terça-feira, 20 de setembro de 2011

Crítica: A Árvore da Vida



























É de fato uma pena. É lamentável como, hoje em dia, o público está acostumado com a narrativa Hollywoodiana, que raramente exige da capacidade intelectual dos indíviduos e tampouco informa ou incentiva, levando inevitavelmente a uma grande e pesada pobreza de espírito.

E pobreza de espírito não combina com esse filme.

Usando uma narrativa formada por pedaços de memórias sem linearidade alguma, A Árvore da Vida conta uma história relativamente simples: Uma relação familiar, na qual o pai é um militar rígido, a mãe é dócil e os filhos que se comportam de maneiras diferentes; E os obstáculos que serão enfrentados por essa família. Sim, é simples, mas não nas mãos de Malick, que aqui se mostra o Stanley Kubrick da nova geração.

A família em questão são os O' Brien, composto pelo pai (Brad Pitt), pela mãe (Jessica Chastain) e por três filhos. O primeiro, com seu corte de cabelo militar, ensina seus filhos pelo 'método da porrada', sendo extremamente frio, às vezes agressivo e sempre tentando conquistá-los em demonstrações forçadas de afeto; Mas que inevitavelmente quer o bem deles, evitando que se torne uma caricatura, e incentivando-os a nunca desistirem dos seus sonhos e a nunca fazerem como ele. A segunda, contraposta à postura rígida do pai, simboliza o amor e o conforto, sendo sempre sensível, compreensiva, e angelical com os filhos, algo que é intensificado pela fotografia, que sempre a retrata com contornos brilhantes como se ela fosse, de fato, um anjo.


Tal postura do pai se reflete diretamente na relação com e entre as crianças, criando uma certa amargura e raiva infantis mas que são de fato humanas, mais ainda quando se forma, assim, um amor inconsciente que é tratado por meio dos ciúmes.

Toda a beleza da grama verde molhada pela manhã, das bolhas de sabão flutuando no ar e, consequentemente toda a beleza da vida que ousamos disperdiçar está em Árvore da Vida, e postos de forma impecável, excelente, que é ao mesmo tempo linda e absurdamente perturbadora e intensa. Marcado por uma trilha sonora clássica de imenso peso, os acontecimentos entram nas entranhas do espectador. Nos sentimos parte daquela família, reconhecemos os problemas, simpatizamos com eles, e é impressionante como essa obra, mesmo sem linearidade, prende e fascina mais do que as obras mais 'coesas'.




Contada também por cenas que ocorrem no imaginário e também, curiosamente, por cenas que retratam a formação do Universo. Esta que mostra o quanto somos pequenos e insignificantes, mesmo com nossos sofrimentos que parecem grandiosos e nossas relações afetivas e a nossa crença de que somos dignos de um Deus que nos olha e nos ajuda. Essa figura de Deus, que é constantemente mencionada do filme, mas que não mostra presença nem em mínimos detalhes. Curiosamente, a única imagem que remete à presença de Deus na Terra que existe no filme é um vitral que tem uma forma extremamente semelhante à de uma cadeia de DNA. Coincidência? Jamais.

É um filme complicado (até de falar sobre), lento e diferente, mas não só é uma fuga à mediocridade hollywoodiana, mas também Árvore da Vida mostra todos os pequenos momentos que deixamos passar, todas as maravilhas que não vemos, todos os gestos aos quais não damos valor, e ensina uma preciosa lição. Somos pequenos e insignificantes? Sim, porém podemos ser infinitamente maiores que nosso próprio universo. O homem, mesmo ganancioso e podre em partes, é capaz de coisas maravilhosas sem mesmo precisar da presença de Deus, que, na minha humilde opinião, não passa de uma 'muleta' para que alguns possam continuar vivendo suas vidas.

Faça um favor a sí e vá assistir a esse filme. Agora.

Nota: 10*