domingo, 7 de abril de 2013

Critica: Uma Historia de Amor e Furia


Uma História de Amor e Fúria é um filme nacional. Uma animação nacional. Demorou muito tempo pra ser completada e contou com um investimento relativamente ralo.

Mas o resultado final é um longa que carrega consigo a identidade do cinema brasileiro e ao mesmo tempo encontra espaço para ser corajoso o suficiente pra atacar os portugueses colonizadores, a polícia e os militares, passando e dando uma geral da história do Brasil pelo ponto de vista dos oprimidos - sendo inclusive um pouco didático - sem esconder a violência, a tortura e as barbaridades que aconteciam ali em momento algum.

E tudo isso por meio de nosso protagonista - dublado por Selton Mello - que está vivo ha mais de 600 anos e foi testemunha de todos esses acontecimentos, desde a repressão dos portugueses no Brasil colonial quando era um índio da tribo Tupinambá até um futuro especulativo (fascinante por sinal) de 2096 onde o governo monopoliza e exporta a água a preço de ouro deixando o povo passando sede - passando pela Balaiada e pela Ditadura Militar. E tudo isso em busca de Janaína - dublada por Camila Pitanga - a mulher cujo amor transcende as épocas mas que sempre acaba com finais trágicos.

O roteiro de Luiz Bolognesi é simplesmente genial. Usando uma estrutura que, em teoria, é desconexa (afinal, como ele está vivo há mais de 600 anos? E como Janaína sempre reaparece na vida dele?), mas que na prática funciona com uma fluidez invejável (e também tenham consciência de que eu omiti detalhes importantes da história na minha sinopse) e que segue uma lógica proposta pelo próprio roteiro. Talvez algumas pessoas mais céticas torçam o nariz para essa lógica, mas isso não faz dela ruim. Ela apenas exige uma mente um pouco mais aberta e uma imersão maior. Falarei mais sobre isso na segunda parte da crítica.

A atuação de voz jamais deixa a desejar. Os diálogos às vezes são tão naturais que acabam sendo cômicos. Bolognesi não exita em colocar diálogos como "Como é gostoso meu guerreiro Tupinambá!", um comentário íntimo muito semelhante aos comentários de qualquer casal atual (que geralmente os amigos zoam quando ouvem). Em contraposição, existem frases de efeito fortíssimas que enchem o peito de qualquer um. A minha favorita é "Mesmo sem perceber, todo dia a gente tá lutando por alguma coisa".




Mas existe um 'porém' que nem responsabilidade do filme é. Vocês vão ver internet afora muitas pessoas criticando a estética do filme. E, de fato, a movimentação muitas vezes é truncada e artificial, mas não podemos ser ignorantes. O investimento pra animações no Brasil não é o mesmo do que o investimento pra animações no Japão (uma comparação válida, já que a técnica usada por Bolognesi é semelhante à das animações orientais). Uma História de Amor e Fúria não teve um orçamento de 22 milhões de dólares como Steamboy (de Katsuhiro Otomo) e não temos nenhum Madhouse ou Ghibli aqui. É preciso ter consciência desses fatos, e não simplesmente fazer comparações fora de contexto.

Olhando individualmente, o trabalho de animação de Uma História de Amor e Fúria compre muitíssimo bem o seu papel, que é o de recriar com precisão as épocas pelas quais o longa passa e ainda adicionando elementos que realmente nos fazem enxergar que esse filme simplesmente não funcionaria se fosse em 'live-action'.

Resumindo, Uma História de Amor e Fúria é sim um excelente filme, com um roteiro corajoso e extremamente bem-escrito. Agora o resto é com a gente.

Assistam a esse filme no cinema. É assim que a gente faz as coisas evoluírem. Querem que nosso país tenha uma animação digna de Ghibli um dia? Então desista da ideia de baixar esse filme, vá ao cinema e valorize essa obra nacional. Caso contrário, não quero ouvir você reclamando que 'a animação do filme é uma merda' e que nosso cinema é 'só tem putaria e filme de favela'. 

Nota: 10/10

Parágrafo extra. Não leia caso não tenha assistido ao filme. You know the drill.

Então, quando disse o filme propunha uma lógica que exigia uma mente aberta pra funcionar eu obviamente não menti.
O personagem principal transcende o tempo por ser um escolhido Tupinambá. Escolhido para viver a vida eterna e lutar contra o mal. Não como um super-herói, mas contra o conceito de "mal", que existe, mostrado aqui, na figura dos portugueses, dos militares e da milícia. Ele conhece Janaína, mas sempre algo acaba os separando. Geralmente a 'morte'. E sempre que ele morre, ele se transforma em um pássaro e voa por anos, séculos, até que Janaína reencarne e ele possa lutar ao lado dela de novo.

Esse conceito vem, aparentemente, de uma crença Tupinambá. É aí que entra o conceito básico da Antropologia: Existem alguns costumes de sociedades externas à nossa que, se analisados fora de seus contextos, podem parecer bizarros, primitivos e inacreditáveis. Mas para eles, essa crença é verossímil.

Não é questão de taxar as coisas como 'verdade' ou 'mentira'. É saber escutar o que foi dito e trabalhar com isso.

E o filme trabalha com essa crença, com essa outra visão. Para alguns de mente fechada, pode ser bizarro e inverossímil. Mas lembre-se que nossa visão de mundo não é a única que existe.