sexta-feira, 19 de julho de 2013

Critica: Homem de Aço





Um herói é alguém que tem as capacidades necessárias para superar um determinado problema, que esteja afligindo outro ser. Requer sacrifício, altruísmo, força de vontade. Superman tem todas essas características, e ainda tem um detalhe a mais (bastante significativo):Tem super poderes. Quase como um deus, se comparado aos mortais.

Este último detalhe torna Superman um personagem de quadrinhos muito difícil de se transpor para o cinema. A primeira adaptação cinematográfica  do personagem veio em 1978, com Christopher Reeve no papel principal. O filme era fiel aos quadrinhos, porém investia mais no humor e no romance do que no personagem em si (apesar de ter criado o Superman definitivo:Christopher Reeve). Anos depois, em 2006, surgiu Superman O Retorno. Que veio com a proposta de fazer uma homenagem ao filme de 1978, por isso tinha romance e humor, além de por várias situações "heroicas" para o herói. Como salvar aviões, levantar prédios, salvar pessoas. O filme foi um fracasso de bilheteria.

O público, por mais que saudosista e tendo amado o filme de 1978, não queria mais o mesmo estilo de filme para o personagem. Um remake era necessário.

Nada mais justo que perceber, que Homem de Aço (Man of Steel) não investe no humor ou no romance. Sim, tem cenas de ação espetaculares (fãs que detestaram Superman O Retorno, relaxem). Mas o grande foco do filme são algumas perguntas. Tais como: O que significa a existência do Superman? O que mudará pra Terra?

Além da pergunta chave do filme:O que significa ser um herói?



Para se analisar o filme, primeiramente temos que começar dissecando as figuras dos pais de Superman:Jonathan Kent (Kevin Costner, pai adotivo), e Jor El (Russel Crowe, pai biológico).
O 1o acredita que Superman não deve se expor. Que se o mundo descobrir a verdade de seus poderes, irão teme-lo e persegui-lo. Por amar muito seu filho, Jonathan sempre recomenda que o filho se controle. Se um valentão o empurra na escola, Jonathan ensina seu filho a se acalmar. Se os poderes assustam o jovem, Jonathan o ensina a como controlar melhor os poderes.

Já o 2o, acredita que seu filho deve se expor. Que ele é a ponte entre Krypton e a Terra, que ele é um símbolo de esperança, e que está destinado a grandeza. E o principal:Que o filho tenha total liberdade em escolher o que quer ser. Mas que não se esqueça de suas origens Kryptonianas.

Ambos os pais afetam muito o personagem do Superman. Kal El (o nome do herói em Krypton) aprende com Jonathan Kent a ter paciência, e com ele aprende os valores morais. Adquirindo assim, senso de justiça. Além de também adquirir malícia, no sentido de desconfiar das pessoas (percebendo assim quando elas mentem). E aprende com Jor El toda cultura Kryptoniana, e o que implica ter super poderes.

Tudo isso converge em Superman se tornar um herói, adquirindo amor pelo povo da Terra, senso de justiça, e aprendendo a usar seus poderes. Um verdadeiro deus, entre os mortais.

Essa parte dos poderes, leva a outro fato curioso:A semelhança de Kal El com Jesus Cristo. Ambos tem 33 anos, ambos vieram para salvar um povo, ambos tem um detalhe significativo no sangue (Jesus na Santa Ceia, e Superman, bem assistam o filme), ambos tem um senso de justiça inabalável. Isso tudo chega ao extremo, quando em determinado momento o herói entra numa igreja e atrás dele está um vitral de Jesus.



Os poderes levam a outro tópico interessante que o filme felizmente aborda:O impacto do Superman para a Terra. A população obviamente sente medo, por ser alguém com poderes divinos. É uma reação natural do ser humano temer aquilo que desconhece, em O Homem de Aço não é diferente.

Por isso não são raras as cenas nas quais o herói é filmado como um verdadeiro deus, como na sequência aonde se rende ao exército. Superman estava voando, e desce lentamente em direção aos militares. A câmera o filma de baixo pra cima (isso faz com que o ator pareça maior, e tenha mais imponência), o herói deixa claras suas intenções (ele está ali para ajudar, mas o irá fazer do jeito dele, além do que os humanos não tem muito o que questionar), e se rende.

Entrando agora no lado nerd dessa cena:Esse é o Superman que sempre quis ver em tela. A minha ideia do Superman sempre foi um homem mais velho (com quase 40 anos), que fosse imponente, e que deixasse bem claro que é um deus entre os humanos, mas que os queria ajudar. O ator que escolheram para ser o herói consegue tudo isso, consegue convencer muito, e só tem 30 anos. Um verdadeiro feito.

O ator consegue ser versátil também, na hora de interpretar as diferentes fases do personagem. Temos o Kal El de 20 anos, o Kal El de 30 anos-antes de descobrir suas origens-, o Kal El de 30 anos-depois de tomar conhecimento de suas origens. Além de conseguir diferir entre Clark Kent e Kal El. Não só mudando a voz, mas no semblante e até no jeito de andar (Clark anda mais rápido e mais nervoso, enquanto que Kal El anda devagar, como se não tivesse pressa pra nada, o que convenhamos faz sentido, afinal é o Superman).


O diretor Zack Snyder já tinha se mostrado um fã de histórias em quadrinhos, duas vezes antes na sua filmografia. Mas diferente de 300 e Watchmen, Superman não tem uma história pesada e é bastante conhecido pelo público (por mais que 300 e Watchmen sejam bastante conhecidos, leigos em quadrinhos desconhecem os dois). Por isso é um desafio enorme conseguir recontar uma história, que todos já conhecem de cabo a rabo.

Mas podemos perceber que Zack Snyder sabia disso. Sabia que seu público já conhecia a história do personagem, e confia na sua memória para continuar o filme. Tanto que quando a nave de Kal El, chega na Terra, há um súbito corte para Kal El já adulto.
Quase como se estivesse dizendo ("Todos já sabemos essa parte da história, eu sei que você sabe, não irei te aborrecer contando novamente. Confio em você"). É difícil encontrar um diretor que confie tanto assim no seu público.

Zack Snyder além de ser fiel a cronologia oficial do personagem, também consegue inserir elementos novos na história. Isso é bastante perceptível em Krypton, com uma nova cara para o planeta natal do Superman, e até mesmo inserindo criaturas do estilo Avatar.

Também é importante perceber que o diretor bebe do estilo de outros diretores que admira. Temos uma clara influência do estilo de cinema de Terrence Malick (nas cenas de infância, filmadas como se fossem os olhos de uma criança), de J.J Abramms (temos muitos flares nas cenas de ação, e também os súbitos zooms característicos do cineasta). O primeiro estilo serve para podermos identificar o personagem como alguém como nós, com sentimentos e dúvidas (além da responsabilidade de ser o salvador do planeta). E o segundo estilo para ter uma diferença nas cenas de ação.

Para quem não sabe. Zack Snyder é um diretor que usava muito slow motion em seus filmes. E parece que percebeu que a câmera lenta não funcionaria aqui, por isso tirou um pouco de seu estilo próprio, e tentou emular outros diretores. Mas vale ressaltar, que o estilo do diretor ainda está presente. Como nas cenas pesadas (quando o herói é criança e se tranca no armário), que a granulação é idêntica a de Watchmen por exemplo. Além de em algumas cenas, recorrer a recursos de cenas similares a de outros filmes que dirigiu, a fim de fazer com que o espectador sinta sentimentos semelhantes (a cena em que Superman está no deserto gelado, é idêntica a cena de Watchmen, em que o Dr Manhattan se isola em Marte).




Para os que reclamaram de Superman O Retorno pela falta de ação, tenho uma boa notícia:O Homem de Aço é um grande filme de ação:Ininterrupta, exagerada e barulhenta. Parece que Zack Snyder queria ressaltar que o personagem é muito poderoso, assim cada luta de Kal El contra um inimigo destrói pelo menos um prédio de Metrópolis.

As cenas de ação, apesar de muito boas, levam a um problema do filme:A destruição é tão grande, e tão exagerada, que fica difícil de acreditar que alguém tenha sobrevivido a aquilo. E mais, é difícil acreditar que a cidade irá se recuperar aquilo. Tudo bem, nos quadrinhos Metrópolis é destruída o tempo todo, mas ao apostar num estilo mais realista o filme devia ter se preocupado um pouco.

Outro problema do filme é a insistência do roteiro de por Lois Lane (Amy Adams, linda como a repórter) no meio das cenas de ação. Além de ser ridículo muitas vezes ela ser a única que conseguiu sobreviver.

Mesmo assim, recomendo muito O Homem de Aço (vocês perceberam). Um excelente filme, que tem o mérito de ressuscitar o personagem, de maneira belíssima. Parafraseando Lois Lane em determinado momento do filme "Bem vindo ao planeta". Você fez muita falta, Superman.

Nota:9.0