segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Crítica: A Viagem (Doki Edition)


Um pouco atrasado, mas enfim cheguei com minha crítica do novo filme dos Wachowskis. Decidimos por fazer duas críticas já que Cloud Atlas tem se mostrado um grande divisor de opiniões, e, como o previsto, minha opinião e a de Lauro foram, sim, diferentes. Não, isso não significa que eu não tenha gostado.

Cloud Atlas é, inquestionavelmente, um filme corajoso. Uma narrativa ambiciosa que mistura diversos gêneros com uma conexão poderosa e que nem todos perceberão, afinal, Cloud Atlas não amarra as pontas sozinho, e permite que o espectador o faça do modo que lhe pareça mais convincente. Não que seja um filme difícil de entender, mas deixa várias questões em aberto e que cada um pode elaborar sua teoria.


Apresentando-nos 6 histórias que se passam em épocas e contextos históricos completamente diferentes, indo do século 19, passando pelo pós-guerra na Inglaterra em 1946; Depois por 1973, com o surgimento de uma enorme usina nuclear, então por 2012, por 2144 e, por último, em um futuro pós-apocalíptico ocorrido 106 anos depois de um evento descrito como "a queda". Além dos atores, que representam diversos papéis na projeção, mostrando as caras em todas as histórias, existe uma grande conexão em comum: a de que nossas atitudes e escolhas refletem em todo o futuro. Tudo está conectado.


O problema é que, apesar da linda mensagem (que é, sim, passada com maestria), pouco há de se falar sobre de cada uma das histórias. Seria extremamente injusto e errôneo chamar a narrativa de A Viagem de 'irregular', já que cada segmento tem um gênero diferente, mas talvez o melhor adjetivo pra se usar aqui seja "raso", ou, como diria Bilbo Bolseiro, "um pouquinho de manteiga espalhado em um pedaço muito grande de pão".

Calma, não me batam. Vou me explicar. A impressão que tive foi que cada uma das histórias contadas tinha riqueza suficiente para serem filmes independentes, uns mais longos que outros, mas todos poderiam ser filmes separados, e, então, é inevitável que nenhuma delas se desenvolva como devem em apenas 3 horas de filme. Existe pouco espaço para todos os personagens, que ressoam através das épocas, se desenvolverem apropriadamente. Os personagens existem, e em momento algum são artificiais, mas também em momento algum mostram algum tipo de crescimento ou mudança graduais. Aliás, pra não dizer que ninguém muda, apenas nas duas sequências ocorridas no futuro existe algum tipo de evolução psicológia: Sonmi-451 (Doona Bae) tem uma mudança de vida radical, mas não é mais que a obrigação, já que o contexto exige essa mudança para que a história possa continuar; e Zachry (Tom Hanks), que vai superando suas inseguranças, seu medo até conseguir proteger e salvar alguém, mesmo que cometa erros no processo. Isso é tudo, porém, já que a maioria dos outros, quando mudam, mudam apenas um ponto de vista baseando-se em um acontecimento (como ocorreu no segmento do navio, no séc. 19).


Porém, nada disso é culpa da direção dos Wachowskis, que, mesmo tendo a infâmia causada pelo problemático Matrix Revolutions, aqui consegue narrar o filme com fluidez mesmo com as mudanças abruptas de gênero, conseguindo encaixar todas as histórias, mesmo rasas, de uma forma regular e agradável. Agora acompanhados de Tom Tykwer, que conta com uma produção mais regular (Corra Lola, Corra, Perfume, Trama Internacional entre outros), o filme jamais soa artificial e sucede nos gêneros que explora, gerando boas risadas, boas sequências de ação, planos elegantes, sempre com a habitual e magnífica qualidade técnica. As maravilhosas fotografias - sim, no plural, já que ela se altera entre os segmentos, atingindo tons mais gélidos em um e cores extremamente fortes em outro - a direção de arte que mantém cada contexto histórico convincente e visualmente belo, e os efeitos especiais - que se concentram em um ou dois segmentos, mas que são sempre de qualidade.


Agora, se disse que a narrativa de A Viagem não era irregular, o mesmo não posso dizer de sua maquiagem. 

Nos créditos finais, vemos todos os papéis que cada ator representou, e a reação de muitas pessoas que assistiam ao filme na mesma sala de cinema que eu foi "nossa, eu nem percebi que era ele"! Admito que isso aconteceu comigo também, o que normalmente indicaria uma qualidade exemplar de maquiagem. 

E isso é verdade. Em algumas partes. Se a maquiagem conseguiu mudar os atores, transformando homens em mulheres, negros em caucasianos, ocidentais em orientais, nem sempre elas convenciam, o que justifica a não-indicação ao Oscar. Afinal, não dá pra questionar a artificialidade horrenda da maquiagem que tentou transformar Hugo Weaving em asiático, fazendo ele parecer mais com algo com o qual eu terei pesadelos sérios essa noite do que em um coreano. E isso é apenas um dos exemplos. Claro que em certos momentos a maquiagem enche os olhos, isso é fato, mas tem horas em que ela simplesmente quebra toda a seriedade da coisa.

Enfim, gostei de Cloud Atlas, de verdade. Uma pena que os segmentos tenham sido tão rasos e simplórios em questão de roteiro, mas a conexão e a forma com a qual as narrativas se entrelaçam, isso sim não se pode criticar. Os Wachowskis têm uma criatividade única e um dom para a sétima arte, e ainda têm potencial pra realizar mais obras no futuro. Com sorte, melhores do que esse A Viagem.

Nota: 7,0/10