sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Crítica: Blade Runner 2049



Em 1982, "Blade Runner" surgiu e foi um fracasso de bilheteria e crítica. Anos depois, o filme se tornou um cult, sendo idolatrado por um grande número de fãs (inclusive, este que vos escreve) e  se consolidando como um dos melhores filmes de todos os tempos. Quando Ridley Scott lançou "Prometheus", disse que uma continuação de "Blade Runner" seria feita. E passaria o posto de diretor a Dennis Villeneuve. Um diretor meticuloso, com filmes incrivelmente ricos em temas. Com o anúncio do resto do elenco (Ryan Gosling, Harrison Ford, Jared Leto, Robin Wright), as coisas pareciam estar seguindo um bom caminho. Só pareciam.

A história acompanha um blade runner chamado K (Ryan Gosling), replicante que vive com o fardo de caçar seus semelhantes. Ele vive de maneira repetida, sem emoções, chegando em casa ao final do dia para poder experimentar um vislumbre de uma vida normal com um holograma que simula uma esposa, chamada Joi (Ana de Armas). Até que a mando de sua chefe (RobinWright), ele vai investigar uma fazenda e lá encontra um cadáver de uma replicante morta há 30 anos.

Importante dizer, que como os trailers já insinuavam, "Blade Runner 2049" é um filme visualmente  incrível. A fotografia de Roger Deakins é magnífica, a maneira com a qual a direção de Villeneuve passeia por aquele universo só ressalta a escala deste, a mistura de cores com os ambientes mais escuros é belíssima e rica. 



Infelizmente, o mesmo não pode ser dito do roteiro. Que já abre o filme dizendo que agora replicantes obedecem seus donos, não há qualquer menção ao tempo de vida deles (algo fundamental no 1o filme, praticamente a grande discussão proporcionada). Mas se o roteiro apenas ignorasse as regras do filme de 82 e fizesse algo coerente, os problemas seriam menores. Porém não é o caso.

O filme é recheado de diálogos expositivos e redundantes. Como nos "incríveis" diálogos entre a personagem de Robin Wright e de Ryan Gosling: "Eu nunca matei algo com alma antes", "Algo que você não tem" "O que?" "Uma alma" (estou citando ipsis literis, sem qualquer adaptação). Ou então, clichês dos mais calhordas filmes de ação. Como quando um personagem diz que se certo equipamento for desconectado, suas chances de morrer aumentam (o que depois obviamente, ocorre).

Além disso, o próprio mote do filme não faz muito sentido. A grande busca do vilão do filme é completamente incoerente com suas ações (pra um cara que busca fazer mais replicantes, o fato de assassinar gratuitamente quase todas as replicantes que surgem na sua frente é no mínimo estranho). Ou então, a própria  revolução prometida que a descoberta feita pelos personagens implicaria, não tem qualquer relevância mais pra frente (o momento do time de rebeldes com meia dúzia de pessoas, é de fazer o mais sério dos espectadores segurar o riso). 




Válido dizer, o ritmo do filme é bem lento O que não seria um problema, se os personagens fossem de fato desenvolvidos ao longo das quase três horas de duração ou se os diálogos não parecessem ter sido escritos por um replicante sem cérebro. Pois no caso, fica quase torturante (as cenas que Jared Leto surge então, parecem ter sido feitas pra que o espectador pense em clamar pela revogação do seu Oscar recebido em "Dallas Buyers Club").

Mas nada irrita mais, do que as tentativas pífias de emular o filme original. Como o personagem de Jared Leto (uma versão genérica do Dr. Tyrell), o momento "lágrimas da chuva" (que aqui não tem significado algum, visto que é um personagem sem arco), a trilha sonora de Hans Zimmer que tenta o filme todo mas jamais chega aos pés do Vangelis, as cenas de ação (mesmo econômicas no original, sempre eram mostradas com brutalidade e violência bárbara. Aqui, elas não tem qualquer impacto), a personagem prostituta (que não tem QUALQUER importância na trama). O que tenta resgatar o original, é mal-feito. E o que é novo, é ruim (por que todos os personagens são tão estúpidos? Efeitos da radiação, provavelmente).

Essa continuação não consegue ser um produto à altura do original, nem um filme isolado decente por conta do seu roteiro estúpido. Além de não possuir personagens interessantes ou emocionar. O que sobra? O já citado visual, que de fato é belíssimo. Mas convenhamos: não precisava ter feito uma continuação de "Blade Runner" pra fazer um comercial de perfume futurista.

Nota: 5

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Crítica: Mãe!


Muitas vezes me pego assistindo filmes com conteúdo mais surreal, ou que se utilizam de metáforas e nenhum diálogo expositivo e me pergunto "Como seria a reação da platéia numa sala de cinema ao assistir isso?". Afinal, filmes como "Cidade dos Sonhos" de David Lynch e "A Montanha Sagrada" de Alejandro Jodorowsky, tiram o espectador da zona de conforto. Utilizando simbolismos que permitem que o espectador dê sua visão sobre o que está ocorrendo em tela.

O mais novo filme de Darren Aronofsky, "Mãe!", foi um exemplo perfeito disso. O longa não é uma experiência fácil de assistir, sempre deixando o espectador desconfortável e sem explicar o que está ocorrendo em tela. Exatamente por isso, é uma experiência fascinante.

É até mesmo inútil tentar dar uma breve sinopse, mas aos que estão curiosos: o filme fala sobre uma mulher (Jennifer Lawrence) que vive com seu marido (Javier Barden), um poeta que está em busca de inspiração para escrever. Enquanto ela tenta tornar a sua casa um paraíso, pessoas vão chegando e tornando cada vez mais a existência da protagonista em algo infernal.





Percebam que na breve sinopse, não mencionei os nomes dos personagens. Não foi um descuido ou uma desatenção minha, o roteiro os nomeia apenas por "Ele" ou "ela" (o fato do nome dele ter começado com letra maiúscula e o dela não, também não foi um descuido). Portanto, desde o início fica muito claro ao espectador que a experiência que Aronofsky está coordenando está muito além de uma narrativa comum. Isso se reflete também, no cenário da casa onde os personagens vivem. A falta de pertences que externalizem qualquer personalidade dos moradores, o fato da protagonista jamais sair da casa, tudo isso só reforça que a reflexão proposta é muito mais sobre arquétipos já conhecidos pelo espectador (mãe, pai, filho, criador, criatura) do que sobre personagens construídos para o filme.

É bem difícil falar desse filme sem spoilers, no entanto acho válido dizer que "mãe!" é influenciado por toda a filmografia de Aronofsky. A protagonista é seguida pela câmera da mesma maneira que Mickey Rourke em "O Lutador", o momento em que toda a tensão explode é similar aos momentos mais intensos de "Réquiem Para um Sonho", o design sonoro reforçando o incômodo presente na situação é similar ao de "Cisne Negro" (além é claro, do tema já clássico de "uma mulher em apuros"). E curiosamente, até mesmo o pior filme do diretor tem influência aqui. Me refiro claro, a religiosidade de "Noé". Que ao menos aqui, não soa pífia mas sim uma grande reflexão sobre a natureza dos dogmas religiosos.

Resta dizer que o elenco é simplesmente excepcional. Por mais que eu não goste dos trabalhos aclamados de Jennifer Lawrence, admito que aqui ela entrega uma atuação digna e corajosa. Conseguindo passar bem a imagem de uma mulher confusa, não sabendo reagir ante a falta de atenção do marido. Que por sua vez, é interpretado pelo magnífico Javier Bardem. Um ator que em cada novo trabalho, parece superar o anterior. Assim, interpretado "Ele", o tom de voz e até a postura adotados refletem uma figura capaz de sanar todos os problemas. Ao mesmo tempo, que a sua aparente desatenção dá ao espectador uma preocupação constante, que culmina nos momentos em que o ódio escapa de seus poros.




A direção de Aronofsky também é competente. Constantemente enfocando os rostos dos personagens, seguindo-os pelos cômodos da casa (que por vezes, parece aumentar de tamanho conforme o tempo passa) com uma câmera viva impressionante. Isso funciona melhor nos momentos mais intimistas do filme, pois quando a tensão de fato estoura (e o surrealismo tal qual os horrores da caixa de pandora, escapa) por vezes falha um pouco. A impressão que fica, é que quando se trata de comandar um momento verdadeiramente épico, Aronofsky não sabe distinguir o impressionante do ridículo.

É fácil entender porque o filme foi tão mal recebido, é uma experiência difícil e incômoda de se vivenciar. No entanto, pro bem ou pro mal é simplesmente inesquecível. Em momento algum o espectador fica entediado, a intriga cresce a cada minuto de filme, assim como os questionamentos. É um filme perfeito? Não. A metade final é a que mais carece de polidez no roteiro (chega a ser cômica a cena na qual Javier Barden encara fixo a protagonista), tentando apostar num épico explosivo. Que não é muito coerente com o que foi mostrado até então. No entanto, pelos questionamentos sobre a natureza dos dogmas, a ótima direção de Aronofsky e pelo afiado elenco, "Mãe!" é uma experiência que vale a pena ser vivenciada. Você goste ou não.

Nota: 8


domingo, 10 de setembro de 2017

Crítica: IT-A Coisa



Stephen King teve um de seus momentos de genialidade ao escrever "IT-A Coisa". Livro no qual uma criatura/entidade assume a forma de um palhaço chamado Pennywise, para assim atrair crianças e devora-las. Antes de saciar sua fome porém, assume a forma do maior medo da vítima de modo que o pavor tempere a carne. Além de criar um monstro interessante, o livro ainda o utilizava para uma alusão dos horrores reais vividos pelas crianças que o protagonizavam. Assim: abuso sexual, hipocondria, insegurança, bullying são todos muito mais assustadores do que um monstro (e todos existentes no mundo real).

Essa premissa serviu de base para a primeira adaptação do livro, a minissérie em duas partes que tem Tim Curry como Pennywise (que é realmente a única coisa que se salva, visto que o resto envelheceu muito mal). E 27 anos depois (tal como o período de tempo entre os ataques da criatura), surge o remake dirigido por Andy Muschietti (que realizou o bom "Mama"). Na trama, um grupo de cinco crianças se veem enfrentando uma criatura que surge na forma de um palhaço (Bill Skarsgard), após  o assassinato do irmão caçula de um deles.

Num geral, adaptações cinematográficas de livros/quadrinhos podem abandonar completamente o material de origem (e criando algo ruim sem qualquer conexão com a obra, vide "O Passageiro do Futuro"), ou seguir a risca 100% todas as ideias (e ficando muito abstrato ou ridículo, caso da adaptação pra tv de "O Iluminado"). Em "IT" há muito respeito pelo livro, no entanto o roteiro opta por certas decisões que mantém a essência da história de King sem segui-la totalmente. Assim, transpôs-se o período para os anos 80 (no livro, a história se passa nos anos 50), as criaturas que as crianças tem medo se tornam outras. Muito mais familiares aos espectadores, do que simplesmente os monstros da Universal (que passavam em reprise nas tvs norte-americanos nos anos 50).






Porém, os fãs do livro ficarão muito felizes em ver como os realizadores foram caprichosos. Percebam a interação de Georgie e Pennywise: os diálogos são idênticos aos do livro (a menção ao circo e seus sabores), o detalhe que Georgie vê nos olhos da criatura ao passarem de amarelos (como os de uma fera) para azuis (numa ideia de inocência), até mesmo o período do dia está de acordo com o estabelecido por King. Além é claro, do resultado brutal e trágico da sequência, que dá todo o tom do resto do filme.

O grande atrativo do longa, sem dúvida alguma, é seu elenco. Todos os cinco jovens possuem características que os tornam marcantes e desenvolvidos, todos eles exibem ambições e medos visíveis aos olhos do espectador (sem apelar para diálogos expositivos). Além de todos os atores serem incrivelmente talentosos, convencendo em cada cena em que estão juntos. Mas o verdadeiro destaque, é a interpretação de Bill Skarsgard como Pennywise. Apostando num tom de voz afinado, movimentos desajeitados e desorientados (como se o monstro não conseguisse controlar direito a persona de palhaço, algo que tem reflexo até mesmo no estrabismo do personagem), tendo como grande mérito a habilidade em conseguir assustar mesmo nos momentos sem efeitos especiais ou com olhares silenciosos (que refletem uma fome e antecipação absurda pela sua refeição) às crianças.

Outros aspecto digno de nota, é o design de produção. Todos os cenários passam bem a ideia de isolamento que cada um dos jovens sente na intimidadora cidade de Derry, sempre recheados de sombras que indicam a presença de algo maligno (seja Pennywise ou os moradores da cidade). Como o banheiro de Beverly (que aproveita uma ideia de "The Evil Dead": a lâmpada cheia de sangue) ou o cômodo da sinagoga do pai de Stanley. Só esses ambientes domésticos já seriam magníficos exemplos do capricho da produção. Que dizer então dos covis de Pennywise, que adquirem atmosfera tanto suja quanto surreal?




Deixando claro, o filme não é perfeito. Por mais que as aparições criadas por Pennywise sejam assustadoras, por vezes o cgi incomoda. Em alguns casos, torna a experiência muito mais rica (como a criatura que surge em 2d) e em outros fica patético. Percebam como criaturas criadas apenas com maquiagem como o Leproso, são muito mais eficazes em passar medo. Outro problema do filme, encontra-se na motivação do clímax do filme. O motivo essencial de fazer com que o grupo de crianças vá até o covil de Pennywise. Não apenas foge do livro, mas ainda não faz sentido com a mitologia estabelecida (por que Pennywise deixaria de devorar uma vítima?).

Esses problemas não incomodam, quando percebe-se a verdadeira intenção do filme. Pennywise e seus poderes sobrenaturais assustam, sem dúvida alguma. Porém, os problemas terrenos que as crianças enfrentam são bem mais assustadores. Repare como a câmera filma a tensão presente numa cena que denota abuso sexual, ou numa cena de bullying. O espectador fica tão tenso e incomodado quanto numa cena em que Pennywise exibe uma fileira grotesca de dentes.

Nisso que reside a beleza de "IT-A Coisa". O mundo real é tão assustador, terrível e difícil, que parafraseando uma fala do livro, faz o mais tenebroso pesadelo parecer o mais doce sonho. O que nos faz refletir, que mesmo se passando nos anos 80, os problemas vividos pelos protagonistas (preconceito, bullying, machismo, abuso sexual) continuam vivos nos dias de hoje como uma aparição que faria Pennywise morrer de medo.

Nota: 8,5

domingo, 27 de agosto de 2017

Crítica: Death Note (2017)


Hoje, depois de estudar cinema praticamente todos os dias há mais de 4 anos, tenho a enorme crença de que filmes ruins também tem sua relevância. Assistir a uma má obra, analisar o que ela se propõe a fazer, onde estão os erros e - mais importante - como esses erros são cometidos, é tão essencial quanto o estudo de uma obra-prima como, por exemplo, O Poderoso Chefão.

Porém, existe algo mais. Algo de masoquista, talvez, mas existe um genuíno prazer em assistir a um filme verdadeiramente ruim.

Prazer esse que transcende o aprendizado e atinge o fascínio. Não há nada que me fascine mais do que estar diante de uma obra audiovisual e pensar em como uma grande equipe de seres humanos - seres que amam, que riem, choram e sonham - se uniram em prol de uma enorme bagunça. Me pergunto onde foi a curva errada tomada que resultou nessa coisa. Reflito sobre a quantidade enorme dinheiro gasto, de horas perdidas e no fato de que ninguém parou por um segundo pra pensar "mano, talvez a gente esteja fazendo merda"

São bagunças completas que simplesmente me fascinam.

Esse não é o caso de nenhuma das quatro adaptações japonesas. Death Note, The Last Name e L: Change the World são ruins, sim, mas são filmes que sabem o que querem transmitir e são calculados com a precisão de um bisturi para atingir esses objetivos da forma mais genérica, segura, covarde e destituída de valor artístico ou emocional possível. Death Note: Iluminando um Novo Mundo até conseguiria me trazer algum fascínio se não fosse tão tedioso e desinteressado na sua própria história.

Então, visto que agora estou aqui pra falar da adaptação norte-americana de Death Note, dirigida por Adam Wingard e produzida pela Netflix, preciso responder em que patamar ela cai. É um ótimo filme? Um bom filme? Um filme ruim e sem-graça? Uma bagunça maravilhosa?

Death Note conta a história de Light Turner (Nat Wolff), um jovem solitário que mora com seu pai viúvo James Turner (Shea Wingham) desde que sua mãe fora morta por um criminoso que constantemente escapa da lei por meio de propinas e corrupção.

Em mais um dia típico na escola, Light faz as tarefas de casa dos colegas por dinheiro enquanto admira as líderes de torcida, vê um Death Note cair do céu e o pega, leva soco de um bully, vai pra detenção, dá chilique quando deparado com um Deus da Morte - em uma atuação memorável de Nat Wolff que, se o mundo for justo, será lembrada nas premiações (sim, é ironia) - decapita o bully que deu soco nele usando os poderes do caderno, chora muito, decide usar o caderno para vingar sua mãe fazendo com que o assassino enfie sem querer um garfo na garganta. Dia normal.

Sem qualquer razão aparente, Light decide confiar na recém-conhecida líder de torcida Mia Sutton (Margaret Qualley) e compartilhar com ela o fato de que ele tem um caderno no qual as pessoas cujos nomes são escritos em suas páginas morrem. Os dois, então, decidem matar criminosos do mundo todo e "mudar o mundo", até caírem na mira o "maior detetive do mundo" L (Lakeith Stanfield), que investiga os assassinatos ao lado do pai do protagonista e de seu mentor Watari (Paul Nakauchi).

Os roteiristas Charley Parlapanides, Vlas Parlapanides e Jeremy Slater diminuíram o número de personagens e elementos em relação ao mangá e às adaptações japonesas  - não há Olhos de Shinigami, Rem, Naomi Misora ou Raye Penber para introduzir e desenvolver. Em teoria, isso é bom pra manter o controle da história e se concentrar no que é de fato necessário. Na prática?

Mesmo operando com pouco, o roteiro tem furos descarados. As regras do Death Note também não fazem o menor sentido, como no grande momento no qual Light escreve o nome de Watari no Death Note e o manipula sabendo apenas seu primeiro nome (o que só faria sentido se Watari for de fato seu único nome, mais ou menos como McLovin). Além disso, o plano final do protagonista é uma ofensa tão grande à inteligência do espectador que eu não pude deixar de aplaudir.

Seus personagens são extremamente cativantes pelas piores razões possíveis. Light é divertidíssimo devido a sua cômica histeria e sua burrice preocupante. Mia é uma sociopata apática que manipula o protagonista de forma descarada (exatamente ao contrário do que ocorre no mangá) e L diverte muito por ser completamente diferente daquele que os fãs de Death Note amam: Ele é inteligente (aqui, significa tirar conclusões baseadas em absolutamente nada) e excêntrico e se senta com os pés em cima da cadeira, sim, mas também é um sujeito sentimental e emocionalmente desequilibrado, sendo o personagem mais genuinamente intrigante do filme. O Deus da Morte Ryuk (Jason Liles e voz de Willem Dafoe) pode ser superficialmente escrito e incoerente, mas ganha pontos não só pelo trabalho de voz ou pelo seu amor à ideia de um ataque de tubarão no banheiro, mas porque seu visual é, de longe, o ponto alto artístico do filme, e a escolha do diretor Adam Wingard de mostrá-lo quase sempre desfocado ao fundo com dois flares amarelos representando seus olhos é interessante.

No fim das contas, Death Note me fez gargalhar mais do que qualquer filme de comédia que eu consigo lembrar de ter visto esse ano todo. Se a sequência na qual Light se encontra com Ryuk pela primeira vez é histericamente ridícula, o filme dá conta de superá-la constantemente.

O assassino da mãe de Light morrendo no restaurante, as caretas de Light ao tirar fotos em um baile escolar, as mortes desnecessariamente violentas dignas dos piores filmes da série Premonição, tudo isso torna Death Note uma enorme joia que transcende as barreiras do tempo e fizeram com que seus 101 minutos de duração passassem como 5 minutos pra mim. Um grande mérito disso é a montagem de Louis Cioffi, que oferece um ritmo genuinamente dinâmico e essencial pro filme, nunca o deixando ficar arrastado.

Não sei se consegui traduzir em palavras esse sentimento, mas, pra mim, Death Note é um péssimo filme que me divertiu a cada segundo e que já me imagino revendo várias vezes. Não pra aprender, mas pra me presentear com um momento de paz e divertimento em meio ao cotidiano tão caótico.

Aliás, sinto que não é meu papel como um homem branco fazer qualquer comentário próprio sobre a questão do whitewashing em Death Note, então recomendo que assistam a isso aqui, que é apenas um dos vídeos do ótimo canal Yo Ban Boo sobre o assunto. Não é o único, então por favor vejam os outros.

Nota: 2/10

Crítica: Death Note: Iluminando um Novo Mundo (2016)


Essa é a quarta crítica da Retrospectiva Death Note. Você pode navegar para cada uma das críticas pelos links abaixo.


Em 2011, há 6 anos (que, olhando em retrospectiva, parecem 600), escrevi sobre a adaptação live-action do mangá Gantz. Ao referir-se ao seu diretor, Shinsuke Sato, fiz os seguintes elogios:

"[...] o diretor Shinsuke Sato apresenta aqui uma grande imaginação referente ao design das criaturas e demonstra-se bastante criativo, o que é um ponto alto do filme. É impressionante o design, por exemplo, do Alien Tanaka na 2ª missão, que causa estranhesa e ao mesmo tempo é cômico, medonho e perturbador. Sendo o primeiro filme que vejo do diretor, já tenho uma ótima primeira impressão dele.
Sua capacidade de causar suspense também é impressionante. Em várias cenas o filme fica tenso e causa uma sensação intencional de desconforto. E ele consegue fazer isso com um simples plano fechado na face estática de uma estátua, ou com um longo plano em um ambiente escuro, o que reforça o fato de Shinsuke Sato ser um ótimo diretor."

Ignorando o fato de que na época eu escrevia "estranhesa", com s, e não sabia exatamente até onde ia o mérito do diretor e onde começava o mérito de outros membros da equipe, me peguei rindo do fato de que em seu trabalho mais recente "Death Note: Iluminando um Novo Mundo", Sato erra em tudo o que elogiei ao falar sobre Gantz.

O que, pra ser sincero, não tem problema. Não temia a possibilidade de Iluminando um Novo Mundo ser ruim, mas sim a de ser genérico e sem-graça como seus antecessores. 

Meus pedidos foram parcialmente atendidos: Iluminando um Novo Mundo é ruim de modos que seus antecessores não conseguiriam ser, visto que são covardes e calculados para serem investimentos seguros. Porém, esse quarto filme consegue ser tão absolutamente desastroso - e nem ao menos tem a decência de divertir na sua desgraça - que me pergunto se vale a pena.

Argh, vamos lá. 


Roteirizado por Katsunari Mano, Death Note: Iluminando um Novo Mundo tem uma premissa que tive dificuldade de resumir sem parecer um completo idiota (aí percebi que, né, não importa):

10 anos depois dos acontecimentos de The Last Name o Rei Shinigami, encantado com os atos de Light Yagami (Tatsuya Fujiwara) ordena aos outros Deuses da Morte que encontrem o sucessor de Kira. Por isso, mais Death Notes são enviados ao nosso mundo, causando novas mortes misteriosas. 

Entra em ação então a Força Tarefa Death Note, liderada pelo detetive Tsukuru Mishima (Masahiro Higashide) e que conta também com Ryuzaki (Sosuke Ikematsu), sucessor e clone genético de L (eu juro que não estou zoando) que, devido a sua personalidade imprevisível e excêntrica, não soa confiável. Enquanto isso, um cyber-terrorista chamado Yuki Shien (Masaki Suda) acredita que Light está vivo e lhe deu a missão de juntar todos os 6 Death Notes (número limite de cadernos da morte que podem coexistir na Terra). Para isso, ele cria um vírus virtual que se espalha por aparelhos eletrônicos e mandam uma mensagem de Light. 

A sinopse que escrevi não me agrada, visto que não consegui colocar em palavras a bagunça infinita que é o roteiro de Iluminando um Novo Mundo. 

Suas cenas parecem não ter qualquer relação uma com a outra, os personagens não tem qualquer resquício de motivação ou personalidade e os 135 minutos de projeção não representam nada além de perda de tempo. O roteiro não parece ter qualquer interesse em nenhum de seus personagens. Por exemplo, o médico russo Roger Irving (Sergey Kuvaev) é o primeiro personagem que vemos, e ele nos é apresentado de maneira competente, usando o Death Note para a eutanásia de pacientes em estado terminal e, posteriormente, para matar jovens em fóruns de suicídio. Porém, ele simplesmente desaparece do filme e, depois de sua introdução, ele é brevemente citado como uma vítima de Shien e esquecido pra sempre.

Em menos de vinte minutos, o filme parece ter chegado ao seu clímax em uma sequência genuinamente tensa e bem dirigida de um massacre no meio da cidade, causada pela adolescente Sakura Aoi (Rina Kawaei). Dotada de um Death Note e dos Olhos de Shinigami, a garota apenas anda pelas ruas matando todos que estão à sua frente. Então, em menos de cinco minutos depois de sua introdução, a personagem tem seu fim e some pra sempre, e o filme parece apenas se arrastar sem qualquer força vital ou rumo.

Além disso, Katsunari Mano não se preocupa em estabelecer qualquer linha investigativa coerente, tornando o jogo entre a Força-Tarefa e Shien um jogo de deduções gratuitas, longas sequências de exposição e excentricidades absurdas. Preciso destacar aqui a atuação de Sosuke Ikematsu, que vive o clone de L com um overacting de dar vergonha. 

Eu honestamente não sei o que falar. Death Note: Iluminando um Novo Mundo é tão destituído de qualquer proveito que sinto que a cada segundo que penso nesse filme uma parte de mim morre.

Nota: 0/10