quinta-feira, 23 de junho de 2011

Critica:Meia-Noite em Paris


Quem nunca sonhou em viver em outra época? Nos anos 60 ou 70 na Inglaterra, com bandas como The Who, Rolling Stones ou The Clash, e podendo assistir a alguns dos melhores filmes de todos os tempos no cinema? Ou fazer parte de alguma família real na Europa no Século 18, vivendo no luxo? Woody Allen, com seus 75 anos, faz um ótimo filme tratando dessa nostalgia, que em algumas pessoas as impede de viver o presente e não se prender tanto ao passado. De quebra, Woody também homenageia todos os seus ídolos.

O começo de Meia-Noite em Paris lembra o de seu clássico Manhattan, em que são apresentadas imagens em preto-e-branco de Nova York. A diferença é que aqui as imagens são coloridas, apropriadas para fotografar a também colorida Paris. Passados esses minutos com as imagens da cidade sob uma música de jazz (ritmo habitual nos filmes de Allen), somos apresentados aos personagens. Owen Wilson é Gil Pender, uma espécie de alter-ego do diretor, que não atua mais em seus filmes como era hábito em seus filmes mais antigos. Gil, um frustrado roteirista de filmes comerciais hollywoodianos, sonha em ser escritor, e está em Paris com a noiva Inez (Rachel McAdams) e os sogros. Mas Gil não tem nada em comum com a noiva, que só pensa em móveis e joias e quer morar em Malibu, enquanto ele se encanta com Paris e sonha com uma pequena casinha na cidade.



Gil é encantado pela década de 20 na cidade, que reuniu alguns dos maiores artistas de todos os tempos, em busca de festas, bebedeiras e inspiração artística. Por isso, ele fica fascinado quando perdido à noite na cidade, entra em um carro e por algum tipo de magia, nunca explicada no filme, volta a essa década tão querida por ele e conhece, entre outros, Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, Cole Porter, Luis Buñuel e os pintores Pablo Picasso e Salvador Dalí. Essa época é muito bem representada pelo filme, e as figuras que Gil conhece são impagáveis. Hemingway é um beberrão que só fala sobre a coragem humana, caçadas e a guerra. Dalí é um maluco obcecado por rinocerontes. Picasso é um excêntrico. O detalhe é que mesmo naquela época que para Gil é perfeita, aquelas figuras não sabiam que estavam vivendo um período tão importante e também olhavam com nostalgia para épocas passadas.

Meia-Noite em Paris é um filme que flui muito bem, e um dos melhores dos mais recentes de Woody Allen. É impossível não se apaixonar por duas coisas durante a projeção: Paris e Marion Cotillard. A linda atriz francesa foi a escolha perfeita para o papel de Adriana, musa que serve de inspiração para um quadro de Picasso. Gil e ela se apaixonam, mas é óbvio que o romance não poderia dar certo. Mas suas andanças pelo passado o fazem perceber que ele precisa aprender a dar real valor para o tempo em que vive e correr atrás de seus sonhos, nesse caso, morar em Paris.


O clima de magia lembra A Rosa Púrpura do Cairo, as imagens iniciais lembram Manhattan e Marion Cotillard poderia facilmente substituir as musas anteriores de Allen, Diane Keaton e Mia Farrow. O que esse filme tem de diferente, então? Foi o primeiro filme de Woody Allen sem Woody Allen que é tão bom que eu realmente não senti a falta do diretor, que me agrada muito atuando em seus papeis de nova-iorquino neurótico. Em Meia-Noite em Paris, o papel de Gil devia mesmo ser preenchido por alguém mais jovem, e mesmo que Owen Wilson não possua o timing cômico de Allen nem seus trejeitos, não fez feio. Mas espero que em seus próximos filmes Allen faça pelo menos uma pontinha, porque é sempre um prazer vê-lo na tela.

Com algumas pitadas de humor, lindas imagens de Paris, uma trilha sonora ótima e personagens cativantes, Meia-Noite em Paris merece ser conferido na tela gigante do cinema. E só nos resta esperar que Allan Stewart Konigsberg continue fazendo filmes tão bons quanto este por muito tempo.

Nota - 9.0