domingo, 27 de janeiro de 2013

Crítica: Lincoln



Em determinado momento de Lincoln, a esposa do 16o Presidente Americano implora para o marido que não deixe o filho se alistar, aos prantos acusa que o famoso presidente não se importa com os filhos (assim como não se importou com a morte do 1o filho, que morreu na Guerra Civil). Lincoln se vira pra ela, e diz que se importa sim com seus filhos, que na noite que o 1o filho morreu gostaria de ter entrado na terra com ele, que todas as noites pensa nisso. Mas que não poderia transparecer aquilo, não naquele momento. Não poderia deixar transparecer o seu lado humano.

Lincoln é um mito americano, um dos presidentes mais adorados dos Estados Unidos. Todos o achavam um herói, um perfeito homem americano. Lincoln não entendia bem isso, sempre agiu com simplicidade e sinceridade em seus atos. Achava que o que dizia era óbvio, não algo excepcional. E pensava que as pessoas pensavam que haviam dois lados em sua personalidade:O mito e o homem. Sendo que a 2a era menos conhecida. A grande questão que o filme Lincoln apresenta é de que para o povo americano não há diferença entre o homem e o mito. Para quem vê o filme, também percebe que o povo amava o lado humano do presidente (que era igual ao lado mito). Lincoln era de fato um homem excepcional, mas não enxergava isso.

Uma cena que mostra bem isso é quando após conversar com alguns soldados negros, um dos soldados sai da conversa citando um dos famosos discursos do presidente. Lincoln por sua vez faz uma expressão que fala por si própria, algo como "Mas não é verdade?". Algo que para ele é óbvio e extremamente simples, para os outros eram verdadeiras falas revolucionárias, Lincoln não se via como um mito. Mas se isso o ajudasse a acabar com a Guerra Civil, e com a Escravidão americana, ao diabo (como diria as pessoas da época)! Então ele continuaria sendo este mito.

O filme curiosamente é dirigido por Steven Spielberg, um diretor que deixa seu estilo transparecer em seus filmes. Porém no caso de Lincoln, apenas devido as créditos iniciais (lembrando um pouco o início de O Resgate do Soldado Ryan, com uma pequena introdução sobre a época) nos lembramos que é um filme dirigido pelo pai de E.T. Lincoln é acima de tudo um filme histórico, muito menos enfadonho do que Amistad e Cavalo de Guerra, e muito menos violento e cruel do que A Lista de Schindler e Munique.




Em termos técnicos o filme é perfeito. Para um diretor como Steven Spielberg, o que não falta é dinheiro cedido pelos produtores para se realizar o filme. Assim, se investe muito em cenários, roupas, maquiagem, locações. De fato somos transportados aos  Estados Unidos de 1864-1865 (período que o filme acompanha). Uma pena que não mostre muitos pontos do País, muito devido a duração do filme. Pois Lincoln teria tudo pra ser uma bela minissérie da HBO, como já fizeram com John Adams e Band Of Brothers-The Pacific por exemplo. A produção, escolha de atores, fotografia, música, tudo lembra muito as minisséries históricas do famoso canal de televisão. A maioria delas inclusive, é produzida por Spielberg.

Arrisco dizer que as duas horas e meia do filme são poucas, se fosse uma série a duração não seria um problema. Daria pra por bem mais diálogos e contextualizar melhor o espectador (quem não conhece um mínimo de história se dará mal assistindo ao filme).

É curioso ver como que Spielberg optou por filmar o personagem titulo. Na maioria das vezes o vemos na sua famosa imagem de perfil. Justamente a imagem mito do presidente, a imagem inclusive que ilustra seu retrato no museu de Washington sobre os presidentes. E mais curioso ainda é o que vem em seguida a famosa imagem-perfil:O presidente se vira para falar uma das suas histórias (o presidente era um famoso contador de parábolas, que ás vezes serviam como metáfora pra situação atual, ou simplesmente para descontrair, devido a tensão).

Essa virada mostra bem o contraste que já citei há pouco:O homem e o mito. Seria Lincoln um mito com alguns traços humanos, ou um homem extremamente fora do comum? Ou seriam os dois? Cabe a quem vê o filme decidir.

É impossível deixar de mencionar a atuação de Daniel Day Lewis, assim como é muito sem graça mencionar. Mais uma vez o ator proporciona uma excelente atuação, mudando seu tom de voz (compare o tom de Lincoln com o tom de voz de Daniel, de There Will Be Blood), sua postura e até mesmo modo de mexer os olhos. É interessante ver o jeito que Lincoln se move, sempre como se tivesse um grande peso nas costas.

E ao mesmo tempo, quando fala com outra pessoa o presidente tenta se abaixar um pouco (mostrando que é tão simples e importante quanto aquela pessoa, uma opinião verdadeira do presidente). Mas ao mesmo tempo, o se abaixar do presidente não muda muita coisa, considerando que possui 1,93 metros de altura (ele mesmo sendo simples, é um homem fora do comum, nos seus valores).


Voltando ao tom de voz, interessante que o tom de voz que Daniel Day Lewis escolheu é extremamente calmo. Quase lembra o de senhores sábios que são conhecidos por falarem bons conselhos, ao mesmo tempo que quando é necessário falar firme, o ator mantém o tom de voz. Muito diferente do que de seus outros dois personagens marcantes, Daniel de There Will Be Blood e Bill "The Butcher", de Gangues de Nova York. É cômico notar que este último inclusive tem uma cena no filme de Scorsese aonde joga uma faca no retrato da Lincoln.


Lincoln é um filme muito bem sucedido em mostrar os últimos anos da vida do presidente (ohhh que spoiler), e em mostrar como que este tentou acabar com a Guerra Civil e a Escravidão. É um filme com alguns problemas de ritmo (principalmente no início), que ás vezes soa um tanto artificial nos seus discursos (me refiro ao elenco coadjuvante, com a exceção de Tommy Lee Jones, que brilha junto com Daniel Day Lewis) que para muitos será extremamente tedioso (é um filme sobre política, ou seja personagens verborrágicos e muita conversa).

Mas que para mim é um filme com muitos mais acertos do que erros, conta com uma direção de arte, direção e atuações impecáveis. E que por mais que tenha um pouco de polimento na história de Lincoln, não é nada indigno. Filmes como O Resgate do Soldado Ryan, Titanic, até mesmo as séries da Hbo fazem isso também. E mantém a essência da história, não é o caso de outro filme sobre um presidente que acaba com toda a história e poe um símbolo de heroísmo aonde não tem,que ai sim acho justo condenar (me refiro a atrocidade que foi Lula, O Filho do Brasil, para os que não pegaram a referência).

Esta é só minha opinião, se quiserem por links de historiadores sobre o personagem ou discutirem que tudo é uma mentira, tudo bem. Faço questão que o façam! Porém após assistir o filme (e pesquisar um pouco, chegando a afirmar que é bem o que o filme diz mesmo) só tenho uma coisa a dizer:Lincoln era um ponto fora da curva, um homem excepcional. E isso meus caros leitores, era verdade.


Nota: 8,5