domingo, 7 de abril de 2013

Critica: Guerra ao Terror (The Hurt Locker)





A guerra já foi tema de muitos filmes. Muitas produções já abordaram os diversos temas de discussão que a Guerra proporciona. Filmes abordando o patriotismo americano como em O Resgate do Soldado Ryan, a loucura da guerra como em Apocalypse Now, as dúvidas dos soldados em Além da Linha Vermelha. Guerra ao Terror fala sobre a adrenalina que a guerra proporciona. Muitos soldados tendem a ter uma válvula de escape da tensão, violência e morte:Prostitutas, a Bíblia, alcool, drogas, ligações para a família. Mas o Tenente William James (Jeremy Renner) não.

O protagonista de Guerra ao Terror simplesmente mergulha de cabeça na adrenalina, e não possui uma válvula de escape para justamente a confusão mental, a loucura, a violência que a guerra proporciona. Assim como em Apocalypse Now (que começa com uma música do The Doors que diz "This is The End")o texto que abre o filme, não esconde sua opinião sobre os conflitos:"A Guerra é uma droga."

Guerra ao Terror fala sobre um Esquadrão Anti-Bombas no Iraque, que ao perder o seu comandante numa explosão (uma ponta rápida de Guy Pearce), tem o comando substituído por um Tenente (Jeremy Renner) que por mais competente que seja, não liga muito para as regras. E que assim, pode pôr a vida de toda a equipe em risco.

É necessário dizer que esse plot poderia facilmente se transformar em um filme de ação ridículo, e mal feito. Cheio de frases de efeito, e estrelado por um desses astros de ação idosos, dos anos 80 (consigo ver um poster com "Guerra ao Terror" estrelado por Dolph Lundgreen). O que felizmente não é o caso aqui. Devido a direção de Kathryn Bigelow, diretora de filmes como Caçadores de Emoção.



Kathryn Bigelow realiza um trabalho fascinante. Cenas como o combate contra os snipers, dão medo e uma sensação de desorientação no espectador.A direção aposta numa espécie de estética documental, e que ao mesmo tempo não tem a pretensão do falso documentário. Se a estética está ali por um motivo, este é para por a platéia na pele dos soldados. Para que sintam a tensão, e o medo que eles sentem. Quando um soldado percebe que se um estilhaço tivesse acertado 2 centímetros para esquerda, este perderia sua vida e sangraria como um porco na areia, nós sentimos também. Tememos pela vida dos soldados.

Guerra ao Terror flerta com todos os temas de filmes de Guerra. Há a loucura, o caos, as dúvidas (será que estamos fazendo alguma coisa certa? Há mesmo um inimigo?), o medo. Mas está muito mais interessado em abordar o vício do Tenente William James (Jeremy Renner). O personagem surge como um viciado em drogas, e somente ele não percebe isso.

Essa comparação fica mais explícita na cena em que o tenente vai retirar uma bomba de um carro. O Tenente está entusiasmado, sua muito, aproveita a adrenalina que a situação propõe. E por fim, quando termina, joga um cabo da bomba fora. Como um viciado em heroína faria, ao descartar sua seringa. Após encerrar sua tarefa, o personagem está em êxtase se. Treme, sorri, quase pede para fazer de novo.Simplesmente brilhante.

É interessante que ao mesmo tempo que vemos o personagem adorando cada momento da guerra, vemos o contraste dele com os soldados que desejam voltar para casa. Na cena em que o Tenente James, tenta consolar um soldado que quase morreu por exemplo, a expressão no rosto do Tenente é clara:Ele entende o soldado, e o inveja. Mas não consegue sentir o mesmo que ele, não consegue mais. Já é uma guerra perdida.



Como muito bem apontou o crítico Marcelo Hessel na sua crítica, Guerra ao Terror não esconde sua opinião sobre a Guerra do Iraque. É uma guerra perdida, e sem sentido. Já nasceu suja. Como na cena em que passam munição para um sniper:O cartucho já vem sujo de sangue.

Guerra ao Terror porém, não é perfeito. Depois da metade do filme, o enfoque da busca pelo jovem árabe Beckham, a trama perde ritmo. E facilmente poderia-se cortar esta trama paralela.

É claro que ao mesmo tempo fica-se a pergunta:Será que a cena não foi feita para dar uma noção completa sobre a Guerra do Iraque? É o mesmo que dizer que deveria ter sido cortada a cena dos franceses de Apocalypse Now. Uma cena que juntando com o filme, dá se todo um panorama sobre a Guerra do Vietnã. É claro que a cena de Apocalypse Now, foi cortada. E só foi adicionada depois, na versão Redux. Penso que deveria ter sido o mesmo com Guerra ao Terror.


É interessante notar que o filme é extremamente independente. E foi lançado aqui no Brasil primeiramente em dvd. Só depois que vieram as indicações ao Oscar, que retiraram o filme das prateleiras e o lançaram no cinema. Mas é um tanto curioso que o filme tenha recebido tantos Oscars. Não é um filme bonito, não é patriota, possui um final pessimista, é cru, violento.

É mais interessante um filme que levante tantas discussões interessantes tenha ganhado o prêmio de Melhor Filme, muito mais do que um Quem Quer Ser um Milionário ou um O Artista por exemplo. E creio eu, mais do que um Avatar. Não, seria muita pretensão minha julgar isso.

Guerra ao Terror é um dos melhores filmes de 2010. Não cabe a mim dizer se realmente merecia o Oscar de Melhor Filme, porém se devia-se dar um Oscar ao menos para a produção, este seria o de direção, para Kathryn Bigelow. Uma das mais firmes dos últimos anos, num dos melhores filmes de Guerra dos últimos anos.

Nota:9.5