sexta-feira, 29 de março de 2013

Critica: Distrito 9



A Bruxa de Blair foi um projeto muito ambicioso. Os diretores simplesmente criaram um site em busca dos desaparecidos estudantes de cinema do filme, divulgaram a produção como o último registro dos três jovens, e ainda por cima deixaram os atores filmarem as cenas (basicamente, eles deram aos atores um mapa para que pudessem chegar em pontos chaves, uma câmera e papéis com recados que dessem uma ideia do dialogo que queriam em cada cena). O resultado foi assustador:Todos que assistiram o filme na época sentiram medo, acharam que era real, tiveram crises de enjoo durante o filme (devido a estética câmera na mão).

Um gênero foi criado nesse ano:O Falso Documentário. Gênero que tem exemplares que gosto muito (o próprio Bruxa de Blair, Cloverfield), e que também possui exemplares que detesto (todos os Atividade Paranormal, sério não entendo como alguém consegue sentir medo daquilo). Em 2009, surgiu um filme chamado Distrito 9, que era uma mistura de falso documentário, ficção científica, discussão social, e filme de ação. E não pude assistir na época, erro que corrigi há poucos dias atrás.

Basicamente o filme fala sobre um evento curioso:Em 1982 uma nave alienígena do tamanho da Cidade de São Paulo, para sobre a cidade de Joanesburgo (África do Sul). E fica parada ali durante alguns dias, os humanos curiosos como são invadem a nave. Lá encontram aliens que lembram camarões, enfermos e subnutridos. Assim, os humanos os tiram da nave e os botam em um setor da cidade chamado de Distrito 9. Que não demora muito, para se tornar uma pequena favela. Mais ou menos 20 anos depois, um burocrata chamado Wikus(Sharlto Copey) é infectado.

Isso é o que irei revelar de Distrito 9 por enquanto. Mas vale dizer que o diretor/roteirista Neil Blomkamp (também  nascido na África do Sul) foi muito feliz com a ideia do preconceito dos humanos em relação aos alienigenas. E não digo que somente brancos são preconceituosos com os Camarões, mas também negros e homossexuais. Justamente no país do Apartheid.





Distrito 9 é um filme que vale a pena ser visto pela discussão que propõe:O preconceito surge por medo, pelo ser/pessoa ser diferente, ou por inveja? Essa situação aconteceria em outro país?
A primeira meia hora do filme é espetacular. Lembrando uma espécie de documentário da BBC, as imagens do filme são comentadas por intelectuais, autores de livros sobre preconceito, pessoas que estavam perto da situação (não revelarei qual). Além de é claro, a estética câmera na mão. Pois uma equipe de filmagens acompanha Wikus fazendo seu trabalho no Distrito 9.

Porém, surge um problema. Após essa primeira meia hora, não há mais nenhuma equipe de filmagem registrando imagens. Mesmo assim, a estética de câmera na mão permanece.
Se por um lado é a fim de manter-se o tom realista do filme, por outro é um grande erro. Mesmo assim, em muitas cenas a realidade é quase incomoda. Parece que nós somos os cinegrafistas, e estamos acompanhando tudo de camarote (a cena em que Wikus começa a perceber as mudanças em seu corpo, é um belo exemplo disso).

Para quem não sabe, o filme é produzido por Peter Jackson e a Weta. Simplesmente, o diretor da trilogia O Senhor dos Aneis e a companhia de efeitos especiais que utilizaram em Avatar e O Senhor dos Aneis. Assim, podemos adiantar que a produção do filme é espetacular. Todo armamento, cenário, roupas que aparecem no filme são muito bem feitos e realistas.

Além de é claro, o design dos Camarões. Não apostando em um visual agradável, e ao mesmo tempo não querendo tornar os alienigenas  monstros terríveis o design dos Camarões é incrível. Todos os aliens foram interpretados por um só ator (cujo nome realmente não me lembro), e a expressividade de alguns é impressionante.

Falando em ator, devo falar um pouco de Sharlto Copey. O ator interpreta Wikus com uma força, e uma paixão que em momento algum achamos que está interpretando. Muito porque parte de suas falas foram puro improviso.




Devo dizer porém, que Distrito 9 não é uma obra-prima. O filme tem problemas de ritmo em alguns momentos (enquanto em vários momentos mal conseguimos piscar devido a intensidade e tensão da cena, em certos momentos simplesmente queremos que a cena termine). Um grande exemplo disso, é a gangue dos Nigerianos. E seu líder, que crê que se comer o braço de um Camarão, poderá se tornar forte como um deles. Simplesmente desinteressante, e um tanto.....trash.

Trash aliás, é uma palavra chave do filme. Pois ao mesmo tempo que a discussão social surge em tela, em vários momentos vemos boas doses de humor negro. Uma boa dose de gore (tripas, sangue, vísceras, nojeiras), xingamentos engraçados (a quantidade de "fucks" que Wikus solta é simplesmente hilária), personagens fazendo coisas curiosas (o que dizer do Camarão que surge em tela mijando?).

Isso é claramente, influência de Peter Jackson. Diretor que fez além de O Senhor dos Aneis, Trash-Nauseá Total, Fome Animal. Filmes que são cheios de escatologia, violência, e gore.



Por fim, Distrito 9 se revela como um dos filmes mais originais a surgirem no cinema nos anos 2000. Merece mérito pela sua produção, o carisma de seu protagonista (Sharlto Copey é um excelente ator), o roteiro que proporciona boas discussões. Mas que  fica bem longe de uma obra-prima, como tantos críticos falaram.

Que fique claro, gostei do filme. Sou fã de ficção científica, gosto de discussões inteligentes, sou fã de Trash. Mas tem muitas coisas que incomodam em Distrito 9. Felizmente, não é o suficiente para acabar com o mérito da produção. Um dos melhores filmes de 2009, e um dos mais originais filmes surgidos nos anos 2000. Isso tudo deixa o saldo positivo.

Nota:8.0