domingo, 11 de agosto de 2013

Critica: Circulo de Fogo (Pacific Rim)



Em determinado momento de Círculo de Fogo (Pacific Rim), o personagem Hannibal Chau (interpretado pelo eterno Hellboy, Ron Perlman) explica seu nome. "Peguei o nome do meu personagem histórico favorito, e de um restaurante chinês da rua 10". O diretor do filme Guillermo Del Toro, faz coisa similar nos seus filmes. Pega vários ingredientes (de filmes de terror, contos de fantasia, quadrinhos, animes) e põe tudo num roteiro muito bem feito, e coeso.

Essa retirada de ingredientes, chega ao seu ápice em Círculo de Fogo. Uma verdadeira homenagem do diretor mexicano aos filmes de Monstros Gigantes. Misturando na sua fórmula influências de anime, de filmes de monstro dos anos 70, de quadrinhos que leu, homenagens explícitas aos grandes clássicos do gênero.

Nas mãos de um diretor menos experiente, Círculo de Fogo poderia soar extremamente artificial e vazio. Mas felizmente, o diretor é Guillermo Del Toro. Que desde seu primeiro filme (o excelente horror Cronos) exibe uma dedicação impressionante com seus filmes. Para se ter uma ideia, é um dos poucos diretores que em cada filme que dirige escreve um livro de ideias. Pode ser um filme de ação baseado em quadrinhos (Blade 2, Hellboy), ou uma fantasia baseada numa ideia própria (O Labirinto do Fauno), tudo tem a mesma relevância para Guillermo Del Toro. Todos tem o mesmo objetivo:Fazer o melhor filme possível.

Círculo de Fogo já chama a atenção por se tratar de um filme extremamente despretensioso. Diferente de quase 90% dos filmes que chegam aos cinemas hoje, Círculo de Fogo não aposta numa trama sombria, ou numa reviravolta no final. É um filme com proposta simples, com personagens que cumprem sua função na trama (todos os personagens tem razão para estarem ali, isso é muito raro em produções recentes), com efeitos especiais espetaculares, preocupação com a fluidez da ação (já explicarei) e recheado de nostalgia.




Um ponto que gostaria de começar abordando, é a preocupação que a produção do filme teve com os robôs. Diferente de um Transformers, os robôs de Círculo de Fogo (que tem o nome de Jaeger, em alemão "caçador") se movimentam como se realmente existissem. Não entendeu? Perceba que em Transformers todos os robôs são super rápidos, dão socos em velocidades inacreditáveis, e mudam de escala de uma hora pra outra (não é necessário ser um gênio pra perceber que a produção de Transformers é extremamente preguiçosa). Em Círculo de Fogo, os robôs tem sua velocidade extremamente reduzida devido ao seu peso. Os golpes que dão, não são rápidos. Afinal, é difícil se movimentar quando se pesa mais que 1,980 toneladas.

Esse peso dos robôs nas cenas de ação, acreditem ou não mudam muita coisa para o espectador. Cada vez que um Kaiju surge (Kaiju em japonês siginifica "Monstro Gigante), o espectador sente receio. Como os personagens, eles sentem todo o trabalho necessário para executar os monstros. Por isso não estranhe se você se sentir cansado após uma batalha. Esse era o objetivo.

Já que poucas linhas atrás falei um pouco deles, nada mais justo que falar dos Kaijus. Aqui percebemos que Guillermo Del Toro é um verdadeiro apaixonado pelo gênero, botando todas as referências possíveis nas batalhas. Temos desde Kaijus que parecem ter vindo de produções dos anos 70 (a criatura que parece um crustáceo, por exemplo), até Kaijus que parecem vindos de produções (pasmem) dos anos 2000 (temos uma criatura idêntica a que aparece em Cloverfield, repare nos braços do monstro, e perceba a brincadeira que o roteiro faz ao mostrar a verdadeira razão deles serem daquele jeito).

Há também referências mais escondidas. Por exemplo, o Kaiju que anda como um gorila. Para quem não sabe, o personagem Godzilla era para ser inicialmente um misto de gorila com baleia. Simplesmente, criaram o Godzilla inicial no filme (visto que além de tudo, o Kaiju tem também um visual semelhante ao de uma baleia).

É interessante notar também que o visual das criaturas, dos Jaegers, das bases, enfim do filme todo é absolutamente único. Guillermo Del Toro tem um cuidado com o visual dos seus filmes, de forma que todas suas produções são extremamente atraentes visualmente (e felizmente, não são só filmes visualmente belos). Repare por exemplo o sangue dos Kaijus, sempre tem um aspecto brilhante com cores leves (de forma que o filme mesmo mostrando sangue, ainda pode ser assistido por crianças). Ainda que o filme tenha muitos momentos de humor negro, dignos dos filmes de Hellboy ou de Blade 2 (o momento que um bebê Kaiju volta a vida).





Há quem diga que o filme é clichê, com uma trama pouco inspirada, e com personagens rasos. Eu discordo, pois o objetivo era fazer uma homenagem apaixonada ao gênero dos monstros gigantes. Como George Lucas e Steven Spielberg fizeram para os filmes de aventura dos anos 40 (com seu Indiana Jones), Quentin Tarantino e Robert Rodriguez fizeram para os filmes Grindhouse dos anos 70 (com seus Planeta Terror e Á Prova de Morte).

O filme faz muito mais que contar uma história, cria todo um mundo que teve que se adaptar ao receber os ataques dos Kaijus. Por isso temos cidades com abrigos, o mercado negro vendendo pedaços dos corpos dos Kaijus, restaurantes com os nomes dos monstros, brinquedos dos Jaegers. Além de também mostrar um tema que já era presente na filmografia de Del Toro:A união dos povos por uma causa maior. Por isso, ao perceberem que podem ser mortos pelos Kaijus, as nações se unem com o objetivo de destruir os monstros e sua fonte:O Círculo de Fogo. Essa união para destruir uma ameaça, já era presente em Blade 2 por exemplo. Que inclusive, também tinha a questão das equipes (só que lá, equipes de vampiros e aqui equipes de pilotos de Jaegers).

Em relação aos "personagens rasos", é ridículo dizer que os personagens são clichês ou então que são muito caricaturais. Cada personagem ali tem seu motivo, e razão para estar no filme. Pode ser o soldado com um trauma do passado que é chamado para o dever novamente, o seu comandante que tem que fazer um discurso para animar as tropas, a jovem com boas notas mas que não sabe como irá agir em campo. Todos são muito bem construídos, e todos funcionam muito bem em tela.

Claro que alguns tem mais destaque que os outros. E o grande destaque do filme é a personagem Mako (Rinko Kikuchi), que é uma sobrevivente de um ataque de Kaiju a Tóquio (note as cinzas caindo sobre sua cabeça, se você se lembrou de uma cena pós ataque a Hiroshima na 2a Guerra, você acertou) que foi resgatada. A única sobrevivente, um símbolo de esperança.



Não consigo esconder, amei Círculo de Fogo. Um filme em que Del Toro mais uma vez constrói um universo fantástico, mais uma vez faz as homenagens mais incríveis (e apaixonadas), mais uma vez faz cenas de ação absurdamente empolgantes.

Para as pessoas que estavam preocupadas com plágios a Evangelion eu só tenho a dizer uma coisa:Relaxem. Para qualquer pessoa que estava com dúvida em relação a Círculo de Fogo, esqueçam elas e comprem um ingresso para uma sessão em 3d do filme (foi a 1a vez que assisti um filme convertido para 3d, que o 3d funciona tão bom quanto Hugo Cabret, um filme que foi filmado com câmeras 3d). Chame os amigos, e aproveite a sessão. É muito raro ver um filme de ação tão bom assim hoje em dia, mais raro ainda um filme tão bem feito hoje em dia. Círculo de Fogo consegue tudo isso, e muito mais.

Nota:10