quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Crítica: O Cavaleiro das Trevas (2008)


"Introduce a little anarchy. Upset the stabilished order, and everything becomes chaos. I am an agent of chaos, and - oh - you know the funny thing about chaos? It's fair"

Quando disse na minha crítica de Batman Begins que Gotham City era assemelhável a um labirinto de ratos, disse também que essa ideia chegaria a seu ápice na continuação, da qual vos falo aqui. Já que, muito mais intenso, incômodo, adulto, político e, acima de tudo, mais fascinante que seu antecessor, O Cavaleiro das Trevas consegue escancarar a mentalidade das pessoas que vivem não só em uma sociedade abalada, mas também na cidade que representa todos os problemas de todas as cidades do mundo. 



Começando de onde seu antecessor parou, em tempos mais tranquilos, onde o Batman já se tornou um grande símbolo de justiça - a ponto até de espantar criminosos pelo simples fato de seu sinal estar sendo projetado no céu. Por outro lado, começa a ocorrer um fenômeno causador de problemas: O fato de pessoas estarem se vestindo como o herói e saindo com armas pra fazer justiça com as próprias mãos - desrespeitando a ordem e também a regra inquebrável do protagonista, que é a de não matar. 

Mas o que contribui para a tranquilidade, também, são os promotores Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, substituindo Katie Holmes) e Harvey Dent (Aaron Eckhart), que contribuem em corte para que a ordem seja mantida - e destaque para o segundo, que jamais se deixa corromper e tenta com todas as forças colocar os mafiosos de Gotham nas cadeias, enquanto estes, desesperados e loucos para acabarem com Harvey e Batman, acabam confiando em um estranho imprevisível, impiedoso, visivelmente insano e que usa maquiagem de palhaço por cima das pesadas cicatrizes. E acho que você sabe de quem eu estou falando. 



Mantendo um universo sempre realista mas que não esquece de abraçar moderadamente a ficção, o diretor Christopher Nolan se propõe a sempre manter um pé no chão, fazendo com que tudo, apesar de alguns exageros, esteja no lugar e que todos possam se identificar com o que ocorre na tela. E esse pé no chão ajuda a conferir realismo até aos ocasionais exageros, o que recebe auxílio do roteiro, que confere explicações não apenas plausíveis, mas inteligentes. E também nos confere sequências muito bem "sacadas" e muito bem elaboradas, como a introdução do filme e também todos os planos do vilão.



Os personagens continuam humanos, como sempre, e os que ainda não conhecemos são introduzidos de forma magistral pelo roteiro. Exausto pela carga física e emocional exigida pelo fato de ser um vigilante, Bruce Wayne toca ao confiar tão abertamente em Harvey Dent, acreditando que esse seja melhor por não precisar vestir uma máscara para fazer justiça e por mostrar uma felicidade recém-vista pelo personagem quando este pensa que Gotham está em boas mãos com o promotor, e Christian Bale é impecável ao encarnar o personagem e todas as suas dificuldades e todos os seus problemas. Enquanto isso, o Alfred incorporado por Michael Caine continua servindo como aquela bem-vinda figura paternal, enquanto sempre mantém-se preocupado mas aparenta um bom humor. Maggie Gyllenhaal substitui bem Katie Holmes, mantendo-se como interesse romântico do protagonista e um pequeno raio de sol em sua vida. Gary Oldman continua convincente como Comissário Gordon, um excelente personagem que sempre passa confiança, e Aaron Eckhart representa muito bem a tranquilidade e a filosofia de "eu faço minha própria sorte" de Harvey Dent, enquanto consegue passar o desgaste emocional causado pela pressão dos inimigos e consegue criar um personagem complexo e multifacetado.



Mas, obviamente, o destaque de atuação vai para o falecido Heath Ledger, que nos mostra aqui um Coringa muito mais louco, inescrupuloso e incômodo que qualquer outra representação do personagem. A dificuldade em focar o olhar, ao focar um diálogo, sua falta de interesse em dinheiro ou poder e sua crueldade que insiste não apenas em matar, mas também em abalar completamente o psicológico de quem ele se propõe a fazer isso, o vilão é uma criatura que consegue deixar o espectador tenso toda vez que entra em cena, justamente por não fazermos ideia de qual será seu próximo movimento, e também por sabermos que ele não exitaria em fazer qualquer coisa. Tudo isso causa repulsa, mas também uma fascinação quase mórbida.



E os conflitos - físicos e psicológicos - de Batman e Coringa é o que tornam O Cavaleiro das Trevas um filme fascinante e adulto, e que leva o espectador a exaustão por expor ele a tantos paradoxos e tanta tensão.

O Cavaleiro das Trevas torna-se, assim, o filme de super-heróis mais realista e mais tenso já concebido, e, em minha humilde opinião, o melhor. 

Nota: 10/10

Mas e quanto ao labirinto de ratos? Okey, eu vou chegar lá.

"O homem é o lobo do homem."
A partir daqui, se você ainda não assistiu ao filme, evite ler. Se você já o fez, então pode prosseguir sem ter medo de arruinar essa maravilhosa experiência.

A frase acima é do filósofo inglês Thomas Hobbes, que, em seu livro O Leviatã, alega que é impossível o homem viver em um estado de natureza, sendo assim, a sociedade se basearia na lei dos mais fortes, e, para evitar isso, seria necessária a criação do Estado.

E por que estou falando disso? Porque O Cavaleiro das Trevas não é apenas um bom filme, mas também um ponto de partida para discussões sociológicas. O homem ainda pode ser considerado o lobo do homem?

Em uma sequência do filme, o contador de Bruce Wayne, Reese (Joshua Harto), temendo pela segurança de sua cidade e de si mesmo e já sabendo que Bruce é o Batman, vai à mídia para revelar o fato a todos. Nessa hora, o Coringa liga à emissora e transmite uma mensagem a todos os cidadãos de Gotham: Se Reese não estiver morto em um determinado tempo, ele explodirá um hospital.

E é essa a desculpa para que incontáveis cidadãos tentassem invadir a emissora para matá-lo. O que leva a pergunta: até que ponto devemos colocar a nossa consciência acima da consciência coletiva e até que ponto temos o direito de matar um ser humano?

E está aí o labirinto de ratos, todos eles contra um com a esperança de que, se aquele rato for morto, eles poderão ser finalmente livres, e sem perceberem que ainda estão agindo como animais. 
Então, até que ponto, também, a esperança não é uma arma perigosa? Mas, ok, isso é assunto para a crítica do terceiro filme, O Cavaleiro das Trevas Ressurge. 

Mas existe outra sequência magistral do filme que não apenas escancara a hipocrisia dos cidadãos daquela cidade, mas, paradoxalmente, oferece a libertação e reconhece todos aqueles ratos como seres humanos racionais e emocionais.

Dois navios: Um cheio de civis, outro cheio de presidiários. Neles, detonadores que, se acionados, explodiriam o outro navio e impediriam aqueles que estavam lá de fazerem o mesmo. E, um tempo estabelecido. Um dos barcos deveria explodir nesse tempo, se não, todos morreriam.

A sequência, também, coloca em discussão 'o até que ponto temos o direito de matar um ser humano', mas não apenas isso. Coloca em discussão se os presidiários, por mais que tenham cometido erros, merecem a execução, o que seria facilmente relacionado ao sistema da pena de morte. 

E a resposta que o filme nos dá é que eles não merecem a morte, porque todos ainda são seres humanos que merecem viver mais um dia para lutar mais uma luta para continuarem vivendo. Seres humanos que merecem a chance de se redimirem de seus erros, de encontrarem caminhos em suas vidas e, por mais que os cidadãos de Gotham também representem os defeitos de todos os cidadãos de todas as cidades do mundo, nada nos faz esquecer de que todos somos seres humanos.