domingo, 28 de outubro de 2012

Crítica: 007 - Cassino Royale (2006)



Cassino Royale é o 21º filme da série 007, protagonizada pelo personagem James Bond, que já foi vivido por, até então, 6 atores. Nesses 21 exemplares, muitos personagens (icônicos ou não) já passaram pelas câmeras e tiveram espaço em suas respectivas narrativas. Logo, seria impossível (e irrelevante, com certeza), se preocupar em preservar uma cronologia. Assim, se o espectador for ao cinema esperando alguma ligação forte entre Cassino Royale e os outros filmes da série, pode se desapontar.

Já abrindo com uma sequência inicial incrível em preto-e-branco que mostra dois momentos que contribuem para a promoção do personagem principal a agente 00 (uma delas com uma fotografia suja, fria e extremamente crua), Cassino Royale já pontua sua diferença de tom em relação aos outros filmes.



Apostando aqui em um James Bond diferente dos representados pelos outros 5 atores, o roteiro escrito por Robert Wade, Neil Purvis e Paul Haggis acompanha o personagem em sua promoção (durante a sequência de abertura citada acima) e, então, em sua primeira missão, que coloca a prova sua força, sua personalidade, sua inteligência e, posteriormente, sua barreira pessoal, mesmo em uma missão aparentemente inofensiva: derrotar o vilão Le Chiffre (Mads Mikkelsen) no pôquer. Além disso, é dado o foco, diversas vezes, em partes investigativas.



Não é isso que indica que o filme não tenha ação. Muito pelo contrário. Apesar de não apostar totalmente em sequência de ação para suportar a narrativa, essas são conduzidas espetacularmente pelo diretor Martin Campbell. Mesmo percebendo a impossível disposição física do protagonista, percebemos que ele se cansa e se machuca bastante , o que confere certa realidade à ação. E não é só isso. Empolgando  nas cenas de tiroteios graças a uma montagem controlada que permite que enxerguemos, nas de combate corpo-a-corpo, que, como eu disse, são suficientemente verossímeis e nas perseguições a pé, que são intensas e eficientes graças à visível inclusão do parkour em diversas partes.

Porém, o que realmente torna esse conjunto realmente funcional é a frieza e crueldade do personagem, o que não só contribui pra eficiência deste como um agente da MI6, mas também contribui na composição de um personagem tridimensional e visivelmente perturbado, violento, quase psicótico, que encara suas missões com seriedade sem deixar de lado a virilidade, a sensualidade e, posteriormente, a sensibilidade. Sim.



E é incrível que, depois de tanto tempo, o roteiro dê espaço para um vilão também mais humano, nada caricato, que não tem planos malvados megalomaníacos.

Muito pelo contrário, as motivações de Le Chiffre é apenas recuperar o dinheiro de seus clientes terroristas, perdidos em uma aposta no mercado de ações, e que, se ele não o fizer, não terá um fim muito agradável. Mesmo sendo um homem inteligente e aparentemente calculista, vemos depois que ele sente medo por sua vida.



Mas o destaque aqui é realmente Vesper Lynd (Eva Green), uma bond girl que não cede facilmente ao protagonista, que, mesmo insegura e inexperiente referindo-se à violência e aos assassinatos que presencia, ela mantém uma presença extremamente forte em cena e também no protagonista, sendo a única a conseguir penetrar na barreira pessoal imposta por ele. E nada disso soa artificial, já que a personagem consegue deixar claro o motivo pelo qual exerce maior encanto sob Bond do que as outras mulheres. E, também, graças a ela, temos dicas sutis referentes ao passado dele, que até então revelava-se obscuro, instigando a curiosidade e o fascínio.



Tudo isso não funcionaria tão bem se não fosse seu elenco admirável. Todos mantém seus papéis com segurança.

Cassino Royale, então, recria James Bond de uma maneira mais humana e realista sem tirar do personagem as características que o marcaram através de décadas.

E se essa tentativa já havia sido feita principalmente em 1969 no filme 007 - A Serviço Secreto de Sua Majestade, que desenvolvia muitíssimo bem o lado sensível do personagem, ela foi prejudicado pela performance risível de George Lazenby, tornando assim Cassino Royale, até então, o 007 mais eficiente em relação à riqueza de seu personagem.

E mostra também que Daniel Graig tem um potencial enorme dentro da franquia.

nota:10