analisarmos bem, é bastante macabra:A fada do dente. Que já havia sido abordada em Hellboy 2, mas que aqui ganha toda uma nova mitologia



O filme conta a história de uma menina, que vai morar com seu pai (Guy Ritchie). Um restaurador que está namorando uma outra mulher (Katie Holmes). Esta, quer ter uma boa relação com sua enteada (o que não consegue). A menina se sente solitária e descobre um segredo na casa.

Isso é o necessário para termos um bom filme de horror, que aposta num estilo mais clássico de assustar. Utilizando sombras, ruídos, ambientação (casas assustadoras e antigas, iluminação sombria, névoa), sussurros,  Não Tenha Medo do Escuro consegue fazer algo muito raro em filmes do gênero recentes:Conseguir criar tensão.

Assim como em O Labirinto do Fauno, em momento algum há uma criatura realmente escondida pela câmera. Os monstros aparecem para o espectador em todo o momento, e só não são visualizadas pelos personagens do filme. Este recurso faz com que o espectador tema pelos personagens (afinal, estão vendo um perigo que os personagens correm que estes não veem), e ainda por cima sinta ansiedade. Querendo saber o que irá acontecer no final.

Além do filme ter uma excelente mitologia das criaturas. Misturando a lenda da fada do dente, com uma espécie de medo católico (há um trato entre o Papa e os seres, para que fiquem longe do mundo). Além de investir num ótimo criador de "medo":A experiência prévia de um personagem com os monstros. No caso, de Blackwood. Que perdeu o seu filho (após este ser arrastado para o inferno por elas), e que começou a pintar quadros após ter visto os monstros.

Chegando ao climáx do filme, aonde Kim (Katie Holmes) investigando sobre Blackwood percebe que os desenhos do pintor conferem com a descrição feita por Sally, das criaturas. Sem precisar apelar para sustos gratuitos, toda a sequência gera tensão e medo no espectador (e sem mostrar uma gota de sangue).




Não Tenha Medo do Escuro só frustra numa coisa:As criaturas. Ao apostar em monstros pequenos (e muito similares a Gremlins) a trama perde parte do medo. Toda a tensão, medo, ansiedade somem. Afinal, mesmo fazendo (bastante) estrago na vida da família as criaturas não parecem perigosas. Tudo devido a sua altura, que se fosse maior com certeza faria com que o filme se tornasse muito mais assustador.

Mesmo assim, é um ótimo filme de horror. Poucos filmes recentes do gênero são tão bem feitos e tão bem construídos. Todo o visual do filme por exemplo, parece ter vindo de um livro de fábulas. Como de um livro de Neil Gaiman, que inclusive é uma das inúmeras fontes de Guillermo Del Toro para seus filmes. O diretor mexicano também é chave para entendermos o sucesso do filme:Acompanhando a produção lado a lado do diretor/quadrinista Troy Nixey, Del Toro fez com que tudo ficasse como deveria ser. Além do filme parecer ser do mesmo universo dos seus outros filmes. Tendo um final pessimista, e assustador sem medo de desapontar os acostumados com finais felizes.

Para os fãs saudosistas do gênero, Não Tenha Medo do Escuro será uma ótima experiência cinematográfica. Para adolescentes acostumados a Jogos Mortais, O Albergue e tantos outros filmes medianos de "terror", soará chato. E ainda o acusarão de algo que ele não é: Sem graça.

Nota:8.5

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