segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Crítica: O Mestre




Paul Thomas Anderson é um diretor que possui algumas características interessantes. Raspa a cabeça quando termina de fazer um filme, faz filmes com intervalos de vários anos entre si e nunca fez dois filmes com o mesmo gênero. Curiosamente, as duas últimas são também características dos diretores Stanley Kubrick e Terrence Malick. Cineastas que são considerados verdadeiros mestres, com a diferença de que Malick e Kubrick (este último infelizmente falecido em 1999) são cineastas com pelo menos 60 anos, Anderson tem apenas 42. Mesmo com sua idade, já pode ser considerado um mestre do cinema. Desde 1997 fazendo uma obra prima atrás da outra. O Mestre não deve em nada a filmes como Boogie Nights, e Sangue Negro. E ainda apresenta um dos protagonistas mais interessantes da filmografia do diretor.

Freddie Quell (Joaquin Phoenix) é um típico personagem de Paul Thomas Anderson. Quando fica frustrado ou se sente ameçado tende a partir pra violência quebrando tudo que vê (como o personagem de Adam Sandler, no filme de PTA Embriagado de Amor), é um ex soldado que ao voltar da 2a guerra tem que se contentar com um emprego de fotógrafo (mesma situação dos personagens Câmeras de Boogie Nights, que voltaram da guerra e tiveram que se contentar sendo fotógrafos e câmeras de filmes pornôs), e possui uma postura torta, quase como se fosse um corcunda (como o personagem Daniel no final de Sangue Negro, filme de PTA em que o protagonista chega no final emocionalmente acabado, brilhantemente ressaltada na sua postura).

Esta postura torta revela muito do personagem. Alcoólatra e insociável Freddie tenta se reajustar na sociedade desde que voltou da Guerra. Não sabemos muito de seu passado, mas temos certeza que mesmo antes da guerra o homem não batia muito bem. Indo de um emprego atrás do outro (seu comportamento impulsivo não permite que fique muito tempo num trabalho) , o personagem está tentando se endireitar. Nada mais simbólico do que o jeito que Freddie (Joaquin Phoenix) poe a mão nas costas, como se tentasse arrumar a postura. Até que conhece A Causa, com seu líder carismático Dodd (Philip Seymour Hoffman) que toma Freddie como aprendiz. Mesmo assim os consertos de postura continuam, as dúvidas também.






É impossível falar do filme sem comentar sobre as atuações de Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman. A atriz Amy Adams está muito bem como a esposa de Lancaster Dodd (resultando numa cena aonde mostra que pode tomar as rédeas do marido quando quiser), porém quando Phoenix e Hoffman estão juntos em tela, o resultado é nada menos que magnífico.

A relação que os dois possuem é no mínimo curiosa. Dodd vira o mestre de Freddie, e pode até parecer que está cuidando do desajustado homem. Mas se percebermos Dodd só fala com Freddie com falas que poderiam muito bem ser aplicadas a um cachorro ("Bom garoto, muito bem!" "Menino travesso, mal."). Isso fica muito melhor ressaltado na cena que após voltar da prisão com as roupas rasgadas, Quell abraça Dodd. Os dois caem no chão, e Dodd se levanta e puxa uma tira da camisa rasgada de Freddie, enquanto este está de quatro. Pronto:Um dono, puxando seu cão pela coleira.

Mesmo com esta clara inferioridade de Freddie diante de seu Mestre, devemos ver que os personagens não são muito diferentes. Enquanto Freddie é alguém que não pronuncia muito bem as palavras e não fala tanto, Dodd é extremamente verborrágico. Até mesmo a postura, enquanto Freddie é torto, Dodd anda perfeitamente alinhado. Já por dentro, os dois são muito mais parecidos. A diferença é que enquanto Freddie ao sentir raiva expõe ela brigando ou xingando, Dodd guarda para si. Apesar, de podermos notar seu rosto encher-se de sangue (o ator fica vermelho de raiva, atrás de uma aparente face calma). De vez em quando porém, Dodd estoura. Principalmente quando são dúvidas da palavra que prega, e quando isso acontece é assustador (nos acostumamos com aquela faceta calma).
Note a cena da prisão:Os dois estão lado a lado, em celas parecidas. Enquanto Dodd está calmo, Freddie quebra tudo:O vaso, a cama, parte da parede.

Freddie é um homem perdido, isso ressaltado mais ainda pela tomada aonde está deitado, e abaixo o mar está em movimento. É interessante que ele é o contrário de Daniel, de Sangue Negro:Enquanto o rei do petróleo não quer se envolver com pessoas, Freddie faz de tudo para poder sem bem visto por elas.
E quando não consegue, o resultado é perigoso. A prova disso a cena da prisão.




O filme expõe e critica o fanatismo religioso. Não só na causa/cientologia, mas em qualquer religião. Os fanáticos religiosos são preguiçosos, hipócritas e seguem tudo ao pé da letra. O protagonista é a imagem definitiva do fanático religioso:Ignorante, preguiçoso, egoísta e hipócrita. Além de tomar atitudes extremas se alguma outra pessoa questionar a sua religião (exemplo quando Freddie espanca um membro da Causa que achou o novo livro da seita ruim, note que lembra um pai batendo numa criança).

Além de expor uma pergunta importante:Quem é nosso mestre? Nós mesmos devemos ser os mestres de nossas vidas? Se sim, como? Será que é bom assim?


Agora a parte técnica:Paul Thomas Anderson é o melhor diretor de sua geração. Ele possui um olho para filmar certas cenas, que pouquissimos diretores conseguiriam um resultado tão belo quanto. Ou então, a decisão de não fazer vários cortes em certas cenas (a briga com o cliente por exemplo).

A fotografia de Mihai Malaimare Jr é esplêndida. Conseguindo ressaltar os rostos dos atores em meio a escuridão e ao por do sol a fotografia consegue fazer com a platéia quase entre num estado de transe. A cena da hipnose por exemplo. Tudo filmado em 65 milimetros, fazendo com que pareça um filme caseiro.




O Mestre é mais uma obra-prima de Paul Thomas Anderson. Mesmo tão diferente de seus outros filmes (o 1o é um filme sobre sorte, o 2o sobre a indústria pornô, o 3o sobre os fatos estranhos da vida, o 4o sobre o amor e o 5o sobre a ganância do homem) o filme ainda possui um detalhe que torna os filmes do diretor únicos:A genialidade com que Paul Thomas Anderson enxerga o homem.
Sem preconceitos, só filmando-o como é. Seria interessante este filmar Travis Bicle, o protagonista de Taxi Driver.

Seja filmando Dirk Diggler o astro pornô, Daniel o rei do petróleo ou Freddie o perdido, uma coisa é certa:Paul Thomas Anderson é um mestre do cinema.

Nota: 9,5