quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Crítica: Django Livre


Não é surpresa pra ninguém que Quentin Tarantino viria a dirigir um western spaghetti. O diretor idolatra grandes mestres do faroeste como Sergio Leone e Howard Hawks, utiliza músicas de Ennio Morricone em seus filmes, utiliza referências de bang-bang (o embate mexicano de Cães de Aluguel e Bastardos Inglórios). Mas não se engane: Em Django Livre, Tarantino não está só fazendo um tributo ao gênero dos pistoleiros solitários (como Clint Eastwood fez com Os Imperdoáveis), também está moldando-o a sua forma.

Estão presentes em cena o humor negro, os movimentos de câmera estranhos (é necessário lembrar que eram produções baratas), momentos de tensão. Porém Tarantino faz mais: adicionando muitos litros de sangue, um roteiro incrível, atuações inspiradas, uma trilha sonora que vai desde o funk dos anos 60 de James Brown até o rap de Rick Ross dos tempos de hoje. Fora a abordagem no seu  tema favorito: vingança.

Podemos perceber que o diretor não quis seguir o esperado:fazer um western spaghetti em regiões desérticas, com personagens coadjuvantes mexicanos, closes nos rostos dos personagens, usando um roteiro com heróis que não falam muito mas que soltam muitas frases de efeito e músicas de Ennio Morricone. Pra começar, resolve passar o filme no Sul dos Estados Unidos, na época da Escravidão Americana (dois anos antes da Guerra Civil), usa um roteiro com personagens extremamente verborrágicos e incorpora diversos temas musicais. Além do já esperado (e bem vindo) Ennio Morricone.



Na trama um caçador de recompensas alemão (Christoph Waltz) liberta um jovem escravo (Jamie Foxx), com o objetivo de matar três criminosos. Em troca, promete ajuda-lo a resgatar sua esposa (Kerry Washington) das garras de um fazendeiro inescrupuloso chamado Calvin Candie (Leonardo Di Caprio)

O personagem Django surge pela 1a vez em tela, e já vemos que é um personagem extremamente "Tarantinesco". O diretor o filma da mesma forma que filmou a personagem de Pam Grier em Jackie Brown, (acompanhando apenas a parte de cima do ator. Fazendo parecer  que está flutuando). Se há uma relação com a personagem de Jackie Brown não dá pra saber, mas a verdade é que Django poderia muito bem ser um personagem dos filmes black exploitation. Até mesmo fazendo par com a musa do gênero Pam Grier. Tenho certeza que os personagens Shaft e Jules (de Pulp Fiction) adorariam Django, por ser como eles um verdadeiro herói do movimento Black Power.

Além de ser um personagem típico dos filmes Black Exploitation, Django também é um verdadeiro herói do western. Não fala tanto quanto os outros personagens (porém quando o faz solta incríveis frases de efeito), inexplicavelmente atira muito bem. Este último fato fez com que muita gente reclamasse do filme, dizendo que era estupido o rapaz  já acertar a cabeça de um bandido no 1o tiro que dá. Porém não perceberam, que é um western spaghetti. Por um acaso algum dos filmes  do personagem Trinity, ou do Homem Sem Nome (interpretado pelo ícone Clint Eastwood) mostravam os personagens praticando tiro ao alvo? Não. Porque eles são heróis, nasceram com isso. São as lendas do oeste, e como diria o diretor do clássico Rastros de Ódio John, John Ford: "Entre a lenda e a verdade, imprime-se a lenda".

Django Livre apresenta uma galeria incrível de personagens. Deixando de lado o personagem título, falarei agora de mais três que me chamaram a atenção: o Dr King Schultz (Christoph Waltz), Calvin Candie (Leonardo Di Caprio) e Stephen (Samuel L Jackson). Não reclame do papel de Kerry Washington, a personagem Broomhilda serve apenas para uma coisa no filme: ser a princesa que precisa ser resgatada do castelo do vilão. O fato do nome Broomhilda vir de uma lenda alemã, sobre uma valquíria que está presa por um dragão e que precisa ser salva por um jovem, não é coincidência.


Para começar, falemos do Dr King Shultz. O personagem de Christoph Waltz é a versão boa do Coronel Hans Landa de Bastardos Inglórios. Além dos personagens dividirem o mesmo ator, também possuem muitas semelhanças:  falam várias línguas (inglês, alemão e francês),  são personagens verborrágicos, são extremamente sangue frios quando preciso (enquanto Landa não se importa de enforcar uma atriz até a morte, Schultz não liga de dar um tiro em um bandido enquanto este está acompanhado de ser filho de 12 anos). Mesmo assim, são personagens com uma diferença básica: não compartilham da mesma ideologia. Enquanto Landa é um nazista, ou seja anti-semita e contra todas as raças exceto a ariana pura, Schultz é totalmente contra a escravidão dos negros. Fica chocado por ter presenciado uma cena de violência contra um pobre escravo.




Passemos agora para Calvin Candie, personagem de Leonardo Di Caprio. Não é a toa que  Tarantino escreveu o papel de Hans Landa de Bastardos Inglórios para o ator de Titanic. Di Caprio é um ator que domina todas as cenas em que surge. Seu personagem é um grande filho da puta, Di Caprio faz com que sintamos isso por ele devido a pequenos gestos: a forma com a qual ele cumprimenta um determinado personagem (adquirindo um sorriso demoníaco), o jeito com que pronuncia a palavra "Nigger", a forma com que se aproxima de um escravo cujo destino está em suas mãos.

O personagem de Di Caprio é um homem rude que cria toda uma atmosfera para parecer que é culto, como seria de se esperar de um homem rico. Fala com um sotaque sulista misturado com um leve sotaque francês, fuma cigarrilhas, tem uma enorme biblioteca (sendo que não leu nenhum dos livros). Podemos ainda perceber detalhes que nos mostram que é um homem ignorante (seus dentes podres). Note como após um personagem usar um termo mais técnico para definir um cumprimento, o personagem de Di Caprio repete o termo com a pronúncia errada, quase como "Ah sim, claro. Isso mesmo". Uma cena que mostra bem esse contraste, é quando Di Caprio anda com suas roupas engomadas, em direção a um escravo, porém pisa na bosta que tem no caminho, sem ligar para suas roupas.

Mesmo assim, essa atmosfera falsa acaba quando o personagem fica com raiva. Em uma determinada cena, note como  fala sem usar o sotaque, deixando os dentes pra fora (quase como um animal exibindo suas garras) e com um olhar psicótico. Admito que nesta cena fiquei  surpreendido com Di Caprio, o ator parecia possesso pelo demônio. Não é a melhor atuação do ator, posto que dou a O Aviador. Mesmo assim, ao menos uma indicação a Academia devia ter dado ao ator.

Passemos agora ao personagem de Samuel L Jackson e seu Stephen. Assim como Calvin Candie, Stephen é senhor da propriedade. A diferença é que ele é um negro, mesmo assim é o pior tipo de negro como descrito por Django "Pior que o negro mercador de escravos, é o negro que trabalha na casa grande".


A grande questão de Stephen é de ele ser o homem que quer manter  o status quo da casa. Não importando os meios, desde que tudo esteja bem. Samuel L Jackson fez sua melhor atuação desde Pulp Fiction e Jackie Brown. Ao invés de fazer o Badass Motherfucker de todos os seus outros filmes (consequência de Pulp Fiction), aqui o vemos como um idoso perigoso. Que inspira medo nos outros escravos, devido a influência que tem sobre Calvin Candie (Leonardo Di Caprio).



Vale dizer que Django Livre é um filme extremamente violento. Esqueçam o sangue digital que todos veem em videogames, e em filmes como Kick-Ass. Aqui a violência é com muito sangue falso, MUITO mesmo. Devo dizer que fazia tempo que não via uma matança como a vista na mansão. Com certeza irá gerar muita repercussão, afinal não é todo filme que mostra personagens tão imorais e violentos se matando dessa forma. Deve ser o faroeste mais violento já feito na história, ganhando até mesmo de Meu Ódio Será Sua Herança

Isso gera outro tópico interessante: Não, Tarantino não glamoriza a violência. Note que quando a violência é contra escravos a câmera até evita mostrar. Mas quando é com bandidos, vilões: Ai sim Tarantino mostra sangue jorrando, câmera lenta. É interessante ver que Tarantino está amadurecendo como cineasta. No caso Django Livre não tendo um final surtado como o de Bastardos Inglórios (me refiro a cena do cinema).




Django Livre só perde um pouco pela falta de Sally Menke, a editora dos filmes do texano desde o inicio de sua carreira. Infelizmente Sally faleceu em 2010, deixando Django com outro editor. Que não é ruim, mas que de vez em quando falha um pouco com os flashbacks. Mesmo rendendo alguns momentos inspirados (foi uma excelente ideia mostrar os flashbacks com filtros de filme vermelhos e azuis, como uma pelicula estragada), a edição as vezes é confusa (o flashback de Django e Broomhilda fugindo, aparecendo depois de terem sido pegos).

Nada que atrapalhe a experiência de se assistir a Django Livre, um dos melhores filmes de Tarantino (na minha opinião só perdendo para Pulp Fiction), um dos melhores filmes de 2012 e a prova que Tarantino está amadurecendo como cineasta. Tudo o que os trailers, cartazes e noticias prometiam. Mais uma lenda do velho oeste criada, John Ford, Sergio Leone e Sam Peckinpah ficariam orgulhosos.

Nota:10