terça-feira, 23 de julho de 2013

Critica: Um Parto de Viagem




O último filme que Todd Philipps dirigiu até 2010, foi Se Beber Não Case, que trouxe as comédias adolescentes dos anos 80 de volta aos cinemas, investindo numa trama envolvendo melhores amigos, mistério, realismo, um pouco de violência, que fez com que o filme fosse um enorme sucesso de bilheteria. A mensagem era clara:Filmes como Clube dos Cafajestes (clássico oitentista dirigido por John Landis) ainda estavam no gosto do público, nunca haviam envelhecido.

Um Parto de Viagem é o novo filme do diretor, e é claramente inspirado no clássico filme de John Hughes Antes Só Do Que Mal Acompanhado, filme que mostra as desventuras de um homem que tem que seguir viagem com um ser absurdamente irritante ao seu lado. Claro que se comparado com esta "refilmagem", o filme de John Hughes é quase um filme família (algo que claramente não é). Afinal, investindo em piadas de humor negro, Um Parto de Viagem muito provavelmente não agradará grande parte do público que frequenta cinemas. Temos piadas com cadeirantes, com o 11 de setembro, violência com animais, e por aí vai. Além das já clássicas, piadas de baixo calão.

Porém se o espectador gosta de uma boa dose de humor negro, gosta de Se Beber Não Case, gosta de road movies, muito provavelmente irá gostar de Um Parto de Viagem. Filme que só não é melhor que o trabalho anterior de Todd Philipps, por investir num par de cenas com piadas sem graça. Feitas claramente para fazer adolescentes idiotas rirem no cinema.

Se não fosse por estes problemas, Um Parto de Viagem poderia se tornar um clássico da comédia. Como Antes Só Do Que Mal Acompanhado, ou até mesmo Se Beber Não Case. Mas mesmo não sendo um clássico moderno, Um Parto de Viagem  merece ser visto. Pelas suas características técnicas, seu humor sujo, e principalmente:Pelos protagonistas, interpretados por Robert Downey Jr e Zack Galifianakis.



Começo falando pelo talento do diretor Todd Philipps, que mesmo num filme de comédia consegue criar cenas plasticamente belíssimas. Não raro, nos surpreendermos ao longo da produção. Nos perguntando "Estranho, esse não era um filme de comédia? Que belas direção e fotografia". Basta destacarmos a cena no Grand Canyon, que perceberemos que não estamos diante de um diretor de comédia medíocre (cof, cof, diretores de Deu a Louca em Hollywood).

Isso já era perceptível em Se Beber Não Case (as cenas filmadas no deserto são a prova viva disso), filme com quem Um Parto de Viagem curiosamente tem ligações visuais. Em ambos, temos presentes diversos elementos:Os óculos de aviador vermelhos, o bulldog francês, as paisagens desérticas, a criança recém-nascida.

Além do mais importante:O personagem gordo (possivelmente com problemas mentais), que causa toda a confusão. Interpretado por Zack Galifianakis, Ethan é uma caixa de Pandora ambulante. Tornando a viagem cada vez mais mais complicada de ser realizada, Ethan é um ser que dá raiva, mas que ao mesmo tempo da dó. Nós espectadores, sentimos o mesmo que personagem Peter (Robert Downey Jr) sente.

Peter é o personagem mais interessante do filme todo, interpretado por Robert Downey Jr o personagem é uma bomba relógio. Sistemático (note como tem tudo planejado antes de viajar:Desde o presente para a criança, até a forma que usa para se comunicar com sua esposa), controlador, entediado. Ex paciente de um grupo de controle da raiva (note a forma que poe as mãos na testa, quando algo o frustra), Peter é a última pessoa do mundo que poderia aturar uma viagem ao lado de Ethan.

Robert Downey Jr consegue atuar muito bem como o símbolo máximo do stress. Claramente se divertindo (a cena em que cospe no cachorro, ou então dá um soco num garoto de 7 anos), o ator consegue refletir até mesmo nos gestos o quão oposto é do personagem de Zack Galifianakis.

Mesmo assim, uma coisa os une:Os pais. Enquanto Peter nunca conheceu muito bem seu pai (que o abandonou quando tinha 5 anos), Ethan acabou de perder o seu. Ambos tem contas a acertar com o passado nas suas formações como homem (Peter não chegou a ter um pai para lhe ensinar as coisas, e o pai de Ethan o tratava como uma criança, morrendo antes de chegar a trata-lo como adulto).

Nada mais justo então, do que os dois passarem por uma jornada que envolve a paternidade. Peter como o cavaleiro, (que poderá ter a chance de acertar aonde seu pai errou), e Ethan como seu fiel escudeiro (observando de longe o que é um verdadeiro pai).




No elenco, ainda temos boas participações especiais. Juliette Lewis (a eterna protagonista de Assassinos Por Natureza), Jamie Foxx (o eterno Django, de Django Livre), Danny Mc Bride (da série da Hbo Eastbound e Down), Michelle Monaghan (como a eterna esposa do protagonista, que fica ao telefone aguardando o marido preocupada) não comprometem e fazem bem seus papeis.
Além de uma brincadeira com Two And a Half Men (que tem participação de Charlie Sheen e Jon Cryer, bem antes da substituição por Ashton Kutcher vale dizer), que deve arrancar umas risadas a mais.

Um Parto de Viagem é um filme subestimado. Só assisti recentemente pela morna recepção da crítica, e acho injusto criticar tanto o filme. Visto que cumpre bem o que promete:Uma comédia descompromissada, com um bom elenco, e boas piadas. Para os que dizem que o filme não tem graça nenhuma, eu apenas relembro a cena em que os personagens fumam maconha, com a música "Hey You" (Pink Floyd), ao fundo.

O filme não é melhor que Se Beber Não Case (o 1o vale dizer, visto que Um Parto de Viagem é muito melhor que as duas continuações da comédia de 2009), isso devido a duas cenas que surgem no início da comédia. Uma delas revelando um hábito nojento que Ethan (e seu cachorro) tem. Cenas totalmente desnecessárias, que só foram postas para fazer adolescentes idiotas rirem.

Nada que comprometa o filme, a melhor comédia de 2010. Que poderia ser melhor que Se Beber Não Case (é em termos técnicos, e no elenco, pelo menos), mas que não conseguiu.

Nota:8.0