quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Crítica: Os Miseraveis



O musical é um gênero interessante. De vez em quando,surgem produções que ainda tentam resgatar o gênero que consagrou atores como Freddie Astaire, Frank Sinatra e Gene Kelly. Algumas dessas produções conseguem ser muito boas (Moulin Rouge, Sweeney Todd, Os Produtores, Dançando no Escuro). Outras, completamente enfadonhas (Burlesque, Chicago, Nine, Mamma Mia) por não trazerem nada de novo, e sequer conseguirem conquistar a simpatia do público.

É um gênero complicado para as gerações de hoje. Para os jovens de hoje que são céticos, não aguentam ficar muito tempo na cadeira para ver um filme (numa das sessões de O Hobbit que fui, o cinema parou o filme após 1 hora e 35 minutos para que as pessoas saíssem e fossem no banheiro, o filme não tem nem 3 horas, imagine botar essas pessoas para assistirem My Fair Lady), e muito menos para ver 2 horas e pouco de um filme cantado. Os Miseráveis como tantos outros antes dele, se propôs ao desafio. Mas se saiu bem.

Os Miseráveis é um filme baseado num livro, e que já teve várias montagens na Broadway e várias versões para a Tv e cinema. É um filme que tem carisma, consegue emocionar, e que faz com que queiramos comprar o cd da trilha sonora para casa. Tinha tudo pra entrar na lista dos musicais memoráveis dos anos 2000. Se não fosse por um detalhe:A direção de Tom Hooper

A direção do britânico é a prova viva de que o Oscar não significa qualidade, visto que Hooper foi indicado como Melhor Diretor pelo musical e diretores geniais como Paul Thomas Anderson e Quentin Tarantino sequer receberam indicações pelos seus trabalhos em O Mestre e Django Livre. Por que critico tanto o trabalho de Tom Hooper? Porque o diretor faz os piores ângulos de câmera possíveis no filme, botando ângulo holandês em cenas calmas (este ângulo de câmera é usado para ressaltar confusão, como usaram sabiamente em Thor, quando o deus do Trovão cai na Terra e ainda está confuso). Vejam por exemplo a cena abaixo, na qual era para ser simplesmente dois homens conversando num quarto (agora parece que estão num navio....).




Fora os estranhos ângulos de câmera de Tom Hooper, Os Miseráveis é um filme muito competente. Ao optar por fazer com que os atores cantassem no set, a produção ganha mais vida. Em momentos como quando Jean Valjean (Hugh Jackman) canta "Look Down", podemos ver como o cansaço fica mais ressaltado. Não só pela atuação do australiano, mas por ser dificil manter a afinação quando se canta no set de filmagens, e não gravar depois a voz em um estúdio (afinando a voz mais ainda graças a editores de som). Aonde você está com suas melhores roupas, em um lugar confortável e com boa acústica. 

Quando os atores cantam em Os Miseráveis eles estão atuando (ás vezes lutando, apanhando, passando frio), tendo que projetar a voz para que seja gravada sua voz, tendo cuidado com a projeção da voz devido a acústica. Um verdadeiro desafio, que traz mais méritos para a produção. Ainda que, não seja uma exclusividade. Os envolvidos com o filme tem dito que era a 1a produção a fazer isso, o que não é verdade. Muitos musicais da década de 50 o faziam.

O filme tem uma curiosidade interessante:Não há diálogos que não sejam cantados. Geralmente a estrutura de um musical tem diálogos (até mesmo como um elemento de descanso), e após uma realização uma música sobre aquilo. E assim por diante, até que se passem 2 horas e meia. Em Os Miseráveis não há os momentos de descanso, até mesmo se a música durar 30 segundos. 

Claro que juntando isso ao fato das músicas serem gravadas na filmagem no set, causa dificuldades para atores que não estão acostumados com cantar. O caso que mais foi apontado pelos críticos, foi o do excelente ator Russel Crowe (ganhador do Oscar de Melhor Ator por Gladiador, mas para mim infinitamente melhor como John Nash em Uma Mente Brilhante). Que faz o personagem mais rico de Os Miseráveis, o vilão Javert. Personagem que dedicarei algumas linhas abaixo:


Javert é a representação máxima da lei. Vindo da pobreza,  se dedicou para virar um policial e executa sua profissão com muito empenho. Sendo assim como a justiça impiedoso, cruel, frio. Porém não é um homem que possa ser considerado mal, só faz aquilo que acha justo. Na verdade, é o personagem que mais podemos analisar.

Em determinado momento Javert canta sobre as estrelas. Ao falar sobre elas, menciona que são fugitivas caídas de Deus e da Graça. Também fala que estas se misturam a escuridão, e que são as guardadoras da noite. Não há dúvida que Javert considera o seu papel semelhante a da estrela, tendo uma função nobre mas mesmo assim não sendo digno da graça de Deus. Ele sabe que Jean Valjean também não é digno da graça, por isso o caçará até o inferno se preciso, enquanto se considerar digno de sua profissão. Curioso, que os nomes Javert e Jean Valjean são similares (Javert é uma mistura do nome e sobrenome do seu rival).

É interessante também notar que quando Javert canta está música, está olhando diretamente para o céu. Fazendo um paralelo com a música Look Down (olhe pra baixo), como se os prisioneiros e os pobres não fossem dignos de poder olhar para as estrelas. Mesmo considerando-se digno de poder olhar para as estrelas (e com isso poder sonhar, talvez?) Javert sabe que seu papel neste mundo não é exatamente o melhor. Quase como um guardador das portas do inferno. Porém, se essa é a função que tem neste mundo, irá desempenha-la da melhor forma possível. Também interessante que quando Javert começa a questionar um pouco sua profissão, não consegue olhar diretamente para o céu (ele olha pra baixo, look down).

A música Look Down também tem outros significados, como se os pobres dissessem isso aos ricos para olharem para baixo e perceberem a pobreza da França, e assim deixarem de ignorar tudo aquilo. Chego a dizer, que a música é a essência de Os Miseráveis.



Outra peça do elenco que devo falar é Anne Hathaway, interpretando sua Fantine. A escolha de Hathaway como a personagem se encaixou como uma luva, possuindo um corpo extremamente magro e um rosto belíssimo, ressaltando quão frágil e inocente da situação é a mulher. É o verdadeiro retrato da França.
Não tenho dúvidas que a Academia dará o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante a atriz, com a diferença que neste caso será um prêmio muito merecido. A atriz consegue emocionar o público, além de fazer com que nos importemos com a personagem (e que nos preocupemos com sua filha pequena, Cosete). Além de é claro, Anne cantar maravilhosamente bem (mais uma vez o fato das vozes serem gravadas ao vivo, dá uma sensação de veracidade maior, realmente acreditamos na voz triste e bela voz de Fantine).

Todo o elenco está muito bem. Hugh Jackman já havia nos mostrado no Oscar 2009 (aonde foi o apresentador na ocasião) que sabia cantar e interpretar, Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter estão hilários como o casal de taberneiros (apesar de parecerem personagens saídos de Sweeney Todd).

As únicas peças do elenco que comprometem são o casal que surge na 2a parte do filme. Me refiro a Amanda Seyfried e Eddie Redmayne. Em momento algum cria-se simpatia pelo romance, são totalmente desinteressantes, pelo menos é o que acho. Tudo bem que sou muito suspeito para falar isto, devido ao meu ódio por Amanda Seyfried. Uma atriz que só faz filmes musicais (e nem todos bons, certo Mamma Mia, seu maldito) e filmes românticos estúpidos (além do terrível A Garota da Capa Vermelha, filme mais imbecil de 2010) . Querido John é um péssimo filme, sinto muito dizer. Além de é claro, ser uma atriz que nunca muda sua expressão facial. Seja fazendo a filha de Meryl Streep em Mamma Mia num casamento (ou seja, feliz), ou a filha de Anne Hathaway num cenário de pobreza (ou seja, triste) a atriz sempre faz a mesma cara. 



No fim, Os Miseráveis é um filme muito acima da média. Um musical belíssimo, com sets incrivelmente grandes e bem construídos (o cenário do inicio, aonde Jean Valjean puxa um barco com prisioneiros, quase tende ao surrealismo tamanha sua grandeza, e isso não é um problema!). Com figurino, maquiagem, parte musicais muito boas. Mas que peca por dois detalhes:A direção de Tom Hooper e o casal do 2o ato. 

Eu ainda insisto em dizer, é um absurdo em terem indicado Tom Hooper ao Oscar de melhor direção. Ele não deveria sequer ser mencionado, seu trabalho como diretor é terrível. Compare a direção de Sweeney Todd com a de Os Miseráveis, para ver como inovar na filmagem de um musical e ser inovador e genial. Mesmo assim, não houveram indicações a Tim Burton.

Mesmo assim, Os Miseráveis merece créditos pela escala de sua produção, a competência do seu elenco (eu acho que todos cantam e atuam muito bem), e pela coragem de fazer um musical em tempos que o 3d e os efeitos especiais tem estado cada vez mais presentes no cinema. Só uma pena, que não tiveram diretor melhor para tornar Os Miseráveis um filme verdadeiramente inesquecível.

Nota:8.0