domingo, 10 de fevereiro de 2013

Crítica: Valente (Brave)




Valente era uma animação que tinha uma tarefa dificil:Trazer a Pixar de volta ao patamar que conquistou com grandes animações como Up-Altas Aventuras, Wall-E, Ratatouille. Afinal, no último ano o estúdio de John Lasseter havia feito Carros 2,  uma continuação da animação menos popular da Pixar (devo dizer que gosto muito do 1o Carros). A sequência do filme de automóveis que falam acabou se mostrando muito fraca, principalmente se compararmos com os trabalhos anteriores do estúdio.

Ao invés de um enfoque em uma história com um roteiro bem feito, personagens carismáticos e (o ingrediente principal) coração o filme se mostrou como um verdadeiro caça-níquel, feito para vender brinquedos e produtos licenciados (justamente um tema que o próprio estúdio criticou em Ratatouille, aonde um dos personagens queria parar de fazer pratos elaborados cheios de sabor, para dar lugar a uma franquia de comida de Microondas).

Após 93 minutos (um dos filmes mais curtos da Pixar, vale dizer) eu me sinto na obrigação de dizer que os animadores do maior estúdio de animação do mundo conseguiram se redimir de Carros 2, pois Valente é um belíssimo filme. Mesmo sendo uma história de contos de fadas, esta possui um diferencial bem grande:Está nas mãos na Pixar. Mais uma vez os animadores fizeram um filme visualmente lindo, com uma bela história e com o elemento coração( o que mais prezo nos seus filmes, visto que assisto-os desde Toy Story-1995, me sinto na liberdade de ir expondo um pouco mais minha opinião).

Valente é um filme que surge com uma novidade:É a primeira vez que um filme da Pixar possui uma personagem principal feminina. Mesmo sendo tão diferente dos outros protagonistas do Estúdio, Merida (voz da excelente atriz nascida na Escócia Kelly Macdonald) não deve em nada aos outros heróis:É inteligente, ágil, carismática. E para os que acharam a escolha de protagonista inusitada, vale dizer que a Pixar adora personagens fora dos padrões normais (que estúdio botaria como personagens principais um idoso, um rato ou um monstro?).



Na Trama Merida é uma princesa da Escócia, que não gosta dos padrões que sua mãe quer que siga:Uma princesa, sem ação em sua vida, com vestidos sufocantes. Quando vê que três filhos de Lordes de terras vizinhas, chegam no castelo de sua familia para pedir sua mão em casamento, Merida decide tomar uma ação, para fazer com que sua mãe decida acabar com a ideia do casamento.

Não quero revelar mais da trama para não revelar mais surpresas, mesmo com estas podemos ver que Valente é um filme mais simples. Se compararmos com algumas das outras obras-primas da Pixar, como Up-Altas Aventuras e Wall-E. Filmes que não são complicados, mas que tratam de temas mais sérios e adultos, como a velhice e a solidão.
Mesmo assim não acho que por possuir um roteiro mais simples Valente deixe de ser bom, muito pelo contrário. O filme é uma das mais belas animações criadas pela Pixar

Devo falar da qualidade técnica de Valente, a cada ano a Pixar vai se superando com o visual de seus filmes, e com esta animação não é diferente. Até este ano Valente é a animação com o visual mais belo da história do estúdio, superando até mesmo o técnicamente impecável Carros 2 (o que não investiram na história, investiram no visual). O filme consegue nos deixar com o queixo no chão tamanho o realismo que certos elementos surgem. E não estou falando de criaturas monstruosas, ou alienigenas brilhantes. Me refiro ao orvalho na grama, o balançar de uma flecha quando ela é disparada, o pequeno corte que a beirada desta provoca na bochecha de Merida (devido a velocidade e força com que é atirada).

A Pixar nos surpreende com elementos comuns, o desafio hoje não é criar criaturas bizarras, mas deixar a animação o mais semelhante em termos físicos do real, mas não perdendo sua característica de desenho (por isto o design dos personagens possui ainda narizes e orelhas grandes por exemplo, vale dizer que o design dos personagens de Valente não se parece com o de nenhum outro filme da Pixar). Ainda há espaço para uma homenagem ao Estúdio Ghibli (a bruxa de Valente parece ser prima de Yubaba, a bruxa de A Viagem de Chihiro), e ao uma lenda escocesa interessante (a história de Mordu é sensacional, e rendia um longa adulto).

Vale ressaltar também os cabelos de Merida e sua mãe, uma verdadeira representação do espirito das mulheres. Enquanto o cabelo da ruiva é solto e selvagem, o da rainha é negro e preso.

Valente não é perfeito. Há tentativas forçadas de se arrancar risos (em geral não funcionam, exceto os vindos do personagem de Billy Connoly, pai de Merida), como nenhum filme da Pixar jamais tentou. Se em até um filme pós apocalíptico quase mudo a Pixar conseguia nos fazer rir, no mínimo deviam haver bons momentos cômicos num filme mais simples. Há tentativas envolvendo a escócia, com crianças fofas, com muito humor físico. Mas nenhuma delas de fato faz rir.

E é claro há a falta de jóias de outros filmes. Não há algo como a sequência de abertura de Up, a degustação do prato do crítico de Ratatouille ou o climax de Toy Story 3. Valente é um filme sem um momento marcante, o que o empalidece entre as outras produções do estúdio.

Mesmo com essas falhas, Valente é um filme bacana de animação. Que mostra que a Pixar já se recuperou do fracasso de Carros 2, e que pode ainda fazer bons filmes.

Mas é claro, um recado pro estúdio:Vocês podem MUITO mais.


Nota;8.0