segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Crítica: A Invenção de Hugo Cabret (Doki Edition)




Obs: Foi feita uma crítica desse filme pelo dono do blog, que tem uma opinião diferente da minha, mas ambas foram postadas para incentivar debates saudáveis e para que os leitores vejam pontos divergentes. Para ler a crítica dele, scrolle para baixo ou clique aqui caso esteja com preguiça)

A Invenção de Hugo Cabret é a mais nova obra do excelentíssimo diretor Martin Scorsese, responsável por filmes sempre maravilhosos e sempre cultuados. Ou melhor,
quase sempre responsável por filmes maravilhosos e sempre cultuados, afinal, o que vemos aqui é um filme que, por um lado, apaixona e cativa qualquer cinéfilo verdadeiro; E, por outro, frustra e falha por ter uma narrativa irregular e diversos elementos dispensáveis.

Baseado no livro de Brian Selznick, temos aqui a história de um menino chamado Hugo Cabret (Asa Butterfield), que vive em túneis dentro das paredes de uma imensa estação de trem em uma Paris dos anos 30 para manter os relógios da mesma funcionando, e, solitário, fica apenas observando a cidade, as pessoas que passam e ocasionalmente furta peças mecânicas na loja de Papa George (Ben Kingsley) para consertar - sem muito sucesso - um autômato (uma espécie de robô designado para escrever e desenhar) achado anos antes pelo seu agora falecido pai (Jude Law), dedicando-se a manter viva a memória dele, sem saber que isso o colocaria em meio à história do ilusionista e lendário cineasta Georges Méliès - que existiu de fato entre 1861 e 1938 e foi responsável pela obra Viagem à Lua, conhecida por qualquer cinéfilo mais dedicado.


Tais homenagens à origem do Cinema e a diretores icônicos é encantadora e apaixonada. Martin Scorsese aqui dirige uma declaração de amor à sétima arte, e, também amando-a, foi impossível não me deixar comover e contagiar por tal amor comum. Usando planos que são semelhantes à luz de um projetor para iniciar os flashbacks do protagonista e expondo trechos de obras como A Chegada do Trem na Estação (o primeiro exemplo de cinema que o mundo conheceu), A Caixa de Pandora, O Grande Roubo do Trem e outros em contextos emocionados e apaixonados que presenteiam àqueles que são familiarizados com essa época do cinema e que ao mesmo tempo introduz tudo aquilo a quem não sabe. Tudo isso é brilhantemente construído pela maravilhosa direção de arte, que faz com que o filme tenha um tom de fábula, com uma maquiagem que suaviza os traços das personagens; E também muito pode ser dito da fotografia, que mantém sempre tudo colorido, lindo e tudo o que faria qualquer pessoa se encantar com uma paisagem. Em 3D, os reflexos e a iluminação se tornam ainda mais marcantes e com certeza pode ser comparado a Avatar em relação ao bom-uso da tecnologia.

Infelizmente, existe o outro lado que citei no começo da crítica. Por mais que os personagens principais sejam sim marcantes e cativantes - com destaque à vívida enteada de Papa Georges, Isabelle, vivida pela excelente Chloe Moretz e ao sempre competende Ben Kingsley, que por meio de gestos sutis passa a frustração e a saudade do passado do seu personagem - a maioria dos coadjuvantes é simplesmente desnecessária no contexto do filme e serve somente para fazer o filme ficar mais longo e, às vezes, oferecer algumas piadinhas.

Não me refiro ao Inspetor vivido por Sacha Baron Cohen, que é importante na narrativa como uma ameaça que leva crianças orfãs (como Hugo) sem delicadeza ao orfanato - e seu interesse romântico na florista Lisette (Emily Mortimer) serve como uma tentativa bem-vinda de humanizar o personagem e evitar que ele se transforme em uma caricatura. Porém, algumas dessas side-stories recebem uma importância indevida, como o romance do casal de velhinhos, que toma tempo excessivo e não é nada mais que uma desculpa para que sejam feitas piadas sem inspiração.


E por isso, pode-se dizer que Hugo Cabret tem uma narrativa completamente desigual e descompassada, que muda de velocidade irregularmente, chegando até a parar em partes apenas para que apareçam cenas com simbolismos deslocados, previsíveis e bobos, como os sonhos do protagonista nos quais ele provoca a destruição da estação e no outro, esteja virando um autômato. Apesar de que possam ser feitas associações entre a máquina quebrada, ele e George Méliès - o fato deles terem perdido seu propósito em um mundo que gira na base de engrenagens - pessoas - e etc. O que, apesar de ser tocante, é prejudicado pela narrativa.

O resultado é um filme frustrante que não faz jus ao diretor Scorsese. E mesmo que sua declaração pelo Cinema seja tocante, é uma pena que todo o resto não contribua. E, como se não bastasse, as crianças e aqueles que não são cinéfilos provavelmente vão achar o filme muito chato, sem poder usufruir de sua melhor qualidade. Por isso, se você não for cinéfilo, diminua dois pontos da nota.

Nota: 6,0/10