sábado, 18 de novembro de 2017

Crítica: Liga da Justiça


Após o fracasso de crítica e público de "Batman vs Superman" (só relembrando que adoro o filme), a Warner e Zack Snyder resolveram mudar o tom dos filmes da DC. Ao invés do tom pesado, denso e sem humor do filme anterior, "Liga da Justiça" seria leve e mais bem humorado. Outro fator que acabou acentuando isso, foi a escalação de Joss Whedon (o diretor dos dois "Vingadores"), após Zack Snyder se afastar para ficar com sua família por conta do falecimento de sua filha. Whedon é um velho conhecido dos fãs de quadrinhos, tendo além de transpor os Vingadores pro cinema, criado a série "Buffy".

A mudança de tom é visível desde a 1a cena do filme, "Liga da Justiça" é uma produção completamente despretensiosa, recheada de aventura e bom humor. Que tem como maior mérito, trazer uma Liga que funciona maravilhosamente bem em cena. Além de apostar em diversos elementos que para o fã de quadrinhos, torna a aventura mostrada extremamente familiar.

O filme mostra Bruce Wayner/Batman (Ben Affleck) em luto por contribuir para a morte de Superman (Henry Cavill), e tentando reunir uma liga para combater a ameça de Steppenwolf (Ciaran Hinds), um ser de Apokolips que busca juntar as caixas maternas para destruir a Terra. Assim, o homem-morcego não mede esforços para ir atrás de Diana Prince/Mulher Maravilha (Gal Gadot), Arthur Curry/Aquaman (Jason Momoa), Barry Allen/Flash (Ezra Miller) e Victor Stone/Ciborgue (Ray Fisher).



Pra quem como eu gostou das discussões éticas e o lado sombrio em "Batman vs Superman", sinto informar que isso foi deixado de lado. Até há uma breve insinuação durante os dois primeiros minutos, mas logo é deixado de lado. No entanto, não pense que o filme é irrelevante na sua proposta. Que muito claramente, busca retratar uma aventura da Liga nos moldes dos quadrinhos clássicos de Jack Kirby ou até os desenhos do Cartoon Network. Assim, cada personagem tem seu tempo em tela bem definido (não há como nos Vingadores, um que fica em destaque e outro que é ignorado), todos eles apresentam traços de personalidade que os distinguem como indivíduos e todos tem um passado claro.

Outro lado interessante de "Liga da Justiça", é a maneira com a qual os personagens interagem entre si. Por exemplo, Batman: até então, o máximo de interação dele mostrada em tela era com Alfred (Jeremy Irons). No entanto, ao mostrar um plano para os membros da Liga, eles não hesitam em confronta-lo. Denotando o caráter extremista da fala, e mostrando outras possíveis soluções para o problema (além é claro, de mais de uma vez a loucura de um cara vestindo-se de morcego pra bater em bandido ser ressaltada por Aquaman). O que não só faz o personagem evoluir, como também ressalta a essência do mesmo. E isso se vale para todos os personagens: Mulher Maravilha tem sua essência pura mas não quer se misturar a humanidade, Aquaman é um rei renegado e que teme se envolver com questões complexas, Flash é um desajustado social e Ciborgue tenta não perder sua humanidade para o lado máquina. Todos eles acabam aprendendo algo ao interagir com o resto da equipe, o que é muito válido.

O grande problema do filme, sem dúvida alguma é o seu vilão. Steppenwolf não é um personagem relevante nos quadrinhos (há algo muito brochante quando lembramos que o antagonista é "o tio do maior vilão da DC". Qual vai ser o próximo? A vó do Darkseid?), e a transposição para as telas foi bastante fiel. Além do personagem não ser carismático, não ter nenhuma motivação além de "perdi a 1a batalha, agora quero vingança", ainda tem um visual incrivelmente genérico. Além disso, ante as interações da Liga e todo o contexto envolvendo o Superman, o espectador não liga pro vilão e seus contornos. Outro pequeno problema que senti, foi a trilha sonora composta por Danny Elfman. Que não chega a atrapalhar, mas tenta utilizar os temas clássicos do "Batman" de 89 e o "Superman" de 78, mas nunca chega de fato a desenvolvê-lo ou toca-lo plenamente (seria sensacional ouvir na íntegra ambos os temas, mas isso nunca ocorre).






Já que falei do homem de aço, é necessário ressaltar: uma das melhores coisas do filme é o Superman. Eu já gostava do retrato de Henry Cavill para o personagem nos filmes anteriores, mas "Liga da Justiça" consegue mostrar uma evolução natural dos dois últimos filmes. Assim, este Superman relembra quando ainda não havia conseguido lidar com seus poderes e o impacto no mundo ante eles ("Homem de Aço"), já superou o fato do mundo querer controla-lo ("Batman vs Superman") e agora se torna o grande símbolo de luz e esperança que o mundo precisa.

Se o leitor conferiu minha crítica de "Thor Ragnarok", sabe que não sou muito fã de quando a comédia no filme de super-herói se torna tão escrachada, a ponto de não ser possível se levar a sério qualquer personagem. Portanto, quando eu soube das piadas presentes em "Liga da Justiça", fiquei apreensivo. Mas curiosamente, o roteiro balanceia muito bem o humor. Estando visivelmente presente, porém de uma maneira que não desvie a atenção da trama. Quase como as produções de Spielberg dos anos 80 ("Indiana Jones", "Gremlins"), ou até mesmo o "Superman" de Richard Donner.

Não nego, adorei "Liga da Justiça". Achei um dos filmes mais resolutos do universo cinematográfico DC, e um blockbuster muito decente. Apesar de contar com um vilão pífio, o carisma dos personagens, o respeito das suas identidades e o equilíbrio do roteiro são bem trabalhados o suficiente para destaca-lo como um dos filmes mais agradáveis do ano. Se você busca se divertir vendo um filme que respeita os personagens da DC, assista "Liga da Justiça".

Nota: 8,5

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Crítica: Pokémon O Filme - Eu Escolho Você!


Pokémon, o anime baseado na franquia de RPGs criada por Satoshi Tajiri, estreou oficialmente no Brasil em Maio de 1999, mais de dois anos depois de sua estreia no Japão. Tendo nascido em 1994, eu ainda estava para fazer 5 anos quando isso aconteceu. Desde que me lembro, Pokémon estava em todos os lugares: na televisão, nas lojas de brinquedos, nos camelôs, dentro dos Guaraná Caçulinha, nos Game Boys, nas cartas, nas bancas de revista (como esquecer de revistas como Pokémon Evolution?) e, principalmente, nas mentes de todas as crianças, jovens, pais e responsáveis da época. Todos sabiam quem era o garoto Ash Ketchum da Cidade de Pallet, que sonhava em se tornar um grande Mestre Pokémon.

Isso se intensificou quando saiu das telinhas de televisão e foi para a sala de cinema. "Pokémon O Filme: Mewtwo Contra Ataca" foi lançado no Brasil em Janeiro do ano 2000. Dirigido por Kunihiko Yuyama, esse primeiro longa-metragem é menos um filme, e mais uma experiência coletiva que permanece vívida até hoje na memória de um grande número de pessoas. Eu, pessoalmente, jamais vou esquecer de estar com meu pai em uma sessão lotada, assistindo ao curta-metragem "As Férias de Pikachu" que precedia o filme, já em prantos por Charizard ter seu pescoço entalado em um cano. É.

As emoções não pararam por aí. "Mewtwo Contra Ataca", depois de nos apresentar um Donphan pela primeira vez em sua introdução, assume um tom sério e melancólico para transmitir uma mensagem complexa de aceitação e paz, pontuada pela música "Brother My Brother" em um momento genuinamente comovente, brutal e desconfortante na qual os Pokémons lutam violentamente contra seus clones mesmo contra a vontade.

Porém, o grande momento do filme é quando Ash se coloca no meio do conflito entre Mew e Mewtwo e é atingido no fogo cruzado e transformado em pedra. Nesse momento, o conflito se encerra e todos os Pokémons presentes se unem em luto até que suas lágrimas trazem o protagonista de volta. É um momento sensível que me desperta emoções até hoje - e sei que não sou o único.


Eu não assisti a todos os mais de 900 episódios do anime, mas mesmo assim não é justo deixar de evidenciar que Pokémon foi - e ainda é - uma enorme parte de mim. Juro que eu até gostaria que fosse menos, assim eu teria economizado o dinheiro da pré-venda de Pokémon Ultra Moon.

Depois de "Mewtwo Contra Ataca", foram realizados mais 19 longas baseados no anime. Desses 19, apenas quatro foram lançados nos cinemas brasileiros: "Pokémon 2000: O Poder de Um" em Julho de 2000; "Pokémon 3: O Feitiço dos Unown" em Abril de 2001; "Pokémon 4: Viajantes do Tempo" em Julho de 2005 e, finalmente, "Pokémon O Filme: Eu Escolho Você!" em Novembro de 2017. Os outros filmes foram transmitidos na televisão pelo Cartoon Network - com exceção do quinto filme "Heróis Pokémon: Latios e Latias" que, por algum motivo, passou na Jetix (hoje Disney XD) - lançados em DVD pela Europa Filmes ou estão disponíveis na Netflix.

(Sim, eu vi todos. Sim, eles são bem ruins em maioria. Menos "Lucario e o Mistério de Mew". Esse filme é do cacete.)



Chegamos então a 2017. Eu, com 23 anos de idade, indo ao cinema assistir a uma sessão limitada de "Pokémon O Filme - Eu Escolho Você", que não apenas é o vigésimo longa-metragem baseado no anime, mas também é uma comemoração pelos 20 anos da estreia do episódio piloto nas televisões japonesas em Abril de 1997.

Novamente dirigido por Kunihiko Yuyama, "Eu Escolho Você", ao contrário dos outros filmes, não acompanha a progressão do anime. Em vez disso, ele reconta os acontecimentos do primeiro episódio, e a partir daí cria uma narrativa inédita com novos personagens, conflitos e inclui Pokémon de todas as gerações ao mesmo tempo que recontextualiza momentos marcantes da série, como o Charmander na chuva do 11º episódio e o adeus da Butterfree que fez muitas crianças chorarem no episódio 21.


O filme conta a história de Ash Ketchum, um garoto que aguarda ansiosamente fazer 10 anos para receber seu primeiro Pokémon e sair em sua jornada para ser o maior Mestre Pokémon do mundo. No fatídico dia, ele acorda atrasado e, quando chega ao laboratório do Professor Carvalho, todos os três Pokémons iniciais já foram levados. Sua única opção, então, é ficar com Pikachu, um Pokémon elétrico que se recusa a obedecer o garoto e a entrar dentro de sua Pokébola. Eis que, por descuido, eles provocam Spearows na área e são brutalmente atacados. Eles então deixam suas diferenças de lado e se protegem. Ao fim da batalha eles vêem Ho-Oh, um Pokémon Lendário, voando pelos céus. Deslumbrados com sua beleza, eles recebem uma pena.

Assim, o garoto descobre que foi escolhido por seu coração puro para levar a Pena Arco-Íris até o topo da Montanha Arco-Íris, permitindo que os poderes de Ho-Oh se espalhem pelo mundo. Um coração impuro poderia corromper a pena e levar tudo ao caos.

Ao lado de Sérgio e Vera, dois jovens carismáticos, ele segue em sua jornada sem saber que está sendo perseguido por Marshadow, um misterioso e sombrio Pokémon fantasma. Eles também precisam lidar com Cruz, um jovem agressivo que maltrata seus Pokémons e a todos a sua volta.

Antes de começar a falar mais a fundo sobre o filme (como se eu já não tivesse enrolado o suficiente), sinto que devo voltar no tempo e retomar um texto que escrevi aqui no blog em Novembro de 2013 sobre The Day of the Doctor, especial de 50 anos de Doctor Who:

"Day of the Doctor no cinema é uma oportunidade única, onde apenas fãs iriam estar lá, onde todos riam, sofriam e vibravam em uníssono e todos queríamos compartilhar nossos sentimentos com aqueles que nos entendem. Não foi apenas um filme, foi um evento, uma comemoração."

Ignorando a escrita ruim desse texto - afinal, eu o escrevi há quase 4 anos - existe um sentimento marcante que posso relacionar à minha experiência em "Eu Escolho Você". Era uma sessão limitada, e todas as pessoas presentes lá tinham o intenso amor por Pokémon em comum.

Lá, todos riam, sofriam e vibravam em uníssono de forma que até os defeitos mais gritantes do filme (e, acredite, existem muitos) geravam reações coletivas tão divertidas que eu falho em lembrá-los como efetivamente ruins.

A estrutura de "Eu Escolho Você" é frágil e problemática, e existe um conflito entre a vontade de contar sua própria história e a necessidade comemorativa de relembrar os momentos marcantes do anime anteriormente citados. Em alguns momentos, o roteiro de Shoji Yonemura encontra soluções elegantes. Por exemplo, introduzindo Cruz como sendo aquele que abandonou o Charmander na chuva. Assim, o espectador já cria uma relação de antipatia com esse personagem inédito e já estabelecendo seu papel de "vilão" nessa narrativa. Existem diversas referências que são feitas com sutileza e não entram no caminho, como a mãe de Vera que é um personagem icônico do anime e dos jogos e aparece apenas por um breve momento em uma foto.

Infelizmente, isso é apenas uma parte em um conjunto que nunca deixa de parecer uma pilha de recortes de momentos desconexos sem nada que os ligue. A temporalidade é confusa - é impossível saber em quanto tempo diegético o filme se passa, e a montagem abusa de fades preguiçosos que tentam, sem sucesso, tapar buracos entre um beat e outro. Isso tudo sem mencionar Jessie, James e Meowth, que não tem qualquer função narrativa no filme e estão lá apenas para despertar a nostalgia.

Mas mesmo com todos esses defeitos, o filme ainda merece créditos por tomar alguns riscos. Não se contentando em colocar Ash como o personagem que sempre conhecemos, o filme o aprofunda e proporciona o que é facilmente o melhor momento do filme. Frustrado e irritado por ter perdido uma batalha, o garoto se afasta de seus colegas e se deixa tomar pela raiva - e é aqui que lembramos que ele, apesar de tudo, ainda é uma criança de 10 anos. Suas emoções começam a corromper a Pena Arco-Íris, e o que acontece a seguir não só é extremamente corajoso, mas realizado com tamanha competência que soa quase como um momento tirado de Neon Genesis Evangelion.


E o clímax. Aah, o clímax do filme. Lembra de quando eu disse lá em cima que até os defeitos mais gritantes do filme geraram reações incríveis na sala de cinema? Então, é principalmente aqui que isso entra. Não que o clímax do filme em si seja ruim. Não. Ele é inclusive muito competente, com um tom de urgência que funciona e é beneficiado pela excelente animação que confere peso e dinamismo para as lutas.

Mas tem um acontecimento - um breve e rápido acontecimento - de tamanha imbecilidade que todos os seres humanos na sala de cinema falharam miseravelmente em conter os gritos de indignação. Não foi mencionar o que foi, mas digo apenas que nada, NADA nesses anos de fã de Pokémon me prepararam para aquilo.

E mesmo assim, esse péssimo momento foi fruto de uma imensa alegria para mim. Se todos estávamos dividindo algo por Pokémon, aquele foi o momento mais espontâneo e visceral de toda a experiência.

Esse ano, me formei na faculdade de Cinema. Nos 4 anos de ensino superior, mudei de ideias e perspectivas inúmeras vezes, e me desiludi e decepcionei muito com a indústria, o mercado e o processo de fazer um filme. E perder a paixão por algo que você ama tanto é uma sensação muito dolorosa. Porém, é em momentos assim que eu lembro de onde vem minha paixão. O Cinema como arte tem uma magia implacável de unir as pessoas em experiências coletivas e memórias universais, e em situações como essa é absolutamente impossível resistir.

"Pokémon O Filme - Eu Escolho Você!" tem pontos altos, pontos baixos e mais pontos baixos. Mas se o propósito era dar um presente de aniversário a nós, fãs, então não posso deixar de bater palmas para todos os envolvidos. Esse vigésimo filme não só é o melhor, como foi também a maior experiência compartilhada em uma sala de cinema eu já tive.

E é pra proporcionar uniões assim que eu ousei fazer Cinema.

Nota: 7/10

domingo, 5 de novembro de 2017

Crítica: Thor Ragnarok



Os filmes solo do personagem Thor sempre ficaram devendo em algo. No 1o longa, a reclamação se devia pela falta de escopo (a trama se passava em Asgard e numa cidade pequena do Novo México que parecia ter saído de uma novela do SBT), no 2o a falta de uma trama minimamente interessante e personagens rasos. Quando "Thor Ragnarok" foi anunciado pela Marvel, à primeira vista (e pela sugestão do título) tinha um caráter de seriedade. Afinal, Ragnarok é o fim do mundo nórdico. No entanto, com o anúncio da escalação de Taika Waititi para direção e o surgimento do 1o trailer, ficou muito claro que seriedade não andaria de mãos dadas com o conteúdo do filme.

Por um lado, "Thor Ragnarok" abraça toda galhofa e humor possíveis. Há piadas envolvendo a natureza ridícula dos super-heróis, piadas sobre sexo, piadas físicas (de literalmente pessoas caindo subitamente). Não há qualquer resquício do Thor apresentado nos filmes anteriores da Marvel (que apesar de não ser inteligente, não era um completo imbecil). Isso é tanto um mérito, quanto um problema.

O filme acompanha Thor (Chris Hemsworth), numa jornada na qual se verá enviado ao planeta Sakaar. Onde um rico e excêntrico ser chamado Grão Mestre (Jeff Goldblum) comanda tudo, e promove batalhas entre gladiadores. Onde o Deus do Trovão se verá enfrentando seu amigo Hulk/Bruce Banner (Mark Ruffalo). Enquanto, Hela a Deusa da Morte (Cate Blanchett) prepara a perdição de Asgard.



Enquanto comédia, "Thor Ragnarok" é um filme corajoso por não temer fazer piadas incrivelmente gratuitas. No entanto, a impressão é que o diretor não sabe mesclar bem esse timing cômico com a escala do filme. Perceba por exemplo, como as cenas de ação são picotadas e aceleradas. Ganhando um pouco mais de atenção, apenas quando ressalta algo engraçado. O que seria válido a uma comédia, mas já que se trata de um filme que se vende como "A GRANDE PORRADA ENTRE THOR E HULK" um pouco mais de atenção poderia ter sido gasta. É um pouco estranho quando os conflitos físicos entre os seres mais poderosos do universo Marvel tem menos tempo de tela, do que a bunda do Hulk (exatamente o que você leu).

Outro sério problema do filme, se encontra no potencial desperdiçado de certas situações e personagens. Bruce Banner, Grão Mestre, Hela, Korg, todos eles exibiam potencial para brilharem. E até esboçam um pouco, mas a impressão que fica ao final é que todos foram subaproveitados. Hela é uma vilã que em momento algum demonstra-se ameaçadora ou minimamente digna de um arco, Bruce Banner até sugere uma certa complexidade no seu medo de perder o controle para o Hulk (que é totalmente esquecido ao final do filme), Korg é um personagem incrivelmente carismático e brilha nas poucas cenas que surge (ficando o gostinho de quero mais). Mas o verdadeiro desperdício, é a figura de Grão Mestre. Interpretado por um ator que possui uma personalidade naturalmente cômica, Jeff Goldblum, o personagem é incrivelmente excêntrico, e faz rir apenas pelos olhares e sorrisos. Não ficaria surpreso, se fosse revelado que várias cenas gravadas foram cortadas. Se analisado friamente, que ele só tem uma função pra história que é apertar um botão. 

No entanto, nem tudo são deméritos. Reconheço que quando o filme tem cenas em Sakaar, a trama ganha força e agilidade. São tantos elementos visuais, tantos personagens excêntricos, que o espectador fica abismado a cada segundo passado naquele mundo. Tudo em volta de inúmeras cores, que fariam o quadrinista Jack Kirby (uma das inspirações claras da direção de arte) sorrir. No entanto, basta cortar para a trama de Hela que o ritmo sucumbe a diálogos clichês e a cenários genéricos. O que dizer da subtrama do personagem de Idris Elba e os asgardianos? Parece que filmaram na varanda de alguém ou nos cenários da novela "Os Dez Mandamentos".



Quanto ao elenco, não há o que reclamar. Chris Hemsworth é um Thor tolo e divertido (que não lembra em NADA o personagem de todos os filmes anteriores, mas ok), Tom Hiddleston é um Loki sarcástico e inteligente (ele parece ser o único que enxerga o absurdo de todas as situações), Mark Ruffalo faz um Bruce Banner que até começa a exibir um arco narrativo mas abandona ao final, Cate Blanchett simplesmente não tem o que fazer com seus diálogos (fora que: se ela é a DEUSA DA MORTE, por que ela precisaria sair na mão com todos os soldados asgardianos?). 

Confesso, fiquei bem desapontado com "Thor Ragnarok". A partir do 1o trailer, a expectativa para um filme épico era absurda. Mas apresenta-se apenas como uma comédia com visual bonito. Apesar do cgi ser bem limitado, diga-se de passagem. Como pode-se ver em todas as cenas que o lobo de Hela surge. E tudo bem, poderia ser uma comédia sem efeitos decentes, se a ação ação compensasse. Mas também não é o caso. Por mais que eu adore os trabalhos anteriores de Taika Waititi, tenho que reconhecer que ele é um ótimo diretor e roteirista de comédias apenas. Visto que aqui, ele filma a ação de maneira pouco fluida e pouco interessante.

Não se enganem: há com que se encantar em "Thor Ragnarok". As cores, as referências nerds ("Senhor dos Anéis", "A Fantástica Fábrica de Chocolates", "Star Wars"), a participação do Doutor Estranho (minha cena favorita do filme, inclusive). Mas é muito pouco ante o material besta apresentado. Fica a dica a Marvel: não precisa pegar um personagem épico e sério como o Thor pra fazer um filme bobo. Façam um novo filme de Howard o Pato. Garanto que o material apresentado aqui, se encaixaria como uma luva.

Nota: 6

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Crítica: Blade Runner 2049



Em 1982, "Blade Runner" surgiu e foi um fracasso de bilheteria e crítica. Anos depois, o filme se tornou um cult, sendo idolatrado por um grande número de fãs (inclusive, este que vos escreve) e  se consolidando como um dos melhores filmes de todos os tempos. Quando Ridley Scott lançou "Prometheus", disse que uma continuação de "Blade Runner" seria feita. E passaria o posto de diretor a Dennis Villeneuve. Um diretor meticuloso, com filmes incrivelmente ricos em temas. Com o anúncio do resto do elenco (Ryan Gosling, Harrison Ford, Jared Leto, Robin Wright), as coisas pareciam estar seguindo um bom caminho. Só pareciam.

A história acompanha um blade runner chamado K (Ryan Gosling), replicante que vive com o fardo de caçar seus semelhantes. Ele vive de maneira repetida, sem emoções, chegando em casa ao final do dia para poder experimentar um vislumbre de uma vida normal com um holograma que simula uma esposa, chamada Joi (Ana de Armas). Até que a mando de sua chefe (RobinWright), ele vai investigar uma fazenda e lá encontra um cadáver de uma replicante morta há 30 anos.

Importante dizer, que como os trailers já insinuavam, "Blade Runner 2049" é um filme visualmente  incrível. A fotografia de Roger Deakins é magnífica, a maneira com a qual a direção de Villeneuve passeia por aquele universo só ressalta a escala deste, a mistura de cores com os ambientes mais escuros é belíssima e rica. 



Infelizmente, o mesmo não pode ser dito do roteiro. Que já abre o filme dizendo que agora replicantes obedecem seus donos, não há qualquer menção ao tempo de vida deles (algo fundamental no 1o filme, praticamente a grande discussão proporcionada). Mas se o roteiro apenas ignorasse as regras do filme de 82 e fizesse algo coerente, os problemas seriam menores. Porém não é o caso.

O filme é recheado de diálogos expositivos e redundantes. Como nos "incríveis" diálogos entre a personagem de Robin Wright e de Ryan Gosling: "Eu nunca matei algo com alma antes", "Algo que você não tem" "O que?" "Uma alma" (estou citando ipsis literis, sem qualquer adaptação). Ou então, clichês dos mais calhordas filmes de ação. Como quando um personagem diz que se certo equipamento for desconectado, suas chances de morrer aumentam (o que depois obviamente, ocorre).

Além disso, o próprio mote do filme não faz muito sentido. A grande busca do vilão do filme é completamente incoerente com suas ações (pra um cara que busca fazer mais replicantes, o fato de assassinar gratuitamente quase todas as replicantes que surgem na sua frente é no mínimo estranho). Ou então, a própria  revolução prometida que a descoberta feita pelos personagens implicaria, não tem qualquer relevância mais pra frente (o momento do time de rebeldes com meia dúzia de pessoas, é de fazer o mais sério dos espectadores segurar o riso). 




Válido dizer, o ritmo do filme é bem lento O que não seria um problema, se os personagens fossem de fato desenvolvidos ao longo das quase três horas de duração ou se os diálogos não parecessem ter sido escritos por um replicante sem cérebro. Pois no caso, fica quase torturante (as cenas que Jared Leto surge então, parecem ter sido feitas pra que o espectador pense em clamar pela revogação do seu Oscar recebido em "Dallas Buyers Club").

Mas nada irrita mais, do que as tentativas pífias de emular o filme original. Como o personagem de Jared Leto (uma versão genérica do Dr. Tyrell), o momento "lágrimas da chuva" (que aqui não tem significado algum, visto que é um personagem sem arco), a trilha sonora de Hans Zimmer que tenta o filme todo mas jamais chega aos pés do Vangelis, as cenas de ação (mesmo econômicas no original, sempre eram mostradas com brutalidade e violência bárbara. Aqui, elas não tem qualquer impacto), a personagem prostituta (que não tem QUALQUER importância na trama). O que tenta resgatar o original, é mal-feito. E o que é novo, é ruim (por que todos os personagens são tão estúpidos? Efeitos da radiação, provavelmente).

Essa continuação não consegue ser um produto à altura do original, nem um filme isolado decente por conta do seu roteiro estúpido. Além de não possuir personagens interessantes ou emocionar. O que sobra? O já citado visual, que de fato é belíssimo. Mas convenhamos: não precisava ter feito uma continuação de "Blade Runner" pra fazer um comercial de perfume futurista.

Nota: 5

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Crítica: Mãe!


Muitas vezes me pego assistindo filmes com conteúdo mais surreal, ou que se utilizam de metáforas e nenhum diálogo expositivo e me pergunto "Como seria a reação da platéia numa sala de cinema ao assistir isso?". Afinal, filmes como "Cidade dos Sonhos" de David Lynch e "A Montanha Sagrada" de Alejandro Jodorowsky, tiram o espectador da zona de conforto. Utilizando simbolismos que permitem que o espectador dê sua visão sobre o que está ocorrendo em tela.

O mais novo filme de Darren Aronofsky, "Mãe!", foi um exemplo perfeito disso. O longa não é uma experiência fácil de assistir, sempre deixando o espectador desconfortável e sem explicar o que está ocorrendo em tela. Exatamente por isso, é uma experiência fascinante.

É até mesmo inútil tentar dar uma breve sinopse, mas aos que estão curiosos: o filme fala sobre uma mulher (Jennifer Lawrence) que vive com seu marido (Javier Barden), um poeta que está em busca de inspiração para escrever. Enquanto ela tenta tornar a sua casa um paraíso, pessoas vão chegando e tornando cada vez mais a existência da protagonista em algo infernal.





Percebam que na breve sinopse, não mencionei os nomes dos personagens. Não foi um descuido ou uma desatenção minha, o roteiro os nomeia apenas por "Ele" ou "ela" (o fato do nome dele ter começado com letra maiúscula e o dela não, também não foi um descuido). Portanto, desde o início fica muito claro ao espectador que a experiência que Aronofsky está coordenando está muito além de uma narrativa comum. Isso se reflete também, no cenário da casa onde os personagens vivem. A falta de pertences que externalizem qualquer personalidade dos moradores, o fato da protagonista jamais sair da casa, tudo isso só reforça que a reflexão proposta é muito mais sobre arquétipos já conhecidos pelo espectador (mãe, pai, filho, criador, criatura) do que sobre personagens construídos para o filme.

É bem difícil falar desse filme sem spoilers, no entanto acho válido dizer que "mãe!" é influenciado por toda a filmografia de Aronofsky. A protagonista é seguida pela câmera da mesma maneira que Mickey Rourke em "O Lutador", o momento em que toda a tensão explode é similar aos momentos mais intensos de "Réquiem Para um Sonho", o design sonoro reforçando o incômodo presente na situação é similar ao de "Cisne Negro" (além é claro, do tema já clássico de "uma mulher em apuros"). E curiosamente, até mesmo o pior filme do diretor tem influência aqui. Me refiro claro, a religiosidade de "Noé". Que ao menos aqui, não soa pífia mas sim uma grande reflexão sobre a natureza dos dogmas religiosos.

Resta dizer que o elenco é simplesmente excepcional. Por mais que eu não goste dos trabalhos aclamados de Jennifer Lawrence, admito que aqui ela entrega uma atuação digna e corajosa. Conseguindo passar bem a imagem de uma mulher confusa, não sabendo reagir ante a falta de atenção do marido. Que por sua vez, é interpretado pelo magnífico Javier Bardem. Um ator que em cada novo trabalho, parece superar o anterior. Assim, interpretado "Ele", o tom de voz e até a postura adotados refletem uma figura capaz de sanar todos os problemas. Ao mesmo tempo, que a sua aparente desatenção dá ao espectador uma preocupação constante, que culmina nos momentos em que o ódio escapa de seus poros.




A direção de Aronofsky também é competente. Constantemente enfocando os rostos dos personagens, seguindo-os pelos cômodos da casa (que por vezes, parece aumentar de tamanho conforme o tempo passa) com uma câmera viva impressionante. Isso funciona melhor nos momentos mais intimistas do filme, pois quando a tensão de fato estoura (e o surrealismo tal qual os horrores da caixa de pandora, escapa) por vezes falha um pouco. A impressão que fica, é que quando se trata de comandar um momento verdadeiramente épico, Aronofsky não sabe distinguir o impressionante do ridículo.

É fácil entender porque o filme foi tão mal recebido, é uma experiência difícil e incômoda de se vivenciar. No entanto, pro bem ou pro mal é simplesmente inesquecível. Em momento algum o espectador fica entediado, a intriga cresce a cada minuto de filme, assim como os questionamentos. É um filme perfeito? Não. A metade final é a que mais carece de polidez no roteiro (chega a ser cômica a cena na qual Javier Barden encara fixo a protagonista), tentando apostar num épico explosivo. Que não é muito coerente com o que foi mostrado até então. No entanto, pelos questionamentos sobre a natureza dos dogmas, a ótima direção de Aronofsky e pelo afiado elenco, "Mãe!" é uma experiência que vale a pena ser vivenciada. Você goste ou não.

Nota: 8