domingo, 2 de abril de 2017

Crítica: A Vigilante do Amanhã- Ghost in the Shell



Não é de hoje que Hollywood tenta retirar lucros a partir da cultura pop oriental, desde versões norte-americanas de Godzilla até a abominável adaptação cinematográfica "Dragon Ball Evolution". Na grande maioria das vezes o resultado é sofrível. Pois além de retirarem a maioria dos elementos que tornavam o material original único, ainda tentavam tornar as histórias mais americanas (basta lembrar que na vindoura adaptação live-action de "Akira", Neo-Tokyo se chamará Neo-Manhataan, e transformarão Kaneda em Joe).

Ghost in the Shell é um dos mangás mais influentes de todos os tempos. Uma mistura de filosofia, os conceitos de Asimov, a influência noir sobre o Sci-Fi de "Blade Runner", além de uma visão incrivelmente particular de um futuro próximo. E desde a animação longa-metragem de 95, Hollywood tenta fazer uma adaptação live-action. No entanto, os roteiros de teste excluíam todos os questionamentos presentes na obra, pra simplesmente fazer uma história de uma gostosa que atira em todo mundo (pense em "Nikita" ou até na Alice de "Resident Evil"). Porém, em 2016 foi anunciado que a adaptação seria estrelada por Scarlett Johansson (o que gerou uma polêmica absurda, visto que ela é caucasiana) e que o roteiro manteria o espírito do original.

A história conta a história de Major (Scarlett Johansson), uma mulher que após um evento trágico teve apenas seu cérebro salvo. Assim, uma empresa de robótica chamada Hanka cria um corpo para que ela sirva aos interesses da Seção 9 (um departamento da polícia que cuida de terrorismo cibernético). No entanto, um hacker chamado Kuze (Michael Pitt) começa a assassinar cientistas da Hanka. Então, Major começará uma investigação que poderá culminar em descobertas sobre seu passado.



Eu fico feliz em dizer que "A Vigilante do Amanhã" é uma adaptação sucedida. Começando, por situar muito bem o universo do material original. Os enormes prédios acinzentados, a quantidade de elementos visuais que saltam das telas de outdoors (que remetem diretamente a "Blade Runner"), o design dos veículos (que seguem a lógica de Star Wars: são todos cobertos por arranhões, ferrugem, como se o futuro não fosse o paraíso que sempre presumimos ser), tudo incrivelmente fiel. Sem falar nas cenas que são reproduzidas frame a frame do desenho original: a construção de Major, a briga com o lixeiro, entre outras que não revelarei aqui.

Outro aspecto técnico digno de nota, é a trilha sonora de Clint Mansell. Que muito inteligente, optou por não fazer uma versão genérica da trilha do filme de 95. Mas sim, fazer sua própria versão. Que é mais equiparável ao que Vangelis fez com Blade Runner (eu não estou exagerando, observe os primeiros 5 minutos do filme).

No entanto, o grande destaque do filme é inserir muitos dos questionamentos presentes na obra original. A personagem de Major é muito bem interpretada por Scarlett Johansson, desde a maneira com a qual ela se movimenta (de uma maneira desajeitada e brusca, como se realmente não tivesse todo o controle e sensibilidade no seu corpo) até a maneira com a qual interage com os demais personagens (desde o princípio, fica muito claro que ela não consegue ter qualquer conexão emocional com outros seres). É quase o que Peter Weller fez com o Robocop original. E para minha surpresa, o filme faz uma leve homenagem a Major do longa de 95, que assume que este filme de 2017 é uma nova visão da personagem, mas ao mesmo tempo manteve o esqueleto da mesma. Portanto, mesmo com as mudanças de aparência, a essência da personagem mantém-se intacta.




Não só a Major de Scarlett Johansson foi fiel, mas até mesmo os personagens do elenco coadjuvante. Basta olhar Batou (Pilou Asbaek), um ciborgue que com medo de perder sua humanidade, agarra-se a pequenos elementos ordinariamente humanos (bebe cerveja constantemente, guarda ossos de carneiro para dar a cachorros abandonados na rua). Além de sua caracterização manter o espírito do original. Outro destaque na gama de personagens, é o vilão Kuze (Michael Pitt). Que além de possuir inúmeras camadas na sua personalidade (é quase como Magneto de "X-Men": suas ações são abomináveis, mas entendemos porque tomou tal partido), ainda exibe um design de produção interessante (como se fosse uma carcaça ambulante, e repare o tom de voz adotado por Michael Pitt, emulando Stephen Hawking).

Mesmo investindo muito em traduzir o espírito do original, "A Vigilante do Amanhã" tem certos vacilos. A começar por algo muito simples: a falta de violência. Tanto no filme de 95 quanto no mangá original, as ações dos agentes da Seção 9 sempre resultavam em carnificina. E isso era mostrado em detalhes, para que justamente o leitor/espectador questionasse a natureza bélica dos ciborgues/robôs. Nesta adaptação, inúmeros tiros são dados, vilões recebem golpes fortíssimos (lembrando, de robôs naturalmente mais fortes que humanos), e não há qualquer dano visto.

Outro sério problema, encontra-se em alguns dos diálogos. Com medo que o público médio não entenda parte das filosofias e questionamentos presentes na trama, muitas vezes frases como "Lembre-se, quando aceitamos nossas singularidades, elas se tornam virtudes" surgem, ao invés de simplesmente deixar que o silêncio e a contemplação digam tudo que precisa ser compreendido (além de que pelo amor de Deus: essa fala que dei de exemplo, caberia pra um personagem atormentado de Malhação, e não pra uma mulher que precisa recuperar sua humanidade).

Apesar de alguns problemas, "A Vigilante do Amanhã" é uma ótima adaptação. Respeitando o espírito da obra original, e fazendo mudanças no cânone que são extremamente pertinentes.

Nota: 8

sexta-feira, 24 de março de 2017

Crítica: Fragmentado (Split)



O diretor M. Night Shyamalan é um figura curiosa. Começou lançando filmes muito aclamados, porém vinha fazendo uma bomba atrás da outra. É quase impossível pensar que a mesma mente que concebeu "Corpo Fechado" (que é inclusive, um dos filmes favoritos de Quentin Tarantino), também fez "Fim dos Tempos" (um filme no qual um cara discute com uma samambaia, e no qual pessoas fogem do vento). 

No entanto, após "A Visita" (que não é uma maravilha, mas tem bons momentos), parece que Shyamalan percebeu os erros de sua escolhas narrativas. E podendo enfim, se libertar dessa maldição de filmes ruins com "Fragmentado". Suspense que não apenas exibe um protagonista fascinante, como ainda demonstra o talento do diretor. Além de estabelecer possibilidades interessantes para uma continuação.

O filme acompanha Kevin, (James McAvoy), que numa tarde sequestra três adolescentes. Enquanto, pensam em como escapar do seu cativeiro, as jovens percebem que seu sequestrador possui múltiplas personalidades. Sendo mais preciso, 24 personalidades.

Esse é o fiapo de história que indicarei aqui, pois a graça de "Fragmentado" é justamente ir descobrindo a verdadeira intenção do filme.




Interessante ver como que Shyamalan continua exibindo seus traços característicos: os enquadramentos nos quais coloca o rosto do ator no centro, a falta de foco nos ambientes atrás dos personagens (o que por si só, já cria uma atmosfera alta de suspense, pois deformar o cenário, subjetivamente retira a zona de conforto do espectador). Mas curiosamente, estes toque autorais nunca se encaixaram tão bem em sua filmografia quanto em "Fragmentado". Pois, é como se constantemente a câmera estivesse fazendo o mesmo que nós espectadores: atentamente buscando sinais no rosto de Kevin, para saber quem está nas rédeas de seu corpo. 

Isso só se contribui com o design de produção, já que 80% do filme se passa dentro do cativeiro criado por Kevin. Um ambiente de poucas cores, poucos objetos de cena (no entanto, mesmo os poucos presentes em cena já revelam certos detalhes sobre o personagem), e uma luz amarela constante. Assim, o espectador não tem distrações visuais, e só consegue focar no rosto do antagonista do filme.

Que por si só, é uma figura fascinante. Isso se deve não apenas pelo roteiro de Shyamalan (que ao final do filme, expõe mais da cabeça do personagem), mas pela atuação de James McAvoy. Um ator muito talentoso, que nunca havia recebido um papel no qual pudesse explorar tanto. Sua atuação não impressiona apenas pelas diferenças entre cada personalidade (compare como seus braços ficam com Dennis e Hedgwig), mas quando de fato vemos a lenta transição de uma personalidade pra outra (pequenos sinais já indicando a troca, seja uma levantada de sobrancelha ou a maneira como os lábios se cerram). Se um ator menos versátil tivesse pegado o papel, o resultado em tela seria incrivelmente pavoroso. Mas com McAvoy, mesmo nos momentos mais exagerados e grotescos das personalidades, sua atuação jamais perde verossimilhança. 


O resto do elenco é igualmente competente, tendo como outro destaque a atriz Anya Taylor-Joy. Que já havia chamado atenção no excelente "A Bruxa", e aqui faz um papel mais discreto. De uma jovem que compartilha uma característica com Kevin (não direi qual é, por motivos óbvios), e que utiliza isso em seu favor pra interagir com as 24 personalidades. E retomando a tradição da filmografia do diretor, ela é como uma personagem de um conto dos Irmãos Grimm. Uma jovem que passa por uma situação extrema, vivendo stress e tensão não condizentes com sua faixa etária. Dando a denotação de que por mais racionais que sejamos, vivemos numa selva e somos animais (não é a toa, que o diretor constantemente enfoca leões e tigres ao longo do filme. Além de flashbacks sobre o ato de caçar).

Mesmo com muitos méritos, "Fragmentado" ainda exibe uma parcela de mazelas. A personagem da Dra. Fletcher (Betty Buckley) é uma mera muleta narrativa, servindo para fornecer informações sobre o personagem e só. Além de muitas vezes, o filme parece indicar que se passou muito tempo desde o sequestro das meninas, e no entanto estas não demonstram ter qualquer sinal de tempo, seja em suas vestes, ou até no stress que estariam vivendo por estarem há semanas presas. 

Apesar disso, "Fragmentado" é um ótimo suspense. Que além de contar uma história fascinante, ainda nos surpreende com um plot twist em seus dois minutos finais, que além de garantir uma continuação ainda nos confirma: Kevin e sua Horda são apenas o começo.

Nota: 8

quinta-feira, 2 de março de 2017

Crítica: Logan



Apesar do protagonista título de "Logan" ter associação direta com histórias em quadrinhos, o filme não poderia ser mais diferente das produções cinematográficas do gênero. Contando com um roteiro que exibe personagens decadentes e brutos, cenas de ação incrivelmente intensas, vilões que poderiam existir na vida real, o filme já seria diferenciado. Mas a verdadeira relíquia, encontra-se na figura de Logan. Interpretado há 17 anos por Hugh Jackman, que encarna o mutante pela última vez, no momento mais frágil do personagem.

A trama acompanha Logan/Wolverine (Hugh Jackman) no ano de 2029, cuidando do adoecido mentor Charles Xavier (Patrick Stewart). Enquanto faz bicos como motorista de limusine, o mutante depara-se com Laura/X-23 (Dafne Ken). Uma criança que possui os mesmos poderes que os seus, e que está fugindo de um bando de mercenários, liderados por Donald Pierce (Boyd Holbrook).

Como já mencionado, "Logan" não é um filme de super-heróis. Apesar de possuir personagens dos X-Men, que por sua vez possuem super-poderes, essas habilidades jamais são mostradas de maneira heroica. A começar pelo próprio Wolverine. Se nos outros filmes dos X-Men, suas ações eram mostradas como meras acrobacias que resultavam em pouco dano visível nos inimigos (o que parando pra pensar, é um pouco incoerente visto que o sujeito possui três lâminas em cada punho), aqui todo é estrago é mostrado de maneira gráfica.



O que traz outro grande mérito do filme: a violência presente nunca é mostrado de maneira estéril. Sempre que alguém é mutilado ou morto, o espectador sente por aquela pessoa (e sim, mesmo sendo vilões). As cenas de ação são filmadas para serem feias, e a violência presente nelas é sempre chocante (é bastante diferente do que vemos em "Deadpool", que apesar de mostrar muito sangue, jamais coloca peso nas mortes). Após um ataque, a câmera faz questão de mostrar as migalhas da violência: membros mutilados, pessoas agonizando, sangue sobre a poeira do deserto. Além da gritante verdade: tudo aquilo podia ser evitado. 

Levando assim a uma das discussões do filme: Logan/Wolverine é um herói? Mesmo se valendo de motivos nobres, é justificável matar alguém (e ainda de maneira tão brutal)? É uma discussão que apesar de não ser colocada em pauta explicitamente, está presente o tempo todo. Como quando ao acordar de um pesadelo, Logan ouve Laura afirmando: "Nos meus pesadelos, tem pessoas me machucando". Assim, respondendo a menina: "Nos meus, eu machuco pessoas". Duas frases incrivelmente simples, mas que exibem toda mensagem do filme: não importa a razão pela qual você está cometendo violência/sendo agressivo. Em pouco tempo, você se torna aquilo que queria combater. Não é a toa, que em certa passagem do filme, o vilão Donald Pierce sequestra um dos aliados de Logan e fala "Agora você terá a chance de trabalhar pros mocinhos". Mesmo sendo um mercenário, ele não se vê no lado errado.

Importante dizer, que "Logan" é um filme com personagens muito bem trabalhados. Como já mencionei, o vilão Donald Pierce é uma figura complexa. Apesar de fazer atos hediondos (lembrem-se, ele está caçando uma criança), ele ainda se vê como um "mocinho". E o fato de não possuir falas grandiloquentes, roupas extravagantes e coloridas, ou um plano de dominar o mundo (ele simplesmente quer ser pago), deixa claro ao espectador que ele não é uma figura exclusiva do cinema/quadrinhos. Poderia muito bem existir (e infelizmente, existe) na nossa realidade.

Mas o verdadeiro brilho está nos protagonistas do filme, que conta com a ilustre figura de Patrick Stewart interpretando (pela última vez, como afirmou em entrevistas recentes) Charles Xavier. Que com sua mente debilitada, exibe momentos incrivelmente frágeis (tanto nos momentos nos quais perde o controle dos seus poderes, quanto quando se recorda dos atos inomináveis que praticou), e momentos incrivelmente ternos (a maneira com a qual ele tenta conversar com Laura, apelando pra uma fala infantil. Um carinho que ele percebe que a menina nunca teve). Laura por sua vez, é uma personagem que apesar de falar pouco, diz muito em suas ações (reparem o breve momento, no qual em uma perseguição, Laura utiliza seu corpo como um escudo humano para proteger Xavier). Além de demonstrar uma determinação e cinismo, que deixam claro ao espectador que a menina não teve uma infância ordinária e saudável.



Mas o verdadeiro destaque, é personagem de Hugh Jackman. Que traça um retrato magnífico de Logan. Um homem repleto de cicatrizes físicas (reparem a respiração que Hugh Jackman colocou no personagem, e o seu andar) e psicológicas, que simplesmente não quer mais se afeiçoar a ninguém. Abraçando-se ao pouco que tem, e tentando não se meter em conflitos. Não é a toa que a figura de Laura é recebida com medo por ele: não só de se afeiçoar e perdê-la (como já ocorreu tantas vezes antes com outras figuras queridas), mas de se tornar um mau exemplo. Pois, a grande diferença deste Wolverine para o apresentado nos outros filmes, é maturidade. Ele sabe que é quase invencível, e que pode esquartejar qualquer inimigo. Porém, o Logan apresentado aqui sabe que isso tem um preço. De ser visto como um animal, até ele mesmo começar a acreditar nisso. Um breve reflexo disso: este é o único filme com o personagem que suas mãos ficam repletas de sangue, após simplesmente acionar as garras de adamantium. 

Além de apresentar um roteiro magnífico com personagens muito bem desenvolvidos, o filme ainda é entretenimento excepcional. Trazendo cenas de ação incrivelmente dirigidas e intensas, que diferente dos atuais filmes da Marvel e Dc, cansam e chocam o espectador. Contando também com uma trilha sonora adequada (que nada lembra um filme de super-heróis, e sim um road movie ou um western moderno como "Onde os Fracos Não Tem Vez"), efeitos visuais discretos mas eficientes e uma fotografia belíssima retratando regiões desérticas e desoladas. A única mazela do filme, encontra-se num certo vídeo encontrado pelos personagens. Mas, nada que de fato prejudique a mensagem do filme.

Ao apresentar um Wolverine que praticamente manca pelo peso das mortes que provocou, por mostrar esse retrato mais realista de um universo e personagens que conhecemos e amamos, por dar um final digno à trajetória de um dos personagens mais conhecidos da cultura pop, e além de tudo criar um filme de ação magnífico (duvido que 2017 terá cenas de ação tão impactantes e intensas quanto as presentes nesse filme), "Logan" é um filme que se destaca não só na franquia "X-Men" mas em todo gênero de super-heróis no cinema. A prova viva que mais interessante do que mostrar as habilidades de um herói, é mostrar o homem que vive dentro dele.

Nota: 9

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Crítica: Lego Batman


Batman é um personagem com quase 80 anos de existência. Teve as mais diferentes encarnações no cinema, foi de sombrio para divertido nos quadrinhos, rendeu muitos produtos licenciados, conquistou fãs de todas as idades, tornou-se a maior fonte de lucro da DC Comics, entre outros méritos. Os roteiristas de "Lego Batman" tem plena consciência que cada pessoa e geração tem uma visão sobre o personagem, e ao invés de fingir que nada do que foi estabelecido antes (seja nos quadrinhos, no cinema, na série de tv) existiu e criar sua própria versão do herói (recontando a origem, estabelecendo os primeiros contatos com os vilões, etc), eles simplesmente aproveitaram tudo que já foi feito antes. "Como assim tudo?", você deve estar se perguntando. Mas sim, praticamente tudo que já foi produzido do herói é aproveitado aqui.

A trama é bastante simples, porém digna de nota. Após salvar Gotham mais uma vez, Batman (Will Arnett) começa a entender o que Alfred (Ralph Fiennes) tem lhe falado há anos: ele precisa ter coragem para formar uma nova família, e ser menos egoísta. Enquanto isso, Gotham recebe uma nova comissária (Rosario Dawson), o Coringa (Zach Galifianakis) elabora um plano para derrotar de vez o herói e o jovem Robin (Michael Cera) é adotado.

É preciso dizer que apesar de ser um filme infantil,, "Lego Batman" é um filme que consegue agradar o público mais velho. Assim como "Uma Aventura Lego", o filme é recheado de gags que só os adultos entenderão. Por vezes, até lembra o que "Deadpool" fez ano passado. Portanto, por mais que a sessão que você vá esteja recheada de crianças (a minha tinha), não se preocupe: o filme será agradável pra você também. Pois o filme é repleto de piadas com a cultura pop, e em como Batman se tornou um integrante permanente nessa.

O maior achado do filme, no entanto, é ser um grande presente a todos os fãs de Batman. Como falei no início da crítica, quase tudo que já foi produzido sobre o personagem é referenciado aqui. Todos os filmes (sim, os filmes de Tim Burton, de Joel Schumacher, de Christopher Nolan, e até "Batman vs Superman"), as grandes sagas dos quadrinhos (com direito a "The Dark Knight Returns" de Frank Miller, e até com aparição do vilão Líder Mutante), a série de tv dos anos 60, os desenhos animados, todos os produtos licenciados, entre inúmeras outras referências que farão os fãs ficarem com um sorriso de orelha a orelha. É um daqueles filmes em que tudo é tão frenético e com tantas referências, que só quando o filme sair em dvd que poderá ter-se uma noção de tudo que eles referenciam. Mas pra vocês terem uma noção, após o Coringa revelar seu plano a um policial, este não consegue deixar de dizer "Não é tão bom quanto o plano das duas barcas, né?" (em clara referência ao plano do Coringa de Heath Ledger, em "O Cavaleiro das Trevas"). Ou então, uma breve referência ao fracasso de "Esquadrão Suicida", ao tom de voz que Tom Hardy adotou ao interpretar Bane em "O Cavaleiro das Trevas Ressurge", aos mamilos da roupa de "Batman e Robin", a futura encarnação de Robin como Asa Noturna, a relação estranha de dependência entre Batman e Coringa.
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A produção é extremamente competente: o trabalho dos dubladores é impecável (tanto na versão americana, quanto na brasileira), a animação é espetacular (são tantos detalhes acontecendo ao mesmo tempo, que não são poucas as vezes que o espectador fica perdido em meio a tanta ação), e as piadas tem um timing incrível. A melhor comparação além do filme anterior da franquia Lego, são os filmes "Anjos da Lei".

O único problema que enxergo em "Lego Batman", é que a mensagem que o filme tenta passar as crianças apesar de relevante, por vezes fica um tanto sentimental demais. O que honestamente, não combina muito com o tom bem humorado que o filme havia passado até então. Fica difícil de acreditar que aqueles personagens até então satíricos, de repente ligam pra alguma mensagem que vá ser relevante pra crianças.

Isso não diminui o filme, que prova como Batman é um símbolo forte da cultura pop e que demonstra imenso carinho pelo personagem e a mitologia do herói criado por Bob Kane e Bill Finger. Uma pena que o universo cinematográfico da Dc não seja tão bem resolvido quanto o de Lego, mas um dia ainda chegam lá.

Nota: 8

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Crítica: Jackie



Quando surgiram as primeiras imagens de divulgação de "Jackie", todos pensaram que se tratava de uma cinebiografia como tantas que tem surgido nos últimos anos. Afinal, só na categoria de cinebiografias de figuras femininas políticas, temos: "Evita", "A Rainha", "Elizabeth", "A Dama de Ferro", "Diana", "Grace de Mônaco". Cada uma com méritos próprios, mas sempre seguindo uma fórmula parecida, que "Jackie" parecia rumar.

No entanto, bastam os primeiros minutos de projeção para que o espectador perceba que "Jackie" é um filme diferente. Enfocando Natalie Portman, com uma expressão que poderia indicar tanto solidão quanto luto, fazendo-nos questionar se essa primeira aparição de Jacqueline Kennedy retrata a ex-primeira dama antes ou depois do assassinato de seu marido. Junte isso a incômoda trilha sonora de Mica Levi (que já havia participado de outro filme que fala como a sociedade impõe uma imagem às  mulheres, "Sob a Pele"), e desde já entendemos que o diretor Pablo Larrain deseja explorar muito mais do que o luto vivido pela personagem de Natalie Portman.

O filme acompanha os preparativos posteriores a morte de John  Kennedy, a partir do olhar de Jackie. E como a ex-primeira dama se portou mediante o turbilhão de informações, sentimentos e angústias que vivenciou. Tudo isso, a partir de uma conversa com um repórter (Billy Crudup) que faz uma matéria sobre ela.



Logo de cara digo que Natalie Portman domina o filme. Sua atuação não é tão chamativa quanto a apresentada em "Cisne Negro", porém é recheada de detalhes que tornam sua personagem uma figura mais complexa. Criando várias facetas da personagem: a primeira dama mulher perfeita e sinônimo de elegância, a mãe que precisa alegrar seus filhos num aniversário, a mulher amarga e fria um mês após a morte do marido. Cada uma mais contrastante que a outra, sempre ressaltando o constante incômodo que a protagonista vive em não poder (e não se permitir) ser ela mesma.

Não demora para o espectador entender, que a Jackie de Natalie Portman constantemente encontra-se representando um papel. Do discurso em espanhol que ela decora em frente ao espelho antes da visita ao Texas (onde Kennedy seria assassinado), até a maneira com a qual ela anuncia aos filhos a morte do marido, a protagonista sempre está representando um papel (reparem a maneira como ela se porta nos trechos em que é mostrado o tour televisivo pela casa branca. Falando de maneira pausada, com um inglês perfeitamente claro, com os braços imóveis). Porém, a representação mais crucial que Jackie assume é a da primeira dama que não deixará o legado do marido tornar-se obsoleto e esquecido. Pois isso implicaria em ser esquecida também (como ocorreu com Mary Todd, esposa do também assassinado presidente Lincoln).

A direção de Pablo Larrain evidencia o receio da protagonista sem apelar pra superexposição. Como na cena em que um grupo de empregados retira da casa branca os pertences dos Kennedy, enquanto Jackie permanece imóvel no centro da sala. Quase como se fosse uma mobília a mais a ser retirada e empacotada. Ou então, na maneira com a qual as pessoas passam a trata-la logo após Lyndon Johnson assumir como presidente.


O diretor também é competente em ressaltar o horror sentido por Jackie, não apenas pela cena que recria com detalhes o assassinato, mas numa cena incrivelmente intimista: quando após horas cuidando dos assuntos governamentais do falecimento de seu marido, Jackie chega em casa e enfim pode trocar suas roupas sujas de sangue (a beleza da atriz torna o contraste da violência presente em suas vestes ainda mais impactante). Removendo a persona de primeira dama, limpando o sangue de seu marido presente no seu corpo e enfim podendo descansar. Uma cena sem diálogos que praticamente grita o que a personagem está sentindo (vejam a expressão de horror que surge quando após passar um bom tempo se limpando, ela vê que ainda restava sangue em seu cabelo, escorrendo ao ligar o chuveiro).

Mesmo Natalie Portman sendo o grande destaque de "Jackie", é preciso cumprimentar a fotografia de Stephane Fontaine. Todas as vezes que são mostradas cenas que se passam antes do assassinato, a fotografia ganha tons alaranjados (o baile no qual Jackie e o presidente compartilham uma dança, os ensaios pelo tour televisionado), enquanto que posteriormente ao assassinato um filtro azul/acinzentado permeia os ambientes. Além disso, todo o desconforto do luto e da impossibilidade de poder agir sem protocolo, é ressaltada pela trilha sonora. Que faz com que o espectador aguarde a qualquer momento, que a persona presidencial da protagonista comece a rachar.

Não nego, "Jackie" é um filme que me surpreendeu muito. Além de um estudo de personagem fascinante, um drama com um tema de extrema relevância. Em como as mulheres constantemente precisam assumir diversos papéis para que sejam vistas como relevantes, e não como figuras frágeis. Algo que inicialmente, o espectador pensava de Jacqueline Kennedy. Mas que certamente terá mudado ao final da projeção.

Nota: 9