terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Critica:Unthinkable

Primeira crítica no blog e já entrei com um filme (ou melhor, O filme), que foi pra mim, ao lado de Inception e Kick-Ass (sem critica aqui ainda, Lauro -.-), o melhor do ano passado.

Unthinkable (Ameaça Terrorista, no Brasil) põe a prova os limites do que é moralmente aceitável com H. (Samuel L. Jackson) interrogando sem limites Yusuf (Michael Sheen) que ameaça mandar três cidades pelos ares.

Quais os limites da barbaridade, quando o que está em jogo são milhões de vidas?
Esta é a questão central deste thriller, que nos atinge como um soco na boca do estômago, fazendo refletir a respeito do quanto pode ser paradoxal a violência.

Uma brigada antiterrorismo do FBI e um agente das operações especiais são chamados para interrogar um muçulmano norte-americano que diz ter colocado três bombas nucleares nos Estados Unidos. Com o tempo ficando curto, um deles está disposto a ultrapassar todos os limites morais com o prisioneiro, incluindo a utilização da tortura, para conseguir salvar milhares de vidas inocentes.

Existem filmes que contam bem histórias ruins, existem filmes que contam mal boas histórias, existem filmes que contam bem boas histórias e, ainda, existem aqueles filmes que vão além, em vez de contar meras histórias, passam mensagens e nos fazem pensar. Unthinkable é um desses filmes. Em vez de nos prender pela curiosidade ou emoção, o filme nos prende pela consciência.

Não é um filme fácil de assistir, e estou certo de que a grande maioria não vai apreciar, por causa de toda a sua violência. É um filme que incomoda, embora o que incomode não sejam as sessões de tortura e sim o dilema vivido pelos personagens, em especial a Agente do FBI vivida por Carrie-Anne Moss - a eterna Trinity de Matrix - dilema que ultrapassa a tela e vem bater direto na nossa cara.
Unthinkable mostra o estado de alerta que acomete os Estados Unidos desde o incidente de onze de setembro. Mostra toda a fragilidade do país apesar dos inúmeros esforços para se manter livre de novas ameaças estrangeiras. Mas o filme não para por aí, e mostra que depois de tanta guerra, tanta ideologia, não existe mais certo ou errado, mocinhos ou bandidos, aliados ou terroristas. Todos são culpados e todos estão errados. Tudo é justificável, mas nada se justifica.

O filme mostra duas das piores manifestações da covardia do ser humano, a tortura e o terrorismo. Atos cruéis praticados contra pessoas indefesas. E ao mesmo tempo, uma questão é levantada: Há justificativa para tais atitudes? Existem situações onde tais atos são a coisa certa a se fazer? Confesso que eu não me apresso em dar uma resposta a essas questões. O ideal seria que essas questões não existissem, mas o homem é capaz de coisas terríveis.

Não deve haver sofrimento maior do que ficar preso, indefeso, nas mãos de um torturador e sofrer as piores aflições físicas que a mente humana consegue imaginar. Definitivamente a tortura não deveria existir. Mas, e se o torturado for um terrorista? Nesse caso pode? Imagine que um maluco escondeu uma bomba em algum lugar e, se explodir, matará milhares de pessoas. Seria válido torturar esse excomungado para forçá-lo a revelar o paradeiro da bomba? E se mesmo sob tortura ele se negasse a falar, qual a solução? Há algo ainda pior e mais efetivo? Deve haver, mas é algo impensável (Unthinkable captou?).
É um filme ousado, que trata de temas delicados e atuais. A produção é competente, embora não seja nada excepcional. Samuel L. Jackson está muito bem em seu papel. O filme tem a capacidade de prender a nossa atenção e nos deixar angustiados, o que é melhor que permanecer indiferente. Além disso, o final, na versão estendida, conta com uma pequena surpresa que dá um último gás e encerra a história de forma competente, em minha opinião, junto com Inception é um dos finais com a maior reviravolta da história do cinema.

Para quem não estiver preparado, o filme pode ser visto como imoral excessivamente violento e subversivo. Além disso, o filme é excessivamente americanizado e não abrange de forma consistente os dois lados em conflito, o que poderia causar um dilema ainda maior para o expectador - considerando que a intenção do filme seja nos fazer refletir.

O título original "Unthinkable" (Impensável) se encaixa como uma luva à história, principalmente no momento em que esta palavra é (muito bem) inserida no ponto alto da trama.

Bola fora dos divulgadores nacionais, com a péssima escolha do título em português (obviamente por razões comerciais), que ficou completamente fora do contexto, da ideia central do filme e do alcance pretendido pelos seus idealizadores.

Mais do que apenas mais um filme que trata de terrorismo islâmico, ele carrega uma pesada critica a política externa norte-americana.

Minha nota para esta obra-prima: 10 (11 se fosse possível).