segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Crítica: ParaNorman



ParaNorman é um filme que prova que animação não é só para crianças àqueles que tem preconceito com o formato.

Dirigido e escrito por Chris Butler (supervisor e artista de storyboard em A Noiva Cadáver e Coraline) e Sam Fell (diretor de Por Água Abaixo), ParaNorman conta a estória de um menino, chamado Norman, que é apaixonado por filmes de zumbis e que também pode enxergar e conversar com fantasmas de pessoas que já morreram - entre eles, sua avó. Por isso, é incompreendido pelos pais e pela fútil irmã mais velha. Ele também sofre de bullying sério na escola por ser "esquisito" e é completamente excluído por todos, exceto por Neil, que também sofre por ser "gordinho". E, como se não bastasse, ele começa a ter visões tenebrosas e maus presságios.


E ele vive nessa existência triste até que seu tio pobre e doente, o Sr. Prenderghast - que também conversa com os mortos - vem dizer que Norman está encarregado de evitar que uma bruxa, executada há 300 anos, volte e faça ressurgir (no formato de zumbis) as 7 pessoas que a julgaram, cujas almas foram amaldiçoadas.

Logo no comecinho, ParaNorman já diverte mandando uma referência aos filmes de zumbi grindhouse, com a tela suja, mulheres com roupas curtas e zumbis medonhos.

Mas depois, o filme fica cada vez mais fascinante. Sofrendo com a incompreensão dos pais e com a exclusão e aos abusos na escola, claramente se vê o quanto Norman se dá muito melhor com os mortos do que com os vivos, em uma sequência no qual vai, extremamente simpático, cumprimentando os fantasmas, que são simpáticos com ele em troca. Apenas para, quando perceber a presença de algum vivo, já voltar a se retrair, ficar quieto e, também, deprimido.



Retratando todos os outros personagens como estereótipos, até por meio de detalhes (como os alargadores do bully Alvin, o jeito irritante de Courtney, irmã de Norman e os esteroides do bombadão Mitch) e até os coadjuvantes, o roteiro já constrói uma lição moral importantíssima e incômoda inclusive, escancarando o vício de excluir e de fazer mal àqueles que não entendemos e, o outro lado, de desejarmos o sofrimento de todos aqueles que nos prejudicam, evitando julgar os personagens e ainda assim sendo moralmente aceitável e certo.

A grande questão é o rumo que o filme toma, que vai ficando cada vez mais assombroso. E quando eu digo isso, não quero dizer que o filme dá medo, mas que a temática dele vai ficando pesada, e os sentimentos de ódio, dor e sofrimento presentes na tela ficam extremamente fortes, fazendo o filme ficar incômodo, não só às crianças, mas a todos aqueles que entenderem a força do que o roteiro está tentando passar.



Muitos podem não enxergar, mas existem casos, em nossa sociedade, de pessoas que desenvolveram transtornos alimentares por serem julgadas por serem gordas, ou que começam a desenvolver sintomas de depressão por serem excluídas por qualquer outro que seja o motivo. Esse é o grande problema de nós, seres humanos. Tendemos a distanciar e a machucar aquilo que não compreendemos, sem nos posicionarmos no lugar do outro. Cada palavra maldosa que desferimos pode acabar se transformando em um problema gravíssimo. E, por mais que, no século XXI, não executemos e queimemos mais as pessoas diferentes em fogueiras, continuamos julgando e tratando mal sem ligar para o que ela pode estar sentindo.

Não é uma mensagem leve, e ParaNorman escancara isso e joga na nossa cara.



Como se não bastasse, a animação é de extrema qualidade. As expressões faciais sutis, os cenários e os efeitos especiais misturados com a arte do stopmotion fazem com que ParaNorman seja um filme maravilhoso de se ver, e as locações, a direção de arte e a fotografia, que vão tomando tons mais cinzas de acordo com o que está acontecendo, ajudam a construir a atmosfera tensa que citei acima, criando imagens fortes e que dificilmente serão esquecidas.

ParaNorman é um filme que tem muito a dizer, e que deve ter a atenção de todos. Ser bem-feito e fascinante é só um bônus.

Nota: 10/10