domingo, 28 de julho de 2013

Critica: Amor Pleno (To The Wonder)





Os filmes de Terrence Malick sempre tiveram uma forte ligação com a presença de Deus:Em Dias de Paraíso havia a questão do pecado do casal que enganava o fazendeiro doente, em Além da Linha Vermelha o sentimento de culpa pelo ser humano fazer guerra num lugar tão belo feito por Deus, em A Árvore da Vida os questionamentos de um casal sobre algumas decisões feitas pelo Senhor Supremo.

Também é interessante notar que a questão religiosa presente leva involuntariamente a questão do amor. Que é tão presente nos filmes de Terrence Malick, quanto a questão religiosa. Em Terra de Ninguém temos o amor do casal de criminosos, em Dias de Paraíso o romance proibido dos dois jovens (que fingem ser irmãos, gerando assim uma espécie de incesto), em Além da Linha Vermelha o amor dos soldados pela terra que destroem quando guerreiam, e em A Árvore da Vida o amor que o casal tem pelos filhos.

Amor Pleno é um filme que por mais que ainda lide com a questão religiosa, tem como foco abordar o amor. De uma forma muito mais visual do que verborrágica. Não espere assistir o filme esperando algo no estilo de Closer (de Mike Nichols), que com diálogos afiados aborda a questão do amor de maneira mais cruel. Em Amor Pleno, a abordagem é muito mais pura, buscando abordar as facetas do amor.

Na trama, uma européia (Olga Kurylenko) começa um relacionamento com um americano (Ben Affleck). Isso é o que posso falar da trama do filme, este é um dos casos em que é melhor observar do que ouvir. É justo portanto que o filme tenha pouquíssimos diálogos.



É interessante perceber como que Malick mostra as diferentes formas do amor, no filme. A personagem de Olga Kurylenko por exemplo. Marina é divorciada, e tem uma filha. Mas quando conhece o personagem Neil (Ben Affleck) o vazio que sentia antes acaba. Ela se sente renovada, feliz e confiante com o futuro. Não é a toa, que o filme não mostre como era a vida de Marina antes de conhecer Neil, pois não existe mais o vazio nem a tristeza da ferida do seu antigo amor. Existem diversas cenas que demonstram o estado de espírito da personagem, quando por exemplo anda sobre águas num momento em que o reflexo dos raios do sol, dão a impressão que a mulher está flutuando.

O personagem Neil (Ben Affleck) é tão interessante quanto. A câmera de Malick sempre o filma de forma distante, e até mesmo fria (muitas vezes o personagem está de costas, ou até mesmo nas sombras). Neil não tem esse vazio que Marina tinha antes de conhece-lo, por isso não ama com a mesma intensidade que seu amor o ama. Isso não significa que Neil não a ame (o filme faz questão de ressaltar que com o amor que o personagem sente por Marina, o mundo de Neil se enche de cores fortes, em contra partida quando se separa dela seu mundo fica extremamente monocromático), significa que Neil não sabe o que está ganhando.

E em consequência, não sabe o que está perdendo. Por isso o momento em que começa um relacionamento com outra mulher (Rachel McAdams) se torna tão importante:Neil começa a comparar o amor que sentia e o que sente no momento. E percebe que preferia o outro amor.






O amor também surge em outra faceta, na forma que o padre, interpretado por Javier Barden, mostra pra Neil. Na forma de pequenos gestos, não concentrar o amor em uma só coisa (ou pessoa). Mas no seu cotidiano, com as pessoas e criaturas na sua volta.

Ao mesmo tempo é curioso perceber que o padre está passando por uma crise religiosa. Que nunca fica exatamente estabelecida no filme, mas que podemos presumir que seja justamente pelo amor. Por não receber o amor das pessoas em sua volta, por ser sempre tratado como o simples padre. Alguém que as pessoas julgam que se priva do amor, mas que na realidade é bem diferente. Ou então por perceber que as pessoas não amam umas as outras. Com o padre, também chega a questão da religião:Como é possível amar todos os seres vivos? Como é ser um ser supremo que ama todos igualmente? Ou então, de forma mais modesta, como é possível ser um padre sem se privar do amor?

Terrence Malick é um diretor que costuma trabalhar com os mesmos profissionais em seus filmes, por isso é justo destacar a linda fotografia de Emmanuel Lubezki. Que como em A Árvore da Vida, faz com que as imagens pareçam ser vindas de sonhos. Ou então, algo mais íntimo como por exemplo:Memórias.

O filme é extremamente autobiográfico, Malick pôs muitas passagens de sua vida no roteiro do filme. Tanto nos relacionamentos que teve na sua vida, quanto nos que observou (em alguns momentos a câmera parece estar retratando a perspectiva de uma criança, observando as discussões dos pais). Não duvido que em muitos momentos estejamos assistindo a algo muito próximo das memórias do diretor.




Uma pena que o filme não tenha chegado no circuito comercial de muitos cinemas, pois é um filme incrivelmente visual. Feito para ser visto na tela do cinema, ou então com a imagem cristalina de um blu-ray (irei comprar o filme em High Definition com certeza).

Amor Pleno é mais uma obra-prima de Terrence Malick. Um diretor que infelizmente não é bem compreendido pelo público (tenho certeza que o espectador que só assiste blockbusters irá xingar muito o filme nas redes sociais), mas que tem muito a dizer sobre o ser humano e suas questões.

A fé, a religião, a culpa, as decepções e a mais importante de todas:O Amor. Sua beleza, suas trapaças e sua grandiosidade. E é claro, da paz espiritual que este traz a todos os seres humanos.

Nota:9,0

"You shall love whether you like it or not. Emotions, they come and go like clouds. Love is not only a feeling; you shall love. To love is to run the risk of failure, the risk of betrayal. You fear your love has died; perhaps it is waiting to be transformed into something higher. Awaken the divine presence which sleeps in each man, each woman. Know each other in that love that never changes."