segunda-feira, 30 de julho de 2012

Crítica: Batman Begins (2005)

"Only a cynical man would call what these people have 'lives', Wayne. Crime, despair... this is not how man was supposed to live."

Quando fui assistir a Batman Begins pela primeira vez, nos cinemas, em 2005, antes de entrar na sala eu podia afirmar com todas as minhas forças que eu não gostava de Batman, nem um pouco. Nunca havia sido familiarizado com os quadrinhos do homem-morcego e não havia, na época, assistido aos bons filmes de Tim Burton (Batman, de 1989 e Batman - O Retorno, de 1992).
Qual era a visão do herói que eu tinha?

Adotando uma estrutura horrível de auto-depreciação, cartunismo exagerado e várias exposições ao ridículo, Joel Schumacher dirigiu Batman Eternamente e Batman e Robin, as duas maiores vergonhas aos fãs de Bruce Wayne por transformar a ele e a todos os outros personagens em criaturas patéticas e risíveis, sem jamais usar a tosquisse para atingir o humor e a diversão como no filme Batman - O Homem Morcego de 1966, que estrelou Adam West e Burt Ward, que, apesar de ser extremamente idiota, conseguiu divertir e criar cenas clássicas, como a cena em que o Batman corre com a bomba, ou a do Bat-Spray Anti-Tubarões.



Então, quando saí da sala de cinema logo depois de assistir Begins, eu estava com minha mente estourada (sim, isso foi uma tentativa falha de traduzir "mind blown"), porque eu tinha acabado de ver uma visão extremamente fascinante tanto do personagem quanto do próprio universo em que ele vive. Uma visão realista, crua e depressiva, mas que nunca esquece suas origens nos quadrinhos e a magia da ficção.

Recontando a história de Bruce Wayne, o roteiro escrito pelo também diretor Christopher Nolan e por David S. Goyer adota uma narrativa mais lenta no começo para que possamos entender o personagem em todas as suas formas: Como uma criança, como um filho, como um adulto abandonado, e, então, como um herói. Estabelecendo muito bem a relação entre o garoto e o pai e a posterior morte do mesmo e da sua mãe, é mostrado perfeitamente então os motivos que levaram ao personagem, já adulto, a criar planos maiores, vestir a máscara e ir lutar contra o crime, sem jamais ser incoerente quanto à personalidade do mesmo.



Mas não só. O roteiro cria um personagem esférico com diversas dimensões, que não é apenas um vigilante noturno, mas também um ser humano complexo. Cínico, frio e neurótico, Bruce Wayne, porém, é inteligente, calculista, criativo, cauteloso e amável.

E a humanidade não é conferida apenas ao personagem-título. Todos os personagens adquirem múltiplas dimensões e humanidade em Batman Begins, graças também a um elenco fabuloso.

O mordomo Alfred é representado por Michael Caine como um sujeito confiável, sincero, simpático, divertido, e, acima de tudo, uma figura paternal a Bruce Wayne, deixando assim transbordar preocupação e um amor tão intenso quanto o de um pai pelo principal. Gary Oldman, outro ator excelente, confere uma personalidade forte e bondosa ao Tenente Gordon. Liam Neeson impressiona novamente em mais um papel de mentor, mas não apenas (e quem assistiu efetivamente ao filme saberá do que falo), enquanto Cillian Murphy compõe um vilão excelente, temível e visivelmente desequilibrado, Christian Bale é extremamente sutil e competente nas já citadas características do personagem e Katie Holmes confere um raio de sol ao personagem e ao universo triste em que ele vive.



E, por falar do universo, a Gotham City vista aqui em Batman Begins toma dimensões extremamente realistas, podendo ser facilmente comparada a qualquer cidade grande do mundo. Porque é isso o que Gotham é: O resultado da união de todos os problemas de todas as cidades grandes. A violência, o tráfico de drogas, assaltos e assassinatos a sangue frio. E isso é essencial para que o herói seja devidamente respeitado e admirado pelo próprio espectador, já que todos estamos expostos aos mesmos riscos que os moradores de Gotham - obviamente em uma intensidade muito menor. Mas mais ainda, Gotham City é um labirinto de ratos, onde todas as interferências interferem no comportamento da população como um todo.



E isso chegaria a um novo patamar com a continuação que viria a ser lançada em 2008: O Cavaleiro das Trevas.

Enfim, Batman Begins não é apenas um excelente filme com excelentes personagens, mas também o começo de uma excelentíssima trilogia e o resgate de um personagem que, graças às mãos de Joel Schumacher, parecia estar permanentemente afundado no lixo cinematográfico.

Nota: 10/10