quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Crítica - Ace Attorney (Gyakuten Saiban)


Desde a estreia do primeiro jogo para Game Boy Advance, Gyakuten Saiban Yomigaeru Gyakuten em 2001, no Japão, o personagem Naruhodo Ryuichi alcançou uma grande popularidade. Em 2002, o Japão recebeu, para a mesma plataforma portátil, o segundo jogo: Gyakuten Saiban 2. E só em 2006 o ocidente pode conhecer o personagem, quando o primeiro jogo recebeu um port para o Nintendo DS, que foi traduzido para o inglês e o personagem recebeu o nome de Phoenix Wright.

O jogo se tornou um clássico instantâneo entre os gamers e, principalmente, otakus e receberam críticas positivas de todos os lados, mas ninguém poderia imaginar que poderia ser adaptado para o Cinema, afinal, o jogo não mantém estrutura cinematográfica alguma. Alternando entre um modo investigativo no qual você visita os locais dos crimes e arredores e o modo de tribunal, no qual você usa as provas que encontrou para defender algum acusado, o jogo ganhou sua fama por ser desafiador, por obrigar o jogador a pensar, a ler todos os testemunhos, rever as provas e então fazer o movimento certo na hora certa. Os personagens completamente over-the-top e a comédia bem pontuada e o drama que também encontra espaço na narrativa são também motivos para os jogos terem se tornado tão famosos.



Agora imagine alguém jogando do seu lado, e você assistindo a essa pessoa jogar. Não parece divertido, e muitos chegaram a pensar que o filme não seria nada além disso. Mas a adaptação, fazendo algumas mudanças e mantendo uma narrativa ágil, é muito mais divertida do que isso.



Recontando a estória do primeiro jogo, o filme dirigido por Takashi Miike (diretor do ótimo Ichi the Killer e do péssimo Ninja Kids!!, entre outros) se passa em um futuro caótico onde a taxa de criminalidade aumentou absurdamente, e não daria mais tempo de manter a estrutura de tribunais de "antigamente" (no mundo real, a de hoje), que demorava muito até que os julgamentos fossem terminados e a sentença fosse tomada. Assim, foi criado o Bench Trial System, um sistema de tribunais que toma 3 dias e nada além disso, nos quais a defesa e a acusação praticamente lutam para decidir a sentença. Mas não lutas físicas, mas sim lutas de palavras, imagens, provas, depoimentos, tudo com a ajuda de telões holográficos que instantaneamente apresentam os dados da investigação e que podem ser operados com total liberdade pelo advogado/promotor, inclusive podendo ser arremessado no "oponente".

E é nesse contexto que acompanhamos Phoenix Wright (Hiroki Narimiya), um advogado iniciante que completou alguns casos com sucesso com a ajuda de sua colega Mia Fey (Rei Dan), que um dia encontra uma prova que pode resolver finalmente o caso DL-6 que está sem solução há décadas envolvendo sua mãe Misty Fey (Kimiko Yo). Porém, antes de poder mostrar a qualquer pessoa, ela é assassinada, e a acusada pelo assassinato é a irmã Maya Fey (Mirei Kiritani). Phoenix então deve enfrentar o super competente, inteligente e corajoso promotor Miles Edgeworth (Takumi Saito) para defendê-la. Depois, muitas coisas acontecem, todas elas relacionadas ao caso DL-6.



É incrível o quanto o filme se mantém fiel à bizarrice e ao over-the-top do jogo, e, felizmente, funciona de forma coerente dentro do próprio filme. Com uma fotografia colorida e o mesmo exagero intencional nos cabelos e nas roupas dos personagens, e também nas atuações dos atores que pegam a essência dos personagens nas expressões faciais absurdas sem chegar ao overacting, Phoenix Wright é um filme que abraça a bizarrice, assim como o jogo. Mas sem falhar nas partes mais emocionais e dramáticas, que são passadas se uma forma realmente angustiante e tocante.

Preciso falar também da genialidade de Miike ao subverter coisas que normalmente seriam cômicas mas que no contexto acabam soando sérias de uma forma convincente, como na cena em que Phoenix coloca um papagaio como testemunho no tribunal, e por mais que a cena tenha seu humor, ela é rapidamente transformada em uma cena dramática de dar nó na garganta.



Mas a parte mais interessante é que o filme não mastiga as informações pra você de imediato. Ele sucede em manter você raciocinando e ligando os pontos continuamente, e cada prova apresentada pode mudar completamente o curso do que está acontecendo, mantendo o espectador constantemente na expectativa.

Talvez o filme Ace Attorney não seja para todos. Talvez a bizarrice seja demais pra alguns espectadores, mas se você tem uma mente aberta, eu recomendo muitíssimo. Se você é fã dos jogos, então, pela primeira vez, eu posso dizer que você não vai se decepcionar. Temos aqui a melhor adaptação de jogos de videogame da história do Cinema.

E o melhor filme de Takashi Miike em um bom tempo.

Nota: 8/10