sexta-feira, 23 de março de 2012

Crítica:O Poderoso Chefão





























Em 1972,surgia um filme baseado num famoso best-seller da época,escrito por Mario Puzo. Um filme com filmagens marcadas por desentendimentos entre o diretor e os produtores. Um filme de estúdio,como os quase 400 filmes que a Paramount produzia na época. Não tinha como saber o impacto que esse filme ia ter na época,na década,na história do cinema. Nesta crítica eu não abordarei tanto as qualidades técnicas,mas sim as minhas impressões ao rever o filme nessa
semana.
É curioso que muitos cinéfilos julgam pobre em filmes vistos, alguém que considera o Poderoso Chefão o melhor filme já feito. Eu por um tempo,também achava que era clichê dizer isso. Tem muita gente que fala mesmo por não ter visto mais filmes,mas tem um grupo seleto de pessoas que já viram muitos filmes,e consideram o Poderoso Chefão o melhor filme de todos. Mas todos,sem exageros,todos eles se rendem quando assistem novamente o 1o filme. Os elogios são poucos para a grandiosidade que é o filme. Muitas pessoas se perguntam qual o tema do filme.

Máfia? Não. Violência? Não. Familia? Quase. Amor é a resposta certa. O amor que um pai tem pela sua
família,e a esperança que ele vê em um de seus filhos.






















No começo vemos Don Corleone(interpretado por Marlon Brando),atendendo pessoas no dia do casamento de sua filha. Uma tradição siciliana. Note que a expressão do rosto de Marlon Brando é desencantamento. Don Corleone não é alguém que se orgulha dos caminhos que seguiu em sua vida,mas mesmo assim,se para cuidar de sua familia ele tem que continuar sendo o Don,então ele será o melhor nisso. Note que ele só muda sua expressão de autoridade,quando não há a máfia envolvida. Veja por exemplo quando ele percebe que um de seus afilhados(Johnny Fontane,cantor) chega na festa. Seu rosto se enche de alegria,ele pensa que talvez seu afilhado não tenha ido lá só para pedir um favor que necessite da violência da máfia. O seu consigliere(Tom Hagen,interpretado por Robert Duvall) o adverte:"Outro problema para você resolver",mas mesmo assim ele desce e o cumprimenta,com a esperança de enfim uma pessoa querida não precise de seus serviços. Rapidamente Johnny diz no seu ouvido:"Eu tenho um
problema". Don Corleone então responde: "Cuidaremos disso". E muda sua expressão para
expressão de desencantamento novamente.

Nisso surge seu filho,Michael Corleone(Al Pacino),o caçula da familia. Que não tem envolvimento nenhum com os negócios da familia,e nem precisou de ajuda de seu pai para chegar aonde está(Militar premiado com medalha de honra). Vito Corleone admira muito o seu filho por isso. E vê nele uma esperança. Uma pessoa de sua familia que não tem sangue nas mãos,alguém sem peso na consciência,alguém que possa levar a familia para algo que não seja a máfia. Muita gente pensa que Michael é o filho favorito de Don Corleone,mas não.
Veja por exemplo a cena em que Michael enfim chega na festa,Don Corleone o observa pela janela,como se fosse um filho pequeno que vê seu pai chegando.























A questão é que,Michael Corleone é o que Don Corleone queria pros seus outros filhos,o resto de sua família e até mesmo pra si mesmo. Uma opção de vida boa para um italiano,que não fosse a máfia.
Duas cenas que mostram muito bem isso,são as cenas aonde a familia vai tirar a foto. Há uma primeira tentativa para a foto,mas Don Corleone percebendo que Michael ainda não havia chegado pede para que todos esperem até que Michael chegue na festa. E quando Michael chega e eles enfim vão tirar a foto,Michael interrompe e pede para que sua namorada Kay(Diane Keaton),tire a foto junto com eles. Note o sorriso que Don Corleone tem quando Michael faz isso,Michael formará sua própria familia,que pode não depender da máfia.


Ou então analisemos a 1a tentativa da foto. Por que Don Corleone pede para tirar a foto somente quando Michael Chegasse? Não por favoritismo,mas por naquela foto quando ela fosse tirada e posta num album de familia,alguém olhasse pra ela,e vendo várias pessoas que dependiam da máfia,olhasse mais atentamente e visse Michael. O único que não teve sangue nas mãos.


Mostrando que a familia valeu alguma coisa. Essa pessoa que segura o album(claro isso é da minha cabeça,não há uma cena que Don Corleone diga isso,ou tente explicar essa cena) pode muito bem ser Don Corleone,pensando:"Minha familia não é uma árvore infrutífera,um fruto dela se saiu bem".

Algo que conforme assistimos o filme não se concretiza. Pois Michael se envolve com os negócios da familia,a ponto de virar o novo Don Corleone. E não é surpresa a expressão de desapontamento de Marlon Brando quando,deitado na cama é informado que Michael cometeu um assassinato.

O Poderoso Chefão também é lembrado pelas atuações do elenco. O maior destaque do 1o filme fica pra Marlon Brando. Todos os outros atores são excelentes,todos estão num desepenho muito acima da média,mas nas cenas em que Marlon Brando aparece ele domina. Veja a cena aonde ele revela o que ele queria para Michael,ao invés de um chefe da máfia. E como que ele tenta ajudar ele,dizendo que ele deve fazer alguma coisa(eu não lembro),e Michael replica dizendo:"Pai eu já fiz isso". E Vito se consente,e percebe que agora ele não é mais o padrinho(O Poderoso Chefão pros extremsitas que gostam da tradução),ele foi ultrapassado pelo seu filho. E o seu desapontamento não é por inveja,mas por tristeza,por ver que seu filho irá aos poucos perder a alma.

Outra grande atuação do filme,o outro destaque é Al Pacino. Que muda a forma de agir ao longo do filme,conforme ele vai se envolvendo cada vez mais com os negócios da familia. Compare o Michael da festa do inicio do filme com o Michael do final. São praticamente homens diferentes. A cena que mostra o Michael mudado por completo,o novo padrinho é a cena aonde ele interroga seu cunhado Carlo pelo assassinato de seu irmão Sonny. Note como que a fotografia do filme,escurece o um lado do rosto de Al Pacino,e só mostra o lado em que Michael recebeu o soco. O lado deformado,ferido,transformado. O lado ruim de Michael está a tona. O lado bom,não existe mais.


























O Poderoso Chefão é o equivalente do anel de O Senhor dos Aneis para o cinema,é o filme para a todos adorarem. Sinceramente se você conhecer alguém que tenha assistido ao filme,e não tenha gostado,desconfie muito dela. Não é necessário cortar relações,mas não a julgue tão inteligente assim.

O filme é marcado por cenas inesqueciveis. São tantas,que nem se eu quiser eu conseguirei lista-las aqui. A famosa cena da tentativa de assassinato de Don Corleone,o batismo do afilhado de Michael/assassinato de chefes das familias rivais,a briga entre Connie e seu marido,a cena em que Michael cuida de seu pai no hospital,a cena em que Michael começa a perder sua alma.

Por mais que eu não queira eu terei que comentar certas partes técnicas do filme(eu acabei comentando sem perceber da fotografia algumas linhas acima). Veja a cena inicial:Há um longo zoom em Bonasera,e depois a câmera se afasta revelando o Padrinho. O mesmo movimento de câmera é usado quando Michael começa a resolver o problema de seus irmãos,querendo decidir como matar Sollozo. Essa cena mostra que Michael não só está perdendo sua alma e virando outra pessoa,mas que também ele será o novo Godfather,padrinho,poderoso chefão.




Outra cena que mostra um pouco o futuro dos personagens é a cena aonde Michael vai convencendo Kay a se casar com ele. Enquanto eles caminham um carro anda devagar atrás deles. E quando Michael termina seus dizeres. Ele pega na mão de Kay que não responde nada,e a leva pra dentro do carro. Sem que ela hesite. Essa cena mostra bem como que Kay por mais que saiba os segredos da familia,não age. Por amar seu marido,ou por medo dele. Essa cena também tem uma ligação muito próxima com a cena que encerra o filme,aonde a porta para a sala de Michael é fechada para Kay. Aquele mundo ela não pode entrar,as portas estão fechadas para o Michael de antes.

O Poderoso Chefão é sem dúvida alguma um dos meus 5 filmes favoritos,um dos filmes mais importantes da história ,o filme mais comentado,imitado e reverenciado do cinema. E fica a dúvida:É o melhor filme de todos? Quando paramos para pensar dias após vermos o filme nós ficamos em dúvida,mas ao assistirmos não temos dúvida da resposta. Quase como uma oferta que não podemos recusar.
Nota:10