sábado, 16 de março de 2013

Critica: Hitchcock




Os filmes de Alfred Hitchcock sempre possuíam tramas similares. Um homem acusado injustamente, a deformação da mente de uma pessoa, o voyeurismo. Todas elas surgem em Hitchcock, mas não somente como referências aos filmes , mas como marcas da personalidade do diretor.

Em vários momentos, vemos o inglês gorducho observando atrizes loiras que passavam na frente de seu escritório, através de uma persiana. O diretor poderia muito bem ser um protagonista voyeur de seus filmes. E não o classifico como voyeur somente por observar belos corpos femininos pela janela. Seja olhando por um buraco na parede de sua casa ou filmando com sua câmera, Hitchcock não esconde o que gosta de fazer:Observar e controlar a vida dos outros. Quase como um deus, só que exercendo um papel de diretor e recebendo por isso.

Talvez esta fascinação por ver os outros fazerem coisas, condenaram-o a sua condição física. Dono de um corpo gordo,Hitchcock  não fazia quase nada além de dirigir filmes. Por isso gostava tanto de estar filmando:O diretor podia se sentir vivo. E ainda por cima, brincando de Deus.

Enquanto explora a personalidade de Hitchcock no período em que filmava Psicose, o filme se sai muito bem. Porém, uma adição  desnecessária no roteiro enfraquece o filme, que se somente se concentrasse no seu protagonista-titulo teria se saído  muito melhor.




Para começar, é necessário falar sobre a reconstituição da época. Sou suspeito para falar pois adoro o período clássico de Los Angeles e Hollywood (sou um grande fã de filmes como L.A Confidential e Sunset Boulevard), mas o design de produção de Hitchcock impressiona muito. Parece que viajamos no tempo, e fomos transportados para a Hollywood que grandes produtores (David O Selznik ou Cecil B DeMille) comandavam tudo.

 O fato do filme se concentrar somente em pessoas com boa condição financeira, faz com que venha um desfile de figurinos e locações magníficas. Em alguns momentos o vermelho do vestido de uma personagem quer dizer audácia, ou o branco do vestido de outra quer dizer inocência e ingenuidade (me refiro claro, a personagem Janet Leigh, interpretada por Scarlett Johansson). Além de Alfred Hitchcock, e seu clássico terno negro (cor que reflete muito da doentia mente do Mestre do Suspense).

A produção tem como maior mérito mostrar algumas particularidades de Hitchcock. Seu jeito de dirigir, a sua vida pessoal, o jeito que escolhia a trilha sonora, sua fixação por algumas atrizes, a campanha de marketing de Psicose. Essa aliás merece um destaque no meu texto. Para começar, o diretor pediu que fossem retiradas todas as cópias do livro que deu origem a Psicose, a fim de manter a surpresa do final. E ainda instruiu os donos de cinema que não permitissem a entrada de espectadores, depois do início de Psicose. A fim de mais uma vez, manter a surpresa.

A cena em que vemos Hitchcock se deliciando com os gritos da platéia, ao assistir a clássica cena do chuveiro, é o suficiente para fazer com que qualquer cinéfilo abra um sorriso no rosto.






Esse sorriso porém, pode desaparecer se o espectador perceber alguns problemas com a história real. Me refiro ao caso romântico que a esposa do diretor ,Alma Reville (Helen Mirren), deseja ter com um conhecido simpático. Além de não ter nenhum embasamento com a história real, ainda sugere que a direção da cena do chuveiro foi feita devido a raiva e frustração que o diretor sentia. 

Dizer que uma das cenas mais clássicas do cinema, foi feita devido a um acesso de ciúmes de um dos maiores diretores da história do cinema, e não pela sua genialidade é um soco na cara. É o mesmo que dizer que o inglês era um garoto mimado que deixava suas emoções afetarem seu raciocínio na hora de fazer o dever de casa.

Além de é claro, um exagero na importância de Alma Reville (Helen Mirren). A esposa de Hitchcock era de fato uma ótima parceira, e ajudou muito o Mestre do Suspense. Porém podemos perceber que sua importância foi aumentada a fim de dar mais destaque para Helen Mirren. Atriz que realiza um ótimo trabalho, nos fazendo sentir por sua personagem. Na verdade, é tanta importância dada a personagem que o filme deveria mudar o título para The Woman (já que a outra produção que fala sobre o diretor se chama The Girl, sim foi uma piada ruim).

O elenco de Hitchcock é muito competente. O maior destaque é claro, é de Anthony Hopkins. Com uma camada de próteses sobre o rosto, e um colete simulando gordura no corpo o eterno Hannibal Lecter consegue convencer como o estranho diretor. É interessante notar, que a câmera várias vezes o acompanha de perfil. Como a clássica imagem da série Alfred Hitchcock Presents.

Há várias participações especiais de atores:Kurtwood Smith, Ralph Macchio, Michael Stuhlbarg, James D´arcy (este sensacional, e idêntico ao ator Anthony Perkins, que fez Norman Bates em Psicose). Porém falarei um pouco sobre Scarlett Johasson. Não, não:A atriz não tem um desempenho acima da média nem nada disso. Acho só válido que a sex simbol dos tempos de hoje, não está mais com a cara de emburrada e brava que exibiu em Os Vingadores (ela deve achar que isso é necessário num filme de ação).


Hitchcock é um filme muito divertido, com referências aos grandes filmes do diretor (Um Corpo Que Cai, Pacto Sinistro, Intriga Internacional, Janela Indiscreta, e uma Sensacional referência a Os Pássaros) e muito bem dirigido. Porém cai no clichê de vários filmes biográficos, de inserir informações falsas. A fim apenas de acrescentar diálogos e importância a personagens que não são tão interessantes assim. 

Não é um filme ruim, como tantos estavam dizendo a fora. Porém não chega aos pés, do pior filme da carreira do Mestre do Suspense.

Nota:7,0