sábado, 24 de agosto de 2013

Critica: Inimigos Publicos





Michael Mann tem um estilo de cinema muito interessante, conferindo um toque autoral em todos os seus filmes sem necessariamente ter escrito a ideia original da produção. Claro, muitas vezes ele se envolve posteriormente no roteiro para mexer em algumas coisas, isso porque o cinema de Michael Mann sempre retrata uma coisa em particular: a visão da ética de trabalho de dois homens.

Sejam o taxista e o assassino de Colateral (Jamie Foxx e Tom Cruise), o químico e o jornalista de O Informante (Russel Crowe e Al Pacino), ou o detetive e o ladrão de Fogo Contra Fogo (Al Pacino e Robert De Niro), todos são homens que põe a ética de trabalho acima de tudo. O que acaba gerando consequências com suas famílias, e até mesmo com seu emocional. Podendo assim além de destruir suas relações fora do trabalho, podem  destruir suas vidas por meio de uma bala.

Inimigos Públicos retorna ao tema, e ainda adiciona um cuidadoso estudo de personagens. Ao mesmo tempo em que explora a década de 30, os métodos de agir do Fbi, as escapadas dos gangsteres da época e um novo tema na filmografia do diretor:  "Tudo bem, valeu a pena".

Em Inimigos Públicos o tema favorito do diretor surge novamente, dessa vez nos personagens John Dillinger (Johnny Depp) e Melvin Purvis (Christian Bale). O 1o é um ladrão de bancos, que vive a vida no limite. Estamos na Grande Depressão e Dillinger surge como uma espécie de resposta a tudo aquilo, quase como o personagem de Michael Douglas em Um Dia de Fúria. Por isso: assalta bancos, dirige carros velozes, tenta conquistar uma mulher bonita (Marion Cottilard). Está vivendo como se não houvesse amanhã, o que pode ser verdade (tanto pelo lado de ser um gângster procurado pela policia, quanto pelo fato de ser a Grande Depressão).





Já o personagem Melvin Purvis é um caso mais curioso ainda, a câmera do diretor não esconde: é personagem favorito de Michael Mann no filme. Purvis é um homem a moda antiga, é muito educado, muito sucinto, um verdadeiro cavalheiro. E ao mesmo tempo, economiza palavras para falar (só diz o que tem que ser dito) e é extremamente direto. Isso devido a sua herança sulista (note o sotaque do personagem, e algumas das roupas que usa: completamente brancas), e seu jeito de pensar. Ele poderia muito bem ser um personagem de um filme de John Ford.

Tudo isso fica muito claro nas cenas de apresentação dos personagens. John Dillinger surge na 1a vez, ajudando alguns amigos prisioneiros a fugirem de uma penitenciária. Atira em policiais, corre, quase morre e continua tranquilo. É um homem extremamente frio, e que não consegue se separar da adrenalina da vida que escolheu (como o personagem de Robert De Niro em Fogo Contra Fogo, que parece um misto de John Dillinger e Melvin Purvis). Mesmo assim, ao perceber que por culpa de um de seus colegas recém fugidos da prisão um de seus amigos morreu, não hesita em executa-lo. Sendo que havia acabado de arriscar sua vida para salva-lo minutos antes.

Já Melvin Purvis aparece a 1a vez no filme caçando um gangster. O bandido da vez é Pretty Boy Floyd (Channing Tatum, antes de virar o Magic Mike), e Purvis o caça com um misto de calma e obstinação: ao mesmo tempo que não está tenso com a situação, não se contentará se o bandido escapar. Por isso, segue todos os procedimentos da polícia ao avistar um criminoso fugindo (o pede para parar, os direitos que tem) antes de enfim meter uma bala de um rifle no estômago do rapaz.

Ao matar um homem, Purvis é tão frio quanto Dillinger porém há uma diferença: Purvis pensa que fez tudo que pode para impedir aquilo. Matar é o último recurso (diferente de Dillinger, que não tem consciência pesada para nada). Algo que o irá confrontar depois, quando perceber que os trabalhos que J Edgar Hoover (Billy Crudup) o manda fazer são indignos.

O choque entre as duas éticas profissionais (mas ainda assim tão similares) chegará ao seu ápice numa cena específica. Quando Purvis vai se despedir de Dillinger na prisão. Ao chegar lá, Purvis é recebido com entusiasmo por Dillinger que é extremamente verborrágico e provoca o policial de todos os jeitos possíveis. Purvis só diz uma fala, e se retira. Porém antes de sair é confrontado por Dillinger numa frase. Que não é surpresa dizer que é "Você tem consciência pesada?".




Além do incrível estudo de personagens, Inimigos Públicos é um filme tecnicamente perfeito. Michael Mann mais uma vez optou por filmar com câmeras digitais (a 1a vez tinha sido com Colateral, a fim de retratar a cidade de Los Angeles de uma forma nova), para justamente mostrar o filme de gangster com um novo olhar. Filmando os tiroteios com elas, o resultado fica completamente novo: Não parece que estamos vendo um tiroteio de polícia e ladrão, e sim presenciando uma guerra/cruzada. O design de som do filme consegue deixar isso bem claro (possuidores de Home Theater comprem o filme, vocês não vão se arrepender).

Eu sou suspeito para falar, pois sou muito fã do diretor, mas Inimigos Públicos é mais uma obra-prima de Michael Mann. Que referencia (e até mesmo presta tributo) aos filmes anteriores do diretor, que homenageia o filme de gangster, o western (o clássico "Um homem tem que fazer, o que um homem tem que fazer). Além de mostrar uma nova perspectiva:A aceitação.

No fim do filme, Dillinger assiste um filme de Clark Gable de um gangster que iria ser morto mas que ainda assim não se arrepende de nada que fez. Aquilo havia valido a pena, tudo o que viu e sentiu. O sorriso de Dillinger ao ver a cena não esconde: Ele sente o mesmo.

E felizmente, nós espectadores sentimos o mesmo:Valeu muito a pena assistir Inimigos Públicos

Nota:10