segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Critica: Millennium Os Homens Que Nao Amavam as Mulheres


Quando Hollywood faz um remake de um filme lançado há pouco tempo, logo o novo diretor tenta se justificar dizendo "Eu quero dar a minha visão sobre a história". Quando na grande maioria dos casos, era um trabalho que foi aceito somente pra fazer dinheiro. E também, em nenhum desses casos a visão do diretor valia a pena ser mostrada. No caso de Millennium, remake de um filme sueco, baseado na obra de Stieg Larson, o diretor é ninguém menos que David Fincher. Diretor de algumas obras-primas como Clube da Luta, Zodiaco e Seven. E tal como Scorsese em Os Infiltrados, nesse caso a visão do diretor é muito bem vinda.

Comecemos do início: é interessante ver  que a abertura do filme serve como porta de entrada a mente de Lisbeth Salander (Rooney Mara). A abertura tem como tema musical, uma versão da Immigrant Song do Led Zeppelin. Só que interpretada por um Karen O.

O cover de Karen O tem como elemento marcante, gritos femininos. Gritos que ao meu ver, podem ser tanto de dor, quanto de prazer. Tudo isso define bem o personagem de Lisbeth.
É uma mulher que vive entre esses dois extremos. A dor, e o prazer. Uma frase (que não lembro onde eu ouvi) define bem isso: "Sem dor, não há prazer". Isso fica bastante explicito, onde em determinada cena após Lisbeth ter sentido uma dor absurda, ela tem sua vingança e obtêm um prazer absurdo. Exatamente como um orgasmo.

Ao meu ver, essa abertura é a chave pra cabeça de Lisbeth Salander. Além dos gritos de dor e prazer, aparecem cordas, couro, um liquido semelhante a petróleo, e mãos agarrando Lisbeth. Ao longo do filme, percebemos cada vez mais o quão reveladora essa abertura é sobre a natureza de Lisbeth.

O filme é uma produção bastante primorosa. Fotografia excelente, aonde tudo é muito frio, nada chama atenção. Uma fotografia bastante semelhante a de A Rede Social. Porém, ao invés de destacar as cores do Facebook, aqui há uma inversão com cores frias. Perca como que nas cenas que se passam no presente são bem frias, enquanto que as cenas do passado (os flashbacks de Harriet) são cores bastante vivas. Como se viessem de uma época feliz, e alegre. Quando na realidade, o mundo sempre foi o mesmo. Porém como sempre, a tendencia humana é glamorizar o que passou e condenar o presente.

























Vale dizer também que a direção de David Fincher continua eficiente. Ele simplesmente faz cenasmagnificas de se assistir. Buscando ângulos que consigam passar pra plateia o que o personagem em tela está passando. Além de fazer questão de incluir cenas que dizem muito sobre os personagens, porém sem o auxílio do roteiro para faze-lo. Com um par de cenas percebemos que Mikael tem medo de viajar de avião (e portanto bebe para suportar o período). Porém, em outro voo vemos o personagem acolhido dentro do avião por justamente não ter a opção de bebidas alcoolicas na viagem.

Ou então, algo característico dos filmes de Fincher. O ambiente sempre mostra um pouco do personagem. Um lugar muito organizado, pode mostrar um lado mal do personagem. Ou então uma casa bagunçada (como a de Lisbeth) mostra que ela está pouco se f****** pra tudo.


Eficiente também é a trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross. Que já haviam trabalhado com Fincher em A Rede Social. Aqui fazendo músicas que conseguem nos deixar completamente exaustos, como os personagens. Não há aqui um tema tão marcante como em A Rede Social, mas mesmo assim, é uma trilha sonora melhor.

Ao misturar uma percussão, com rock, e elementos clássicos, a trilha sonora é no minimo memorável. Uma das melhores desde Seven.

Além de também contribuir sobre detalhes dos personagens. Como por exemplo, quando o psicopata finalmente se revela na sua sala de tortura e aperta um botão no radio para ouvir música. A escolhida é Sail Away de Enya. Estamos falando de um psicopata. E ele ouve um gênero de música relaxante. Mostra que mesmo nos lugares mais inocentes,  pode ser achado um mal absurdo. Enquanto que Lisbeth é o contrário. Numa mulher aonde tudo indica que ela é uma pessoa má, vemos um poço de bondade.




























O elenco todo está muito competente. Daniel Craig faz um trabalho fantástico como Mikael. Ao invés de um capanga violento (Estrada Para Perdição), um bandido charmoso (Nem Tudo é O que Parece) ou então o agente James Bond, aqui ele faz um cara comum. Ainda utilizando seus toques de ator (o jeito com que mexe o óculos).

Ainda há grandes interpretações de Christopher Plummer, Stellan Skargard. Mas quem chama a atenção mesmo é Rooney Mara. A atriz faz uma personagem incrível. Complexa, misteriosa e extremamente complicada Lisbeth sempre tenta não chamar a atenção (o que é irônico devido a sua aparência, que certamente se destaca na multidão). Note como ela não olha diretamente quando fala com pessoas com quem não se importa. Ou então como que  fala pouco, mas mesmo assim o pouco que fala mostra que não tem papas na língua.



























É interessante perceber também que Lisbeth é uma personagem que não liga a minima pra sociedade. Seria uma amante perfeita para Tyler Durden de Clube da Luta. Mas mesmo assim, há pessoas com quem se importa (seu tutor por exemplo, note como o tom de voz dela fica mais amigável quando fala com este). Rooney Mara interpreta muito bem, e merecia o Oscar de melhor atriz coadjuvante (apesar de ela ser a verdadeira protagonista do filme). Tanto que acho mais adequado o titulo em inglês do filme (The Girl with the Dragon Tatoo).

A Lisbeth de Rooney Mara é uma mistura de dor, prazer, medo, insegurança, raiva e decepção.

O único problema de Millennium é que se comparado com os outros filmes de Fincher, é inferior. Como adaptação é um filme fantástico. Porém ao vermos quem é o diretor, fica-se a impressão de que Fincher poderia fazer mais. O que não diminui o quão bom é Millennium. Que ao contrário do que as pessoas diziam não é nada Hollywoodiano. É simplesmente um filme americano, rodado na suecia sobre a ótica de David Fincher. E isso já é motivo pra se assistir ao filme.

Nota: 9.5