sábado, 28 de janeiro de 2012

Crítica: 2 Coelhos


É interessante escrever sobre um filme como 2 Coelhos, já que é um projeto absurdamente ambicioso e até revolucionário para o cinema nacional, já que podem ser vistos aqui efeitos de câmera, fotografia e estilo típico de um filme Hollywoodiano. Pra ser mais exato, um filme de Guy Ritchie.

Mas comecemos do princípio (e farei o possível para não dar spoilers, o que é complicado, portanto, perdoem a falta de informações quanto ao enredo). 2 Coelhos, primeiro longa de Afonso Poyart, conta a história de Edgar (Fernando Alves Pinto), um homem amargurado que sofre de uma crise existencial, já que tudo o que faz da vida é jogar videogame, se masturbar e causar sofrimento às pessoas. Então, ele decide realizar um plano frio e metódico para fazer com que políticos corruptos e criminosos grandes se colidirem, utilizando-se de diversas pessoas (ou melhor: peças) e de apetrechos eletrônicos.



O filme já exibe uma energia contagiante desde o primeiro minuto de projeção, com uma narração em voice-over do protagonista que soa orgânica, divertida, enquanto uma montagem rápida e colorida nos introduz ao universo de 2 Coelhos de uma forma nunca antes vista no cinema brasileiro. Utilizando-se de cenas em jogos de videogame, colagens rápidas, coloridas e até às vezes remetendo ao estilo mockumentary de maneira divertida e eficaz.

Porém, quando digo que o que vemos aqui é inédito no cinema brasileiro, eu realmente digo que não é nada que já não tenhamos visto em filmes Hollywoodianos. É impossível assistir ao filme e não lembrar dos filmes de Guy Ritchie (principalmente Snatch - Porcos e Diamantes e Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes). A narrativa multifacetada, com diversos núcleos e na qual as coisas vão acontecendo e depois o tempo volta para que o que acabou de acontecer seja devidamente explicado. E isso não é um ponto negativo, com a exceção de partes em que a ação é interrompida para que as explicações sejam feitas, o que acaba quebrando o ritmo e prejudicando as sequências.

Porém, esse é o único problema de 2 Coelhos. Por mais que existam diversos núcleos e inúmeras pontas se soltando conforme o filme passa, todas elas são devidamente amarradas, com pouquíssimos furos (e os que existem de nada prejudicam a experiência). Além de que é interessante apontar a mente criativa que é o diretor/roteirista/produtor Afonso Poyart. Claramente inspirado em diversos diretores Hollywoodianos (existem sim cenas isoladas que lembram Zack Snyder e o modo no qual a câmera viaja em diversas vezes lembram a parte boa Michael Bay), também HQ's, ele não exita em colocar em seu filme de estréia tudo o que ele admirava em outras projeções. Especialmente a cena que retrata o ataque de pânico da personagem de Alessandra Negrini dentro da mente dela, que - mesmo desnecessária - é extremamente divertida, e parece ter vindo direto de Sucker Punch - Mundo Surreal.


E o elenco não fica atrás. Fernando Alves Pinto aqui mostra seu verdadeiro potencial, já que parecia limitado pelos roteiros de suas produções anteriores, como o fraquíssimo Nosso Lar, enquanto Alessandra Negrini retrata bem a ansiedade e a aflição constante da personagem, mas o verdadeiro destaque vai para Caio Ciocler, que consegue expor a amargura, a raiva e as máguas do personagem de forma exímia e muitas vezes sem nem precisar abrir a boca. Tais escolhas ajudam absurdamente na construção daquele universo, que mesmo representado de forma dinâmica e muitas vezes engraçada (humor negro, certamente), é absurdamente triste, incômodo e tenso.


Afonso Poyart arrebentou aqui em seu filme de estréia, mostrando não só que ele tem potencial, mas que o Brasil tem potencial para fazer filmes de ação de qualidade, que fogem à identidade do cinema nacional. E não me entendam mal, eu aprecio o cinema brasileiro como ele é, mas é bom saber que, acima de tudo, sabemos ser flexíveis.

E isso é algo que, até ver 2 Coelhos, eu não havia percebido.

Nota: 9,5