sábado, 2 de março de 2013

Critica: Argo



Algumas pessoas dizem que certos filmes podem ser definidos por uma única palavra. O Poderoso Chefão  "familia", Casablanca  "proibido", Los Angeles Cidade Proibida "Noir". Se eu tivesse que definir Argo em  uma palavra, essa seria:Tensão.
O filme dirigido e protagonizado por Ben Affleck, é um drama político, com doses de humor, um cenário estranho para tensão. Mesmo assim, há momentos em que o espectador quase sua frio. Tamanha a tensão da situação.

A história se passa na época da Revolução do Irã, com o ditador imposto pelos Estados Unidos sendo retirado do país pelo povo. E com a Embaixada Americana sendo tomada. Quase todos os que estiverem ali dentro serão fuzilados ou torturados. Porém, 6 americanos da Embaixada conseguiram escapar. Se esconderam na Embaixada Canadense. E ali estão, até que alguém os salve (ou que os iranianos os descubram). 

Nisso o governo dos Estados Unidos contrata um agente da Cia chamado Tony Mendez (Ben Affleck), especializado em retirar reféns de situações bizarras, para poder tentar salvar os 6 reféns. Mendez traz uma ideia extremamente louca:Fingir que é um produtor canadense (afinal, o país é amistoso e neutro com todos) em busca de locações exóticas, para uma produção de ficção científica no estilo de Star Wars. Vai fingir que os reféns são parte da produção, e por fim voltar aos Estados Unidos. A melhor das ideias ruins, diz ele.

É importante dizer que Argo é baseado em uma história real. Por mais absurdo que soe, a história de Tony Mendez é real. Isso torna a experiência de se assistir Argo muito melhor.



O filme merece primeiramente os parabéns por trazer novamente o drama político. Gênero que surge de vez em quando, mas que não é tão bem recebido pelo público. Basta observar filmes do gênero recentes como Jogos do Poder (Charlie´s Wilson War) e Boa Noite Boa Sorte (curiosamente, produzido pelo mesmo ator que produziu Argo:George Clooney). Filmes excelentes, mas que são taxados de chatos pelo público. Afinal, em tempos de Transformers e filmes de super heróis, é dificil exigir muito mais da massa cinzenta da audiência.

Argo surge no melhor clima de Todos Os Homens do Presidente. Não há tanta ação física, e sim muita burocracia e estratégia. O clássico filme dos anos 70 aliás, é uma grande inspiração para Argo. Note os cenários do escritório da Cia. É quase idêntico ao escritório de Woodward e Bernstein (até mesmo os ângulos de câmera são similares, tornando aquele espaço um ambiente sufocante)

Argo também é um filme de espiões, só que não do estilo do agente 007. Os espiões reais nunca revelam seu nome, não possuem glamour, e não revelam suas emoções em momento algum (além de serem homens com aparência extremamente comum). 



Há uma cena chave que define o filme todo. Tony está com os 6 reféns dentro de uma Kombi, e tem que se encontrar com o ministro da Cultura do Irã (pedir permissão para poder filmar em suas terras). Só que há uma manifestação no caminho. Dezenas de iranianos furiosos protestando, que poderiam identificar os americanos e afundar toda a operação. Tony pede para que todos se acalmem, e segue em frente. A Kombi atravessa a multidão, que reage batendo as mãos nos vidros, gritam coisas em seu idioma nativo, quase sobem no veículo. Todos os passageiros ficam com medo, e suam frio (incluindo Tony). Mesmo assim, devem parecer calmos. Após passarem pela multidão, Tony pergunta a todos "Estão todos bem?"

Isso é o que Ben Affleck faz com Argo. Poe nós, espectadores em um veículo e nos deixa em situações extremamente tensas, mas que no final nos faz respirar de alívio (não é coincidência que essa cena em questão, tenha o personagem de Affleck dirigindo o carro, como Affleck dirige o filme).

Há várias cenas desse estilo em Argo. Algumas passam rápido, outras quase nos faz gritar, tamanho o risco de perigo nas situações.

Isso não seria possível se não tivéssemos carisma pelos personagens. E o filme os apresenta da forma mais correta possível. Não há cenas melodramáticas, nem cheias de emoção. Mas mesmo assim, sentimos por cada um dos reféns e torcemos para que possam chegar em casa a salvos. Apresentar mais de 3 personagens, de forma correta e igual é muito difícil. Mais um mérito pra produção.



Além de ser um belo drama político, Argo também é um filme sobre Hollywood. Aquela altura estavam surgindo os blockbusters. Star Wars e Tubarão haviam acabado de estrear e todos estavam investindo em ficções científicas (no caso de Tubarão, pondo Spielberg para dirigir uma ficção científica:E.T). Assim, o roteiro de Argo (o filme dentro do filme) não poderia ser mais do que uma grande cópia de Star Wars.

Há um personagem alienigena peludo (como Chewbacca), há coadjuvantes que são robos atrapalhados (C3PO e R2D2), um personagem principal loiro. Além de posters, storyboards, figurinos tudo remeter ao clássico filme de George Lucas.

Naquela época, não era difícil uma produção cópia barata surgir assim. Como diz o personagem John Chambers (John Goodman) sobre uma ficção em que estava trabalhando (o personagem é o maquiador de Planeta dos Macacos, que também era colaborador da Cia) "O filme não é feito para pessoas com a habilidade de enxergar".

Ainda há uma bela homenagem ao gênero de ficção cientifica. Referências Star Wars, Jornada nas Estrelas, Twilight Zone, Planeta dos Macacos (tudo isso na última cena do filme), fazendo com que qualquer nerd saudosista encha os olhos. Além do filme parecer ter sido feito nos anos 70, tanto pela ambientação (e créditos iniciais e finais, você entenderá do que estou falando) quanto pela trilha sonora (de Dire Straits a Led Zeppelin).


Argo é um filme sensacional. Eu não vou mentir, adorei cada minuto da experiência. Uma pena que a Academia não indicou Ben Affleck na categoria de direção. Pois o seu trabalho em Argo, é digno de vários prêmios. O ator/diretor evoluiu muito na direção de seus filmes (o seu trabalho anterior, Atração Perigosa, já era um filme que mostrava que o jovem tem muita capacidade). 

Mas é claro que após sabermos que Argo levou três Oscars, incluindo de Melhor Filme. Aí nos calamos, e abrimos um sorriso no rosto. Idêntico ao que o diretor da Cia (Bryan Cranston) abre mais próximo do final do filme. Isso é único.

Nota: 9.5