terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Crítica:O Espião Que Sabia Demais



































É curioso que o público atual que vai ao cinema, tem a necessidade de querer mastigado nos mínimos detalhes os roteiros de filmes. Não gosto de soar como se  estivesse menosprezando essas pessoas, mas é um absurdo ver pessoas saindo no meio de uma sessão, pelo fato de acharem um filme muito lento. Infelizmente, isso anda acontecendo com filmes como A Árvore da Vida, e agora com O Espião Que Sabia Demais. Ambos filmes mais lentos e que não seguem a mania de filmes blockbusters de explicar tudo que surge em tela.

O Espião Que Sabia Demais deve sofrer mais com o público brasileiro, pela expectativa que as pessoas tem ao ler no titulo a palavra "espião".  Quando pensamos em filmes de espionagem lembramos sempre de James Bond. Martinis, Aston Martin, Sean Connery inclusos no pacote. Alguns irão se lembrar de filmes mais diferentes, como a excelente trilogia Bourne (que ainda deve ao agente 007). O público que esperar um filme de ação como os citados a pouco, irá se frustrar. Pois O Espião Que Sabia Demais é um filme muito mais elegante e sutil do que o público está acostumado a ver. 



























O filme é dirigido por Tomas Alfredson,o diretor do excelente filme sueco Deixe Ela Entrar. Em O Espião Que Sabia Demais o diretor consegue um trabalho mais eficiente e superior nos aspectos técnicos. Note por exemplo como que a mixagem de som  é bem feita. Em determinado momento o personagem Haydon (Colin Firth) entra no escritório com uma bicicleta, e brinca apertando o sininho da bicicleta. Na última vez que Haydon pressiona o sino, há um corte aonde o som do sino vira o som de um telefone tocando.

Interessante também perceber como que pequenas ações dos personagens representam o que estes irão desempenhas na narrativa posteriormente. Como no inicio do filme, aonde George Smiley (Gary Oldman) troca seus óculos. Numa metáfora de que o personagem precisará enxergar melhor, para que consiga descobrir quem é o agente infiltrado no Circus.

Há também muitas cenas que sugerem muito da personalidade dos personagens, como na cena aonde uma abelha entra dentro de um carro cheio de espiões. Os dois personagens que estão no banco da frente tentam tirar a abelha agitadamente, batendo com os braços e falhando miseravelmente. Quando a abelha chega perto de Smiley, este a observa e lentamente abre a janela. Conseguindo cumprir seu objetivo no momento. Eficiência e calma ditam as ações do personagem. Isso sem uma linha de diálogo.


























Se o filme já chama atenção pela sutileza, também consegue atrair olhares pelo fantástico elenco. Grandes atores como Colin Firth, Benedict Cumberbatch, William Hurt, Toby Jones, Mark Strong nos presenteiam com atuações excelentes. Porém, a melhor atuação é do grande Gary Oldman (desde sempre entregando uma atuação interessante). Que consegue tornar Smiley um dos personagens mais incríveis do cinema de 2011. Existem os que dizem que sua atuação é fria, e sem emoção. Mas essas pessoas não percebem que Smiley é o perfeito espião. Calma, paciência e discrição (a incrível habilidade de não chamar atenção) são as armas do veterano súdito da Rainha.

A tal frieza que as pessoas estão reclamando tanto vem pelo fato da platéia não  estar acostumada com um personagem como Smiley. A começar pelo fato dele nunca mudar sua expressão facial (note que no momento que ele ameaça outro homem com uma pistola, sua face é exatamente a mesma de quando estava relaxando tomando brandy), e pelo público não conseguir acreditar que um homem como aquele (aparentemente inofensivo) possa fazer tanto barulho.

Deve ser um desafio para Oldman interpretar Smiley, afinal sendo um ator com uma atuação extremamente emocional (quem não se lembra do policial de O Profissional?), interpretar um personagem que não pode exibir emoções chega a ser poético para a carreira do ator.























É interessante também notar o período que se passa o filme. A Guerra Fria foi uma época aonde todos estavam com medo de iniciar uma guerra. Todos estavam com ânsia de matar. Justamente como para um dos personagens do filme, que tem que escolher entre matar ou ser desligado. Essa ansia não existe para alguns espiões, por isso é interessante perceber porque aquele personagem não exercia a profissão de agente.


Ao final de O Espião Que Sabia Demais, fica-se a agradavel sensação de ter visto o bom cinema clássico, mencionado na crítica de O Discurso do Rei. Porém, aqui de forma muito melhor do que apresentado no filme de Tom Hooper. É muito bom ver que o cinema clássico ainda é utilizado por alguns diretores.

É uma pena que o público de hoje não esteja acostumado, ou não tenha tanta paciência pra esse tipo de filme. Pras pessoas que tem, O Espião Que Sabia Demais é a maior recomendação do cinema de 2011. Não importa se ganhará algum Oscar ou não. É um filme brilhante.

Nota: 10