quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Crítica:O Lutador













































O Lutador abre com várias imagens e posters antigos, com datas de lutas do lutador Randy "The Ram"(nome que é chamado no ringue). Ressaltando toda a glória que ele obteve naqueles tempos (anos 80 provavelmente). Subitamente, ouvimos uma respiração pesada. E nos deparamos com Randy sentado de costas. Ao seu redor desenhos de crianças ,brinquedos no chão. Ele não está num vestiário oficial, mas sim num vestiario de um ringue improvisado. Em uma creche. Os tempos são outros, e glória não é exatamente o que Randy tem no momento.

Nós o acompanhamos de costas, a multidão o chama. Nós não vemos os seu rosto. O acompanhamos assim até o ringue,aonde finalmente é revelada sua face.Quem o interpreta é Mickey Rourke. Ator que foi galã nos anos 80, mas que agora após drogas, e botox está irreconhecivel.Impressionar o espectador, e mostrar as semelhanças da a vida de Mickey com a de Randy, é o objetivo de Darren Aronofsky.

Randy não se sustenta só lutando, também trabalha dias de semana num mercado, carregando coisas. Ganha muito pouco, e mal consegue se sustentar. Não são raras as vezes que não consegue pagar o aluguel do seu trailer, e tem que dormir no carro.

Mas mesmo assim, ele continua lutando. Pois, quando está no ringue brilha. A multidão o idolatra, o considera um herói. Todos querem cumprimenta-lo quando chega no ringue. Enquanto que, na vida real é solitário e seu chefe no mercado por exemplo, não o considera nada e o zoa constantemente. Ele tem uma filha, que o odeia. Enquanto que nos bastidores da luta, todos os lutadores o admiram e respeitam. Quase como um mentor. A única familia que ele tem está ali.




















Ele tem uma amiga, provavelmente a sua única, uma stripper cujo nome é Pam. Mas que, a noite se chama Cassidy. Uma mulher com quem tem certas semelhanças. Ambos já passaram por dificuldades, ambos tem uma vida a noite com um nome falso.

Ele vai vivendo essa vida, até que tem um ataque cardiaco. Consegue se recuperar, mas recebe um alerta:Ou ele para de lutar, ou seu corpo não aguentará e morrerá.

Assim, Randy tenta uma chance de uma nova vida. Tentar voltar a falar com sua filha, talvez algo a mais com Cassidy, arrumar uma função mais estavel no mercado que pegue os fins de semana (em que ele geralmente lutaria).
Essa redenção, que Randy quer tanto é o que Darren Aronofsky quer nos mostrar. Num filme absurdamente brilhante.







Aronofsky muda um pouco aqui no seu jeito de filmar, tentando algo mais caseiro. Para ressaltar a vida dura que Randy leva. Mesmo assim, há espaços para algumas sutilezas. Como por exemplo:Note que na maioria das vezes, a camera acompanha Randy de costas. Justamente como quando o acompanha ao ir pro ringue. Porém, em um momento em que está tentando se redimir, a camera o acompanha de frente (a cena em que caminha com sua filha). Porém,ao ir pro telefone, ao ir pro carro o acompanhamos de costas. Só ressaltando um fato simples:Randy é um lutador. Ele queira ou não. O ambiente com os lutadores mais jovens, o empresário, e a plateia, ali é onde ele mais brilha. Aquele é seu lugar.



Ele até tenta se adequar a vida normal. Como na cena aonde, começa a atender um balcão de frios. Servindo senhoras, e madames. Antes de ele entrar ele está vestindo a roupa exigida da profissão(a toquinha pro cabelo, as luvas, o avental), e sai em direção ao balcão. A camera o acompanha de costas. Ele para diante da entrada pro balcão de frios. Ouvimos então, barulhos da multidão clamando pelo seu nome de lutador, ele se sacode um pouco e entra enfim. Percebe? Mesmo inconscientemente, ele não consegue se separar do ringue. Nasceu pra aquilo.

Mesmo assim, tenta seguir nessa profissão nova ,conforme vai passando o dia vai se acostumando, vai brincando com as clientes, se sente a vontade lá. Está animado por poder se adequar a outro lugar senão ao ringue.


A produção tem muitos destaques. A direção soberba de Darren Aronofsky que eu já comentei, as atuações de Mickey Rourke e Marisa Tomei e o roteiro de Robert Siegel. Mas comecemos pelas atuações. Mickey Rourke merecia o Oscar naquele ano.

O ator faz um personagem incrivel. Que se tem uma trajetória que mescla com sua vida real (pra quem não sabe Rourke lutou por alguns anos,aonde apanhou muito). O personagem alem psicologicamente complexo, ainda é um desafio fisico pra qualquer ator. Todas as cenas de luta, foram feitas pelo próprio Mickey Rourke. Todos os saltos, os socos, chutes foi ele que deu. E todas as cabeçadas, porradas na cabeça, chutes, marteladas, pregadas ele também levou.

Marisa Tomei faz um papel igualmente dificil. Muito parecido com ele (é uma mulher com corpo escultural, mas é vista por vários clientes como velha), e igualmente competente. Alem de é claro, ser um papel de exigir fisicamente tambem, afinal a atriz em varios momentos está nua, e em vários momentos tem que dançar.




























Robert Siegel fez um roteiro incrivel. Conseguindo alem de estabelecer uma relação entre o personagem e o ator, conseguiu estabelecer uma relação entre as trajetórias dos personagens de Mickey Rourke e Marisa Tomei. Eu peço desculpas, mas eu terei que mencionar o final do filme por isso, pule o próximo paragrafo ou se já viu o filme me acompanhe.

Os personagens dos atores ao fim tem que tomar uma decisão:Escolher entre a vida que levam a noite, ou a vida real. No caso de Randy num caso mais extremo. Mas é interessante que a decisão final dos personagens, são muito diferentes, mas o modo que eles a tomam é muito similar. Randy após perder sua última chance de reconciliação com sua filha, ainda tenta trabalhar no balcão de frios .Mas ele não aguenta. Ele não consegue mais aguentar a dura vida real. A decisão pra ele fica cada vez mais óbvia. Vida real, aonde só se ferra ,ou lutador aonde será um heroi. Assim,quando um cliente o reconhece, a fera dentro dele clama, Randy sabe o que fazer. Se corta de proposito numa máquina, arranca seu crachá (aonde está escrito Robin seu nome real) e sai.

Simbolicamente seu último resquicio do Robin, do seu verdadeiro eu, morreu ali. Já Cassidy ,em determinado momento, desiste da carreira de stripper. E sai do bar, ao ouvir seu chefe chamando ela de volta com o nome Cassidy, ela fala "Pam". Ela assume seu verdadeiro eu. Diferente de Randy.







Afinal, O Lutador é um filme pesado. Não só pela violência das lutas, mas pela própria história em si. É uma história muito dura, a de Randy "The Ram" Robinson. Um filme triste, na realidade. O seu arrebatador final então, subliminarmente também.

O Lutador tem um final arrebatador. Um pouco similar ao final de Cisne Negro(o que não diminui o crédito de nenhum dos dois filmes). Como disse Aronofsky,são filmes irmãos. Mas,o impacto que O Lutador tem, mesmo Cisne Negro tendo mais cenas em que se tenha prestar mais atenção pra tirar conclusões como as que eu tirei em O Lutador, é muito grande. Não me atrevo a dizer que é maior que Cisne Negro. Mas mesmo assim, como diria a personagem de Natalie Portman "Eu o senti".
Nota:10