domingo, 5 de fevereiro de 2012

Crítica: Gantz (2011)

Sou muito fã do mangá Gantz (escrito por Hiroya Oku), a ponto de considerá-lo um dos meus favoritos. Acho a obra simplesmente genial, um seinen de qualidade, com bastante ação e violência, mas acima de tudo por sua atmosfera de constante psicose e perturbação, por seus personagens realistas, humanos e pelas relações absurdamente bem-construídas, e, por extensão, ótimas partes dramáticas (o que aumentou também minha decepção ao assistir o anime de 26 episódios da Studio Gonzo, que não faz juz algum ao material de origem).

Ao ficar sabendo que esse mangá ia ter uma adaptação em live-action (com atores de verdade) já fiquei desconfiado de início, afinal não temos um histórico de adaptações de mangás que nos deixe tranquilos nessas situações (vide o horrível Dragonball Evolution), mas então ví que o filme ia ser japonês, e já fiquei um pouco mais tranquilo (vide o ótimo Battle Royale), mas ainda meio tenso. Não ví muitos trailers a respeito, então quando decidí assistir, lancei a sorte. Literalmente, porque assistí com uma horrível dublagem americana. Horrível MESMO.

Mas o que tive foi uma agradável surpresa. Gantz, assim como o mangá, conta a história de Kei Kurono (Kazunari Ninomiya), um adolescente normal, com os hormônios à flor da pele e entediado da vida, que, em um dia normal no metrô, percebe que um bêbado caiu nos trilhos. Inexpressivo, apenas observando o que iria acontecer, percebe que alguém vai tentar ajudar o pobre coitado. Esse alguém é Katou Masaru (Kenichi Matsuyama), que já havia sido amigo de Kei quando eram crianças. Ao tentar ajudá-lo a ajudar o bêbado, acaba, junto com seu ex-colega, sendo atropelado pelo trem, e, de repente, percebe que os dois se encontram em um apartamento com pessoas aleatórias que também, há segundos atrás, estavam morrendo. Nesse quarto, além das pessoas, há uma grande esfera negra chamada Gantz. Nela, aparece escrito que agora eles deveriam realizar uma missão: Derrotar um alien usando uma roupa que lhes dá super força, agilidade e capacidades sobre-humanas e armas-laser. A cada missão concluída, os sobreviventes vão ganhando pontos de acordo com o desempenho. Ao juntar 100 pontos, a pessoa pode escolher entre ter sua memória apagada referentea tudo relacionado ao Gantz e às missões, reviver alguém que foi morto em uma das missões ou escolher uma arma mais efetiva (essa última opção aparece somente no mangá, no filme não.)


Na parte técnica, Gantz sucede em todos os aspectos. A fotografia é impecável, assim como a direção de arte e os efeitos especiais, que se revelam MUITO acima da média dos filmes japoneses gerais, que geralmente não envolvem muito dinheiro e, por melhores que sejam, acabam sendo tecnicamente fracos. Além de que, o diretor Shinsuke Sato apresenta aqui uma grande imaginação referente ao design das criaturas e demonstra-se bastante criativo, o que é um ponto alto do filme. É impressionante o design, por exemplo, do Alien Tanaka na 2ª missão, que causa estranhesa e ao mesmo tempo é cômico, medonho e perturbador. Sendo o primeiro filme que vejo do diretor, já tenho uma ótima primeira impressão dele.

Sua capacidade de causar suspense também é impressionante. Em várias cenas o filme fica tenso e causa uma sensação intencional de desconforto. E ele consegue fazer isso com um simples plano fechado na face estática de uma estátua, ou com um longo plano em um ambiente escuro, o que reforça o fato de Shinsuke Sato ser um ótimo diretor. E as cenas de alívio cômico são colocadas de forma impecável, de forma natural e rápida, soando como simples gags em meio à tensão da história toda. É simplesmente impressionante.

O problema do filme é o roteiro, que acaba se esforçando demais para condensar a história do mangá no filme, ainda que esse não é o único e terão ainda sequências, visto que esse primeiro só mostra as três primeiras missões. Tentando condensar a história, acaba excluindo vários elementos fascinantes do material de origem e acaba fazendo inversões e acaba apresentando de forma excessivamente rápida e ‘sem sal’ alguns elementos que apareceriam apenas bem pra frente, de formas que encaixam bem no enredo, no contexto e no desenvolvimento da história. Por consequência disso, acabam ficando pra trás grandes características psicológicas dos personagens (como a constante tara de Kurono, sua relação com algumas personagens marcantes – que acabam ficando menos marcantes – e a origem e as motivações de sua habilidade como ‘jogador’). Assim, também diminuindo o peso de várias cenas importantes e fazendo com que a história deixe de ser tão emocionante, perdendo assim graaaande parte da magia do mangá.

Como se não bastasse, as inversões e as mudanças anteriormente citadas tomam uma proporção absurda à medida que o filme caminha para o fim. Cada vez mais as mudanças vão se acumulando e quando o filme acaba, parece que você viu um filme completamente diferente do que o mangá era. Eu, que lí o mangá, não tenho idéia agora de como a história vai prosseguir. Ao final da última missão, a coisa já tá muito diferente, e a margem que é deixada para a continuação é COMPLETAMENTE fora do material de origem, o que me deixou com uma sensação de “AI CARALHO NUM TÔ ENTENDENDO MAIS NADA”. O que, de certa forma, me deixa curioso, pois a história toma um rumo completamente imprevisível.

Mesmo com os defeitos anteriormente citados, nada faz com que Gantz seja um filme ruim. Ele consegue prender o espectador e deixá-lo entretido e curioso pelo o que vai acontecer. Obviamente, quem nunca leu o mangá não vai estranhar tanto as mudanças e pode se divertir melhor. Mas de qualquer forma, é uma ótima surpresa. Vale a pena ser visto, mas faça um favor a sí mesmo e espere a versão com o áudio original japonês sair. Quando digo que a dublagem americana é nojenta, ela realmente é NOJENTA e acaba tirando a magia de muitas e muitas cenas, e incomoda o filme inteiro.

Nota: 7,0

“Imagina que você vê alguém que tá quase morrendo. O que você ia pensar? ‘Ai, temos que ajudá-lo!’ Pára, isso é papinho, isso é mentira! Sabe o que você ia pensar? ‘Eu acho que eu vou ver alguém morrendo hoje’, é isso o que você ia pensar.” – Propaganda do anime de Gantz do finado canal Animax.

Crítica originalmente postada no finado blog Doki & The Movies