segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Crítica: Cloud Atlas-A Viagem




Cloud Atlas chega aos cinemas com muita expectativa em torno. Afinal, estamos falando do mais novo filme dos diretores de Matrix, um fenômeno do cinema. Os Irmãos Wachowski foram muito influenciados por quadrinhos, filmes, filosofia ao criar Matrix. O mesmo acontece em Cloud Atlas, um excelente exemplo de filme que não considera seu espectador burro, e diferente de muitos filmes recentes (usarei o clássico exemplo de Prometheus) deixa que o espectador use a massa cinzenta para tirar suas próprias conclusões sobre o que está acontecendo em tela. Cloud Atlas é um filme que metade da crítica odiou (alguns dizendo que lembrava O Mensageiro, ficção científica horrenda de Kevin Costner) e outra metade (incluindo o crítico Roger Ebert) amou. Eu me incluo no segundo grupo.

É preciso lembrar que os Irmão Wachoski não são diretores que sempre fizeram filmes excelentes. A qualidade de suas produções caiu absurdamente nas continuações de Matrix (apesar de visualmente falando serem filmes impecáveis, como bom nerd vibrei na batalha na chuva de Neo e Smith em Matrix Revolutions). Mesmo assim, os Irmãos conseguiram virar o jogo, dirigindo o excelente Speed Racer (filme que como Cloud Atlas não foi bem recebido na época) e produzindo V de Vingança (uma das melhores adaptações de Quadrinhos que já vi, apesar de fazer com que todo hacker na internet usasse a mascara de V, personagem que não tem nada a ver com as ideias desses "revolucionários da internet"). Claro, ainda erraram (ainda não me esqueci do ridículo Ninja Assassino, filme que produziram) mas mesmo assim os Irmãos W. ainda são cineastas muito acima da média.

No caso de Cloud Atlas, resolveram se juntar com Tom Skywer, diretor do hoje clássico Corra Lola Corra. Diretor muito competente, e tão criativo quanto os Irmãos. O resultado dessa união é espetacular.




Cloud Atlas é um filme muito dificil de se fazer uma crítica. Como posso descreve-lo para vocês? Imaginem uma mistura de Sucker Punch, Animatrix, Contos de Nova York, Sin City, Bullit, Avatar, Monty Python e O Sentido da Vida e o Novo Mundo. Cloud Atlas é um pouco disso. Um filme que vale por 6, cada um desses filmes com os mesmos atores que se revezam em protagonistas e coadjuvantes( um Tom Hanks protagonista em um dos segmentos pode ser apenas uma ponta pequena em outro). Uma ficção científica misturada com thriller policial dos anos 70, com uma produção épica, com uma comédia britânica, com um filme de ação futurista, com drama de época, com  sci fi manga.

Os atores conseguem ser camaleões literalmente, afinal a maquiagem do filme os permite mudarem suas feições, sexo e até cor de pele. E o mais interessante de tudo:Os segmentos acontecem simultaneamente. Você pode ter pensado que o filme contaria um segmento de 30 minutos, para assim passar para outro e assim por diante. Mas não é, tudo acontece ao mesmo tempo. Por isso o público comum de cinema não gostou do filme, por isso que as bilheterias não foram boas:Poucos tentaram entender essa montagem.

Posso dizer que esta montagem é essencial para o filme. Faz com que a frase do poster ("tudo está conectado") faça sentido. Um exemplo:Um momento de perigo em um dos segmentos, coincide com o momento de perigo do outro também. Um personagem que é idoso em um segmento encarando um dilema , o vemos em sua juventude em outro segmento, encarando outro dilema. Tudo se coincide, é simplesmente incrível.




Cloud Atlas é um filme muito corajoso. Fazer uma produção que confia no espectador, que possui uma montagem que nem todos irão gostar e que aborda tantos temas juntos merece os parabéns. Os diretores sabiam disso, e dedicaram um momento do filme para falar isso. Nesse momento vários personagens tomam atitudes pelas quais serão repreendidos depois. Por serem muito corajosos, muito inovadores, muito a frente do seu tempo. Mas os personagens não ligam, eles continuam. Confiando em seus corações! Nada mais simbólico do que isso, do que os dois jovens apaixonados quebrando vários pratos de porcelana em uma loja cara.

É ridiculo falar da parte técnica do filme. Os efeitos especiais, figurino, direção de arte são todos impecáveis. O elenco todo está bem, cada um respeitando o espaço do outro. O que era o essencial, afinal um filme com tantos atores e personagens não pode ter uma atuação que chame mais atenção que os outros. Por isso o elenco formado por Tom Hanks, Halle Berry, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Hugh Grant, Susan Sarandon, Jim Sturgess, Ben Whishaw, Keith David, David Gyasi, Zhou Xun e Doona Bae só deixa o filme melhor.

Se o filme tem algum defeito talvez seja apenas um dos segmentos. Que não e ruim, mas que não cativa tanto quanto os outros (saberá de qual estou falando quando assistir ao filme). Mas isso é só um detalhe. E não, não me refiro ao segmento da imagem abaixo.





Arrisco dizer que estamos diante de um novo filme cult, quase como um Blade Runner. Um filme excelente, muito mais inteligente do que a maioria das produções atuais, que a maioria do público detestou por não entender. Mas que mesmo assim cativou um grupo determinado de críticos, nerds, espectadores.

Também arrisco dizer que se Cloud Atlas fosse um quadrinho teria uma recepção muito melhor, o público dos quadrinhos aceita muito melhor múltiplas narrativas. Além de possuir o dom de observar, coisa que o público americano (e brasileiro) não tem. Aonde ficam esperando que o roteiro explique tudo que está acontecendo em tela:As relações entre personagens, as conexões dos segmentos, os pensamentos. É preciso que você saiba observar em Cloud Atlas, não espere um roteiro estupido como Prometheus (sim, eu detesto este filme).

Posso dizer que o filme merece destaque como uma das melhores produções de 2012, em um ano que temos tantos filmes irregulares Cloud Atlas surge quase como um presente de Natal atrasado dos Irmãos Wachowski. Bem, presente para uns e exercícios chatos para outros. Afinal como eu já disse, Cloud Atlas é um filme que dividiu a crítica. Metade amou, e metade odiou. Eu fico feliz em dizer que me enquadro no 1o grupo.


Nota:10