segunda-feira, 2 de maio de 2011

Critica:VIPs


O grande desafio de um ator que vive um personagem que cai nas graças do grande público, tão marcante quanto o Capitão Nascimento de Tropa de Elite, é se despir deste papel em seus trabalhos sequentes. Wagner Moura tem em VIPs não apenas a chance de interpretar um personagem plural, um mosaico de personalidades, capaz de proporcionar a um bom ator a chance de exercitar sua arte, mas também de demonstrar sua versatilidade. E o faz com competência e perfeição. Não é à toa que venceu o prêmio de melhor ator no Festival do Rio 2010 (VIPs também ganhou os prêmios de melhor filme, ator coadjuvante para Jorge D'Elia e atriz coadjuvante para Gisele Fróes).

Desde jovem, Marcelo (Wagner Moura) tem dificuldades de desenvolver sua própria personalidade e se diverte imitando outras pessoas. Seu sonho é seguir a carreira de seu pai e se tornar piloto de avião. Para isso, foge da casa de sua mãe rumo a Cuiabá, mas é no Paraguai que o rapaz dará início à maior aventura de sua vida, cada vez mais se passando por pessoas diferentes e aplicando golpes, até fingir ser o filho do dono da companhia aérea Gol, em uma festa de carnaval no Recife. Mas, afinal, quem é esse cara? Bizarro, Dumont, Carrera, Renato Russo, Henrique Constantino, Juliano do PCC? Talvez nem mesmo Marcelo Nascimento da Rocha saiba.

Baseado no livro VIPs: Histórias Reais de um Mentiroso, de Mariana Caltabiano, o longa retrata as aventuras e desventuras de uma pessoa que não consegue diferenciar fantasia de realidade. Um prato cheio para psicólogos e para Wagner Moura, que se traveste física e psicologicamente a cada ponto de virada do ótimo roteiro de Bráulio Mantovani (de Tropa de Elite 1 e 2) e Thiago Dottori, para viver nas telonas os devaneios de Marcelo, seu fascínio pela aviação e o desejo de não ser ele mesmo, como se sentisse preso em seu próprio corpo.

VIPs lembra, e muito, Prenda-me se For Capaz (2002), no qual Leonardo DiCaprio interpreta o famoso golpista Frank Abagnale Jr., mas sem a presença marcante de um antagonista, vivido no filme de Spielberg por ninguém menos que Tom Hanks. Mas o fato de não ter aquela tensão protagonista vs. antagonista não desmerece o conflito de VIPs, pelo desenvolvimento ágil e cômico imprimido pela competente direção do estreante em longas-metragens Toniko Melo (da série Som e Fúria), além das excelentes atuações, com destaque para Gisele Fróes como Silvia e o argentino Jorge D'Elia como o patrão.

Embaladas pela trilha sonora do consagrado Antônio Pinto (de Abril Despedaçado), que demonstra a versatilidade do compositor, as nuances conflituais da história real do personagem (ou personagens?) de Wagner Moura, narradas em flashback, alternam entre sua infância e juventude, a visão heroica que seu pai representa os devaneios e os golpes – engraçados como a entrevista ao programa do Amaury Jr. e perigosos como o trabalho com traficantes paraguaios e a investigação da Polícia Federal Brasileira. Por isso, VIPs acaba sendo um híbrido de drama familiar, comédia, suspense e aventura.

Destaca-se do filme, inclusive, a divertida passagem em que Carrera solta os bichos interpretando Renato Russo no Paraguai. Das referências sapecadas no roteiro, a forte ligação de Marcelo com a aviação se faz presente no simples confeccionar de uma gaivota de papel, quando foi preso pela Polícia Federal ou na sua vibração durante a primeira decolagem, gritando "Tora! Tora! Tora!" numa clara alusão ao clássico de 1970 sobre o ataque de Pearl Harbor. Curiosamente, uma pequena mancada do longa está numa sequência em que o personagem diz para os amigos traficantes não entender bem o significado de um voo kamikaze. Logo ele que sabe tudo sobre o tema?

Narrativa e esteticamente, VIPs é um excelente filme e faz jus ao crescimento da produção cinematográfica brasileira. Ao mesmo tempo em que diverte, faz pensar. Mas, no fim, fica a incômoda sensação de que, não só no Brasil, mas no mundo, para ser famoso admirado ou bem sucedido não é preciso mais do que ser talentoso na "arte" da mentira (vide o histórico abuso de atos ilegais que cercam o mundo político, financeiro, imobiliário, bélico, esportivo...).

De qualquer forma, prepare-se para encarar um roteiro que explora o efeito dominó com um pouco de humor, suspense, drama e apresenta muito daquele cinema de qualidade, cujo objetivo principal é o entretenimento, mas sem deixar de lado a reflexão numa crônica social recheada de metáforas e salpicada de valores rasos típicos da sociedade brasileira. Virulento, intrigante, pertinente e sarcástico. VIPs.
Minha nota: 9,0 (Entra na minha lista dos melhores filmes nacionais)