domingo, 6 de março de 2011

Critica:Desconhecido


Desconhecido é uma trama que traz um interessante feixe da globalização: diretor espanhol, ator principal irlandês e com uma história situada na Alemanha, o filme carrega todo o tipão estadunidense, onde um herói americano precisa salvar alguém. Nesse caso, a si próprio, buscando a redenção necessária depois de todo um passado pregresso.

O início do filme é promissor ao construir o enigma desencadeador da trama. O Dr. Martin Harris (Liam Neeson) sua esposa Elizabeth (January Jones) chegam à Berlim para uma importante conferência de Biotecnologia. A caminho do hotel, o casal sofre um grave acidente e o Dr. Martin acorda após quatro dias de coma. Constatando que a sua vida está pelo avesso, e que para alguns ele na verdade nunca existiu, precisa o mais rápido possível recobrar a sua memória e descobrir o que realmente aconteceu. Um detalhe importante: algumas vidas estão em jogo, inclusive a dele e a de alguns coadjuvantes que acabam sofrendo ao cruzar o caminho deste novo desconhecido. Pelo que consta, Dr. Martin está sendo perseguido por criminosos, e o pior é que alguns transeuntes da narrativa acabam pagando por isso, mesmo que não tenham nada a ver com os problemas deste perturbado homem temporariamente sem identidade.
Alguns aspectos técnicos estão de parabéns: a fotografia consegue imprimir a gélida impressão que a história pretende nos transmitir. O primeiro plano na cena do orelhão, quando a câmera foca na aliança de ouro na mão esquerda do Dr. Martin nos reforça a ideia de que o mesmo, apesar de não saber a sua real identidade, já foi casado e por isso encontra-se angustiado por descobrir o que lhe aconteceu, inclusive a possibilidade de sua esposa estar em perigo.

O suspense inicialmente criado transfigura-se em um filme de ação com direito aos ingredientes do gênero: perseguições, fugas improváveis, correria, esconde-esconde. A opção por entregar o segredo de bandeja ao espectador e transformar a aura de mistério até então correta em um jogo de gato e rato, com cortes abruptos, montagem frenética e boas doses de mentira, é um erro crucial neste caso.
A inverossimilhança é aceitável em determinados gêneros, pois um filme bem construído narrativamente transporta o espectador para o universo fílmico e certos absurdos tornam-se boas sacadas, ou são ao menos toleráveis. Neste caso, porém, não há o que tolerar quando em determinada situação Harris, quase sedado, consegue desamarrar-se e fugir do "vilão", no hospital lotado. Na sequência seguinte, o mesmo Harris apresenta-se inteiro e saudável. Pronto para continuar nas suas investigações.
Contando com uma conclusão pífia, que escancara a salada temática do roteiro, a empatia entre espectador e personagens não é estabelecida, pois além do desinteressante progresso da trama, eles são frios e capazes de proferir frases banais, outro detalhe que ilustra a falta de inspiração do roteiro. Em determinado momento, Gina (Kruger) afirma, com espírito humanístico: "O que importa é o que você faz agora", ou, quando Harris, em uma situação tensa, mostra que não está tão ruim da memória. "Eu não esqueci tudo. Lembro-me de como matar você, idiota".

Mas o filme não é uma perda total. Toda a história de troca de identidade e redenção me deixou frustrado não pelo filme ser ruim, mas pelo fato de que, comparado à genialidade que foi a Trilogia Bourne esse filme é mais uma pancadaria norte-americana, mas para quem quer apenas um divertimento sem compromisso, alguns choques de adrenalina e não usar a cabeça para desvendar a trama, Desconhecido é o filme perfeito.
Minha nota: 7,5 (ainda vale o ingresso)