domingo, 10 de setembro de 2017

Crítica: IT-A Coisa



Stephen King teve um de seus momentos de genialidade ao escrever "IT-A Coisa". Livro no qual uma criatura/entidade assume a forma de um palhaço chamado Pennywise, para assim atrair crianças e devora-las. Antes de saciar sua fome porém, assume a forma do maior medo da vítima de modo que o pavor tempere a carne. Além de criar um monstro interessante, o livro ainda o utilizava para uma alusão dos horrores reais vividos pelas crianças que o protagonizavam. Assim: abuso sexual, hipocondria, insegurança, bullying são todos muito mais assustadores do que um monstro (e todos existentes no mundo real).

Essa premissa serviu de base para a primeira adaptação do livro, a minissérie em duas partes que tem Tim Curry como Pennywise (que é realmente a única coisa que se salva, visto que o resto envelheceu muito mal). E 27 anos depois (tal como o período de tempo entre os ataques da criatura), surge o remake dirigido por Andy Muschietti (que realizou o bom "Mama"). Na trama, um grupo de cinco crianças se veem enfrentando uma criatura que surge na forma de um palhaço (Bill Skarsgard), após  o assassinato do irmão caçula de um deles.

Num geral, adaptações cinematográficas de livros/quadrinhos podem abandonar completamente o material de origem (e criando algo ruim sem qualquer conexão com a obra, vide "O Passageiro do Futuro"), ou seguir a risca 100% todas as ideias (e ficando muito abstrato ou ridículo, caso da adaptação pra tv de "O Iluminado"). Em "IT" há muito respeito pelo livro, no entanto o roteiro opta por certas decisões que mantém a essência da história de King sem segui-la totalmente. Assim, transpôs-se o período para os anos 80 (no livro, a história se passa nos anos 50), as criaturas que as crianças tem medo se tornam outras. Muito mais familiares aos espectadores, do que simplesmente os monstros da Universal (que passavam em reprise nas tvs norte-americanos nos anos 50).






Porém, os fãs do livro ficarão muito felizes em ver como os realizadores foram caprichosos. Percebam a interação de Georgie e Pennywise: os diálogos são idênticos aos do livro (a menção ao circo e seus sabores), o detalhe que Georgie vê nos olhos da criatura ao passarem de amarelos (como os de uma fera) para azuis (numa ideia de inocência), até mesmo o período do dia está de acordo com o estabelecido por King. Além é claro, do resultado brutal e trágico da sequência, que dá todo o tom do resto do filme.

O grande atrativo do longa, sem dúvida alguma, é seu elenco. Todos os cinco jovens possuem características que os tornam marcantes e desenvolvidos, todos eles exibem ambições e medos visíveis aos olhos do espectador (sem apelar para diálogos expositivos). Além de todos os atores serem incrivelmente talentosos, convencendo em cada cena em que estão juntos. Mas o verdadeiro destaque, é a interpretação de Bill Skarsgard como Pennywise. Apostando num tom de voz afinado, movimentos desajeitados e desorientados (como se o monstro não conseguisse controlar direito a persona de palhaço, algo que tem reflexo até mesmo no estrabismo do personagem), tendo como grande mérito a habilidade em conseguir assustar mesmo nos momentos sem efeitos especiais ou com olhares silenciosos (que refletem uma fome e antecipação absurda pela sua refeição) às crianças.

Outros aspecto digno de nota, é o design de produção. Todos os cenários passam bem a ideia de isolamento que cada um dos jovens sente na intimidadora cidade de Derry, sempre recheados de sombras que indicam a presença de algo maligno (seja Pennywise ou os moradores da cidade). Como o banheiro de Beverly (que aproveita uma ideia de "The Evil Dead": a lâmpada cheia de sangue) ou o cômodo da sinagoga do pai de Stanley. Só esses ambientes domésticos já seriam magníficos exemplos do capricho da produção. Que dizer então dos covis de Pennywise, que adquirem atmosfera tanto suja quanto surreal?




Deixando claro, o filme não é perfeito. Por mais que as aparições criadas por Pennywise sejam assustadoras, por vezes o cgi incomoda. Em alguns casos, torna a experiência muito mais rica (como a criatura que surge em 2d) e em outros fica patético. Percebam como criaturas criadas apenas com maquiagem como o Leproso, são muito mais eficazes em passar medo. Outro problema do filme, encontra-se na motivação do clímax do filme. O motivo essencial de fazer com que o grupo de crianças vá até o covil de Pennywise. Não apenas foge do livro, mas ainda não faz sentido com a mitologia estabelecida (por que Pennywise deixaria de devorar uma vítima?).

Esses problemas não incomodam, quando percebe-se a verdadeira intenção do filme. Pennywise e seus poderes sobrenaturais assustam, sem dúvida alguma. Porém, os problemas terrenos que as crianças enfrentam são bem mais assustadores. Repare como a câmera filma a tensão presente numa cena que denota abuso sexual, ou numa cena de bullying. O espectador fica tão tenso e incomodado quanto numa cena em que Pennywise exibe uma fileira grotesca de dentes.

Nisso que reside a beleza de "IT-A Coisa". O mundo real é tão assustador, terrível e difícil, que parafraseando uma fala do livro, faz o mais tenebroso pesadelo parecer o mais doce sonho. O que nos faz refletir, que mesmo se passando nos anos 80, os problemas vividos pelos protagonistas (preconceito, bullying, machismo, abuso sexual) continuam vivos nos dias de hoje como uma aparição que faria Pennywise morrer de medo.

Nota: 8,5

domingo, 27 de agosto de 2017

Crítica: Death Note (2017)


Hoje, depois de estudar cinema praticamente todos os dias há mais de 4 anos, tenho a enorme crença de que filmes ruins também tem sua relevância. Assistir a uma má obra, analisar o que ela se propõe a fazer, onde estão os erros e - mais importante - como esses erros são cometidos, é tão essencial quanto o estudo de uma obra-prima como, por exemplo, O Poderoso Chefão.

Porém, existe algo mais. Algo de masoquista, talvez, mas existe um genuíno prazer em assistir a um filme verdadeiramente ruim.

Prazer esse que transcende o aprendizado e atinge o fascínio. Não há nada que me fascine mais do que estar diante de uma obra audiovisual e pensar em como uma grande equipe de seres humanos - seres que amam, que riem, choram e sonham - se uniram em prol de uma enorme bagunça. Me pergunto onde foi a curva errada tomada que resultou nessa coisa. Reflito sobre a quantidade enorme dinheiro gasto, de horas perdidas e no fato de que ninguém parou por um segundo pra pensar "mano, talvez a gente esteja fazendo merda"

São bagunças completas que simplesmente me fascinam.

Esse não é o caso de nenhuma das quatro adaptações japonesas. Death Note, The Last Name e L: Change the World são ruins, sim, mas são filmes que sabem o que querem transmitir e são calculados com a precisão de um bisturi para atingir esses objetivos da forma mais genérica, segura, covarde e destituída de valor artístico ou emocional possível. Death Note: Iluminando um Novo Mundo até conseguiria me trazer algum fascínio se não fosse tão tedioso e desinteressado na sua própria história.

Então, visto que agora estou aqui pra falar da adaptação norte-americana de Death Note, dirigida por Adam Wingard e produzida pela Netflix, preciso responder em que patamar ela cai. É um ótimo filme? Um bom filme? Um filme ruim e sem-graça? Uma bagunça maravilhosa?

Death Note conta a história de Light Turner (Nat Wolff), um jovem solitário que mora com seu pai viúvo James Turner (Shea Wingham) desde que sua mãe fora morta por um criminoso que constantemente escapa da lei por meio de propinas e corrupção.

Em mais um dia típico na escola, Light faz as tarefas de casa dos colegas por dinheiro enquanto admira as líderes de torcida, vê um Death Note cair do céu e o pega, leva soco de um bully, vai pra detenção, dá chilique quando deparado com um Deus da Morte - em uma atuação memorável de Nat Wolff que, se o mundo for justo, será lembrada nas premiações (sim, é ironia) - decapita o bully que deu soco nele usando os poderes do caderno, chora muito, decide usar o caderno para vingar sua mãe fazendo com que o assassino enfie sem querer um garfo na garganta. Dia normal.

Sem qualquer razão aparente, Light decide confiar na recém-conhecida líder de torcida Mia Sutton (Margaret Qualley) e compartilhar com ela o fato de que ele tem um caderno no qual as pessoas cujos nomes são escritos em suas páginas morrem. Os dois, então, decidem matar criminosos do mundo todo e "mudar o mundo", até caírem na mira o "maior detetive do mundo" L (Lakeith Stanfield), que investiga os assassinatos ao lado do pai do protagonista e de seu mentor Watari (Paul Nakauchi).

Os roteiristas Charley Parlapanides, Vlas Parlapanides e Jeremy Slater diminuíram o número de personagens e elementos em relação ao mangá e às adaptações japonesas  - não há Olhos de Shinigami, Rem, Naomi Misora ou Raye Penber para introduzir e desenvolver. Em teoria, isso é bom pra manter o controle da história e se concentrar no que é de fato necessário. Na prática?

Mesmo operando com pouco, o roteiro tem furos descarados. As regras do Death Note também não fazem o menor sentido, como no grande momento no qual Light escreve o nome de Watari no Death Note e o manipula sabendo apenas seu primeiro nome (o que só faria sentido se Watari for de fato seu único nome, mais ou menos como McLovin). Além disso, o plano final do protagonista é uma ofensa tão grande à inteligência do espectador que eu não pude deixar de aplaudir.

Seus personagens são extremamente cativantes pelas piores razões possíveis. Light é divertidíssimo devido a sua cômica histeria e sua burrice preocupante. Mia é uma sociopata apática que manipula o protagonista de forma descarada (exatamente ao contrário do que ocorre no mangá) e L diverte muito por ser completamente diferente daquele que os fãs de Death Note amam: Ele é inteligente (aqui, significa tirar conclusões baseadas em absolutamente nada) e excêntrico e se senta com os pés em cima da cadeira, sim, mas também é um sujeito sentimental e emocionalmente desequilibrado, sendo o personagem mais genuinamente intrigante do filme. O Deus da Morte Ryuk (Jason Liles e voz de Willem Dafoe) pode ser superficialmente escrito e incoerente, mas ganha pontos não só pelo trabalho de voz ou pelo seu amor à ideia de um ataque de tubarão no banheiro, mas porque seu visual é, de longe, o ponto alto artístico do filme, e a escolha do diretor Adam Wingard de mostrá-lo quase sempre desfocado ao fundo com dois flares amarelos representando seus olhos é interessante.

No fim das contas, Death Note me fez gargalhar mais do que qualquer filme de comédia que eu consigo lembrar de ter visto esse ano todo. Se a sequência na qual Light se encontra com Ryuk pela primeira vez é histericamente ridícula, o filme dá conta de superá-la constantemente.

O assassino da mãe de Light morrendo no restaurante, as caretas de Light ao tirar fotos em um baile escolar, as mortes desnecessariamente violentas dignas dos piores filmes da série Premonição, tudo isso torna Death Note uma enorme joia que transcende as barreiras do tempo e fizeram com que seus 101 minutos de duração passassem como 5 minutos pra mim. Um grande mérito disso é a montagem de Louis Cioffi, que oferece um ritmo genuinamente dinâmico e essencial pro filme, nunca o deixando ficar arrastado.

Não sei se consegui traduzir em palavras esse sentimento, mas, pra mim, Death Note é um péssimo filme que me divertiu a cada segundo e que já me imagino revendo várias vezes. Não pra aprender, mas pra me presentear com um momento de paz e divertimento em meio ao cotidiano tão caótico.

Aliás, sinto que não é meu papel como um homem branco fazer qualquer comentário próprio sobre a questão do whitewashing em Death Note, então recomendo que assistam a isso aqui, que é apenas um dos vídeos do ótimo canal Yo Ban Boo sobre o assunto. Não é o único, então por favor vejam os outros.

Nota: 2/10

Crítica: Death Note: Iluminando um Novo Mundo (2016)


Essa é a quarta crítica da Retrospectiva Death Note. Você pode navegar para cada uma das críticas pelos links abaixo.


Em 2011, há 6 anos (que, olhando em retrospectiva, parecem 600), escrevi sobre a adaptação live-action do mangá Gantz. Ao referir-se ao seu diretor, Shinsuke Sato, fiz os seguintes elogios:

"[...] o diretor Shinsuke Sato apresenta aqui uma grande imaginação referente ao design das criaturas e demonstra-se bastante criativo, o que é um ponto alto do filme. É impressionante o design, por exemplo, do Alien Tanaka na 2ª missão, que causa estranhesa e ao mesmo tempo é cômico, medonho e perturbador. Sendo o primeiro filme que vejo do diretor, já tenho uma ótima primeira impressão dele.
Sua capacidade de causar suspense também é impressionante. Em várias cenas o filme fica tenso e causa uma sensação intencional de desconforto. E ele consegue fazer isso com um simples plano fechado na face estática de uma estátua, ou com um longo plano em um ambiente escuro, o que reforça o fato de Shinsuke Sato ser um ótimo diretor."

Ignorando o fato de que na época eu escrevia "estranhesa", com s, e não sabia exatamente até onde ia o mérito do diretor e onde começava o mérito de outros membros da equipe, me peguei rindo do fato de que em seu trabalho mais recente "Death Note: Iluminando um Novo Mundo", Sato erra em tudo o que elogiei ao falar sobre Gantz.

O que, pra ser sincero, não tem problema. Não temia a possibilidade de Iluminando um Novo Mundo ser ruim, mas sim a de ser genérico e sem-graça como seus antecessores. 

Meus pedidos foram parcialmente atendidos: Iluminando um Novo Mundo é ruim de modos que seus antecessores não conseguiriam ser, visto que são covardes e calculados para serem investimentos seguros. Porém, esse quarto filme consegue ser tão absolutamente desastroso - e nem ao menos tem a decência de divertir na sua desgraça - que me pergunto se vale a pena.

Argh, vamos lá. 


Roteirizado por Katsunari Mano, Death Note: Iluminando um Novo Mundo tem uma premissa que tive dificuldade de resumir sem parecer um completo idiota (aí percebi que, né, não importa):

10 anos depois dos acontecimentos de The Last Name o Rei Shinigami, encantado com os atos de Light Yagami (Tatsuya Fujiwara) ordena aos outros Deuses da Morte que encontrem o sucessor de Kira. Por isso, mais Death Notes são enviados ao nosso mundo, causando novas mortes misteriosas. 

Entra em ação então a Força Tarefa Death Note, liderada pelo detetive Tsukuru Mishima (Masahiro Higashide) e que conta também com Ryuzaki (Sosuke Ikematsu), sucessor e clone genético de L (eu juro que não estou zoando) que, devido a sua personalidade imprevisível e excêntrica, não soa confiável. Enquanto isso, um cyber-terrorista chamado Yuki Shien (Masaki Suda) acredita que Light está vivo e lhe deu a missão de juntar todos os 6 Death Notes (número limite de cadernos da morte que podem coexistir na Terra). Para isso, ele cria um vírus virtual que se espalha por aparelhos eletrônicos e mandam uma mensagem de Light. 

A sinopse que escrevi não me agrada, visto que não consegui colocar em palavras a bagunça infinita que é o roteiro de Iluminando um Novo Mundo. 

Suas cenas parecem não ter qualquer relação uma com a outra, os personagens não tem qualquer resquício de motivação ou personalidade e os 135 minutos de projeção não representam nada além de perda de tempo. O roteiro não parece ter qualquer interesse em nenhum de seus personagens. Por exemplo, o médico russo Roger Irving (Sergey Kuvaev) é o primeiro personagem que vemos, e ele nos é apresentado de maneira competente, usando o Death Note para a eutanásia de pacientes em estado terminal e, posteriormente, para matar jovens em fóruns de suicídio. Porém, ele simplesmente desaparece do filme e, depois de sua introdução, ele é brevemente citado como uma vítima de Shien e esquecido pra sempre.

Em menos de vinte minutos, o filme parece ter chegado ao seu clímax em uma sequência genuinamente tensa e bem dirigida de um massacre no meio da cidade, causada pela adolescente Sakura Aoi (Rina Kawaei). Dotada de um Death Note e dos Olhos de Shinigami, a garota apenas anda pelas ruas matando todos que estão à sua frente. Então, em menos de cinco minutos depois de sua introdução, a personagem tem seu fim e some pra sempre, e o filme parece apenas se arrastar sem qualquer força vital ou rumo.

Além disso, Katsunari Mano não se preocupa em estabelecer qualquer linha investigativa coerente, tornando o jogo entre a Força-Tarefa e Shien um jogo de deduções gratuitas, longas sequências de exposição e excentricidades absurdas. Preciso destacar aqui a atuação de Sosuke Ikematsu, que vive o clone de L com um overacting de dar vergonha. 

Eu honestamente não sei o que falar. Death Note: Iluminando um Novo Mundo é tão destituído de qualquer proveito que sinto que a cada segundo que penso nesse filme uma parte de mim morre.

Nota: 0/10


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Crítica: A Torre Negra



Stephen King é um autor cujas obras constantemente são adaptadas para o cinema. Rendendo tanto excelentes filmes (“À Espera de Um Milagre”, “Salem’s Lot”, “O Nevoeiro”, “O Iluminado”), quanto porcarias colossais (“O Apanhador de Sonhos”, “Colheita Maldita”, “Fenda no Tempo”, “The Tommy Knockers”). A sua obra máxima, “A Torre Negra”, é uma saga de sete livros que mistura faroeste, terror, fantasia, metalinguagem. A expectativa dos fãs para uma eventual obra cinematográfica era altíssima.

O filme chegou dirigido por Nikolaj Arcel. E acompanha Jake Chambers (Tom Taylor), jovem que tem constantes sonhos com figuras como um Pistoleiro/Roland Deschain (Idris Elba), o Homem de Preto/Walter O’Dim/Randall Flagg (Matthew McConaughey) e uma Torre Negra. Logo, ele perceberá que tais sonhos são meros reflexos da realidade. E se verá dentro de uma batalha que bota o destino de seu mundo (e de muitos outros) em jogo.

Deixando claro para quem lê: sou fã da saga literária. Conheço o universo, mas me aterei ao filme. Dito isso: “A Torre Negra” é um longa-metragem que não sabe a quem direcionar seu conteúdo.



A história apresentada não segue de fato qualquer um dos sete livros, mas sim cria uma nova que mistura elementos dos sete livros (e como a Corneta de Eld guardada com o Pistoleiro indica, o filme é uma continuação dos livros). O que pode ser muito interessante para apresentar um novo espectador ao universo que os fãs já conhecem. No entanto, é curioso perceber como que o filme não é muito didático em apresentar a mitologia aos não iniciados. Um exemplo claro, são as motivações dos personagens principais: O Pistoleiro e O Homem de Preto. Fica claro que há um conflito antigo entre os dois, no entanto o filme oferece meras pistas que se não se conhece os livros, não se entende o que significa. Ou então, para quem o Homem de Preto trabalha (existem pequenas menções ao Rei Rubro, mas elas não ultrapassam o campo de referências).

Importante dizer, que mesmo não seguindo fielmente um arco de histórias da saga, o filme consegue transpor a mitologia com competência. Constantemente há algum elemento em cena que remete aos livros (a presença do número 19, a menção do envolvimento do Homem de Preto com a mãe do Pistoleiro), além de referências que remetem a passagens que só os fãs do livro entenderão (a pichação com rosas, um certo personagem que é quase atropelado ou que quase caí de um penhasco-algo que ocorre com ele no livro, o smiley deixado na parede pelo Homem de Preto que remete ao livro “The Stand”). Ou então, referências explícitas a obras como "It", "Misery", "Cujo", "Christine", "O Iluminado", que deixam muito claro ao espectador que se trata de um universo de autor. Não falo por todos os fãs, mas mesmo não sendo fiel a uma narrativa específica da saga, “A Torre Negra” me agradou muito com o cuidado em transpor elementos do livro (além da história nova possuir o espírito da saga).

Visualmente falando, o filme é interessante. O universo apresentado exibe uma mistura de western, sci-fi steampunk, fantasia medieval. Assim, exibindo um contraste interessante dos personagens (enquanto o Pistoleiro exibe elementos mais terrenos, o Homem de Preto demonstra habilidades mágicas. O embate do homem primitivo e da força sobrenatural/divina com tecnologia), e apresentando uma diversidade de paisagens.




Válido dizer que o elenco é excelente. Idris Elba encarna o Pistoleiro com muita sutileza (um ator que diz muito mais com os olhos do que com falas), passando bem a imagem de um homem que carregava uma missão nobre mas que por conta de traumas, deixou de lado (se limitando a sobreviver). O jovem intérprete de Jake Chambers consegue segurar bem o filme com seu misto de confusão e espanto ao se deparar com aquele mundo novo. 

Mas o verdadeiro destaque, é Matthew McConaughey. Seu Homem de Preto é um misto de cinismo, sadismo, arrogância, vaidade e tédio. Um ser poderoso e dotado de grande autoridade entre as forças malignas (perceba a reverência com a qual o clube em NY o recebe), com verdadeiro prazer em influenciar negativamente os mortais (repare no sorriso que surge em seu rosto, quando ele dita que alguém “pare de respirar”), mas que exibe uma genuína decepção em ser um mero lacaio de um ser mais temido do que ele (O Rei Rubro).



O filme não é perfeito. A censura de 14 anos incomoda por limitar as possibilidades narrativas, perceba como que todas as vezes que o Homem de Preto queima alguém, a câmera jamais mostra ou como os tiros do Pistoleiro matam mas não há sangue nos corpos. Outro sério problema, é o design das criaturas. Nenhuma delas se destaca, todas parecem remanescentes de outros filmes (assim como os guerreiros que atacam a vila mais ao final do filme, que parecem sobras dos Imortais de “300”). Mas o maior problema do filme, encontra-se na duração. Apenas 95 minutos para apresentar uma saga como essa, é um pecado. Além disso, uma breve olhada nos trailers revela que muitas cenas foram cortadas da versão final. O que é sempre um péssimo sinal, visto que poderia se explorar melhor o mundo fantástico apresentado.

Mas confesso: com o surgimento das críticas americanas malhando o filme e a possibilidade da adaptação ser horrível, fiquei muito surpreso com “A Torre Negra”. Mesmo não sendo uma adaptação fiel à uma narrativa da saga específica, ela é um bom guia para os que querem conhecer o universo e a mitologia do universo criado por Stephen King. Que venham continuações que tracem melhor os caminhos narrativos, e que a saga do Pistoleiro perseguindo o Homem de Preto possa seguir o caminho da imortalidade.

Nota: 7,5

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Crítica: L: Change the World (2008)


Essa é a terceira crítica da Retrospectiva Death Note. Você pode navegar para cada uma das críticas pelos links abaixo.


No final de Death Note 2: The Last Name, é revelado que L (Kenichi Matsuyama) escreveu o próprio nome no Death Note, especificando que morreria tranquilamente de um ataque cardíaco em 23 dias. L: Change the World, mostra essas cenas finais sobre o ponto de vista do detetive antes de seguir com seu próprio enredo, agora completamente livre do mangá original.

Em suas últimas semanas de vida, L está resolvendo diversos casos globais até que se depara com uma organização bioterrorista que pretende realizar uma limpeza no planeta usando um vírus contagioso e letal, para erradicar os seres humanos e impedir futuros danos aos ecossistemas da Terra. L, então, toma em sua guarda uma criança sem nome (Narushi Fukuda) imune ao vírus e também a garotinha Maki Nikaido (Mayuko Fukuda), filha de um cientista que pesquisava a arma biológica. Enquanto são perseguidos, os três precisam encontrar um modo de impedir os terroristas antes que os dias de L acabem.

Pela sinopse, dá pra perceber que esse filme se desprende totalmente da premissa de Death Note. Além das referências a The Last Name no início da projeção, não há qualquer elemento sobrenatural na trama de Change the World.

Além dessa mudança completa de tom, o diretor dos filmes anteriores Shusuke Kaneko, assim como o roteirista Tetsuya Oishi, não estão envolvidos nesse projeto. Se nas críticas anteriores apontei a ausência de personalidade da escrita e da direção (além de inúmeros outros problemas), essa seria a oportunidade de realizar algo diferente. Principalmente dado ao fato de que L: Change the World é dirigido por ninguém menos que Hideo Nakata, diretor de filmes de suspense excelentes e cultuados como Ring: O Chamado (1998), e Água Negra (2002).

Então, imaginem minha surpresa quando acabei de assistir a esse filme e vi que é péssimo.

Os roteiristas Hirotoshi Kobayashi e Kiyomi Fujii, junto com o diretor Hideo Nakata, realizam aqui o que não passa de um enorme fanservice para os fãs do personagem L (provavelmente o personagem mais gostado de Death Note pelo público, incluindo até a mim),  se comprometendo a mostrar um lado "humano" e "profundo" do personagem sem ter qualquer ideia de como fazê-lo. Se, por um lado, é tocante ver o gesto de L ao consolar Maki pela morte de seu pai, logo depois o filme nos mostra um flashback desnecessário (duvidando da inteligência do espectador) que revela que o gesto, na verdade, teve o intuito de medir a temperatura da garota - informação relevante para o andamento da narrativa.

E são momentos assim que evidenciam como essa trilogia como um todo desconhece o conceito de sutileza. A todo momento, o desenvolvimento de personagens é colocado em detrimento do desenvolvimento da narrativa - o que, em si, não é um problema, mas o público precisa efetivamente se importar com o que está na tela pra ter um mínimo envolvimento emocional.

L: Change the World, mais descaradamente do que os antecessores, aposta no fato de que o público terá um envolvimento não pelo personagem nas telas, mas sim pelo personagem do anime/mangá. Mesmo os pontuais esforços em estabelecer algo mais em L - como o momento em que Maki o convence a corrigir sua postura - se mostram preguiçosos e sem qualquer impacto em seu arco dramático.

E se inicialmente elogiei a atuação de Kenichi Matsuyama, aqui sou obrigado a admitir que os maneirismos do personagem não funcionam para um protagonista em um filme de inchadíssimos 129 minutos. Os gestos, a partir de um tempo, parecem forçados, e vemos que o ator também não tenta - seja por opção ou por instrução - trazer nada novo.

Errando forte no tom da narrativa - que ora tenta ser um suspense investigativo, ora parece tentar ser um filme de ação, Hideo Nakata falha em conceber qualquer emoção possível para o filme, seguindo quase que religiosamente a estrutura de novela japonesa de Shusuke Kaneko em uma trama previsível e formulaica que tem menos atrativos ainda do que os dois anteriores.

Nota: 3/10

Eis que chegamos ao fim da trilogia Death Note. Foi uma viagem intensa por três filmes completamente estéreis, mas finalmente acabou, não é?

Oi? Fizeram um quarto filme? Oito anos depois?