domingo, 6 de agosto de 2017

Crítica: Dunkirk



Christopher Nolan é um diretor que sempre exibe ambição em seus projetos. Iniciando com "Amnésia" (um filme que conta uma narrativa ao contrário), passando pela trilogia "Batman" (abordando o Homem-Morcego com realismo), e culminando no cinema espetáculo de "A Origem" (que aborda a mente humana) e "Interestelar" (sua homenagem à sua maior influência, Kubrick e "2001: Uma Odisseia no Espaço"). Nessa tendência de buscar superar a escala do filme anterior, era nítido que em algum momento Nolan abordaria a Segunda Guerra Mundial.

O filme aborda a evacuação dos soldados britânicos de Dunkirk, mostrando três pontos de vista distintos: soldados que passam uma semana tentando ao menos sair da praia, o dia de um pai (Mark Rylance) e um filho que vão com uma embarcação pequena resgatar soldados da praia e uma hora de um piloto (Tom Hardy) que precisa abater os aviões que bombardeiam os navios de resgate e soldados britânicos. O filme investe numa narrativa não linear, fazendo com que (assim como em "A Origem") o clímax de cada uma das histórias culmine no mesmo instante.

Nolan nunca foi um diretor que escondia suas influências cinematográficas, no entanto "Dunkirk" é o filme nos quais elas mais transparecem ao espectador mais atentos. Alusões ao cinema de David Lean ("A Ponte do Rio Kwai"), Stanley Kubrick ("Glória Feita de Sangue"), Louis Malle ("Os Meninos"). No entanto, é visível que a maior delas é o filme de guerra intimista "Além da Linha Vermelha", de Terrence Malick. Um filme que apesar de ter um período histórico muito específico, é muito mais uma reflexão sobre a natureza de todas as guerras. Não tendo heróis, vilões ou covardes. Apenas vítimas de um monstro maior que todos eles.



Apostando num roteiro econômico nos diálogos, "Dunkirk" tem seus momentos mais brilhantes quando retrata a sobrevivência como uma linguagem silenciosa capaz unir pessoas pessoas que não falam o mesmo idioma (o momento no qual os dois soldados resolvem carregar uma maca, apenas para poderem se infiltrar no navio que voltará para Inglaterra). O problema, é que em certos momentos essa abordagem é quebrada por fins de didatismo (o personagem de Kenneth Brannagh que explica toda a natureza do conflito a um subalterno) e outros nos quais é subestimada a inteligência do espectador (o infame momento no qual um navio afunda, óleo se espalha no mar e um dos personagens grita "ÓLEO!! ESTÁ NA ÁGUA").

Outro problema presente em "Dunkirk", é a falta de conexão entre a audiência e os personagens. A proposta do filme certamente não permitia um aprofundamento maior nos personagens (todos os personagens tem apenas uma meta: sobreviver. Não há motivação maior que essa numa narrativa), no entanto o impacto de inúmeras cenas seria maior se um pouco mais houvesse sido investido no desenvolvimento dos personagens. Os únicos que possuem um arco, são o pai e filho que resolvem resgatar sobreviventes em sua pequena embarcação (o clássico tema do menino que se torna um homem).

O longa é uma aula de como construir tensão. Pois o que os espectadores e os personagens logo aprendem, é que na guerra todos são vítimas e não existe local sem perigo. Constantemente os personagens se veem fugindo de tiros e explosões, encontrando aparente refúgio em barcos de fuga (nos quais, enfermeiras, voluntários aguardam com chá e torradas e garantem que tudo ficará bem dali pra frente), apenas para se verem sendo atacados de novo e vendo seus salvadores morrendo.



Mais um aspecto digno de nota, é a trilha sonora de Hans Zimmer. O compositor realiza um dos seus melhores trabalhos, sua música é praticamente um personagem no filme. Utilizando os tiques de um relógio de bolso como um constante alerta de um vindouro ataque (não é a toa que no momento no qual os sobreviventes chegam na Inglaterra, o relógio jamais é ouvido novamente), fazendo com que a tensão seja respirada tanto pelos personagens quanto pelos espectadores.

É impossível negar, "Dunkirk" é um filme tecnicamente espetacular. Uma mistura de beleza (repare como Nolan permite um momento lúdico quase surreal: os avisos dos alemães caindo dos céus sobre os soldados britânicos), brutalidade e reflexão. Só uma pena que por conta da falta de desenvolvimento de personagens, por vezes parece que o espectador está num simulador de Segunda Guerra. E não conferindo uma narrativa sobre o conflito.

Nota: 8
Ps: com todo respeito, mas que palhaçada esse destaque que alguns estão dando à atuação de Harry Styles. Ele não atua mal, mas compara-lo com Heath Ledger e seu Coringa em "O Cavaleiro das Trevas", é uma blasfêmia.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Crítica: Em Ritmo de Fuga (Baby Driver)



Diretor da trilogia do Cornetto ("Shaun of the Dead", "Hot Fuzz" e "The World's End") e de "Scott Pilgrim Contra o Mundo" (além de ter participado da concepção dos roteiros de "As Aventuras de Tintim" e "Homem-Formiga), Edgar Wright é um diretor assumidamente cinéfilo. Todos os seus filmes refletem suas influências cinematográficas, conseguindo ainda criar algo novo (seja no filme de zumbi, no filme policial ou até nos filmes de games). 

Seu mais novo filme, "Baby Driver" (vou ignorar o título "Em Ritmo de Fuga"), é a prova viva disso. Claramente influenciado por filmes como "The Driver" (clássico de Walter Hill de 78), "Drive" (o ótimo filme estrelado por Ryan Gosling) e "Fogo Contra Fogo" (o melhor filme de assalto já feito), o longa consegue ir além do mote do piloto de fuga que é o melhor no que faz e entrega uma trama recheada de surpresas. Sem falar na marca registrada do diretor, a mixagem de som e a edição que praticamente elevam o humor a uma nova categoria.

A trama companha um piloto chamado Baby (Ansel Elgort), que é piloto de fuga para um chefão do crime (Kevin Spacey) que organiza assaltos com diferentes equipes (Jamie Foxx, Jon Hamm, Eiza Gonzalez, Jon Bernthal). Baby sempre realiza suas fugas ouvindo músicas específicas no seu I-Pod (além das músicas ajudarem-no a realizar melhor suas fugas, também abafa o zunido que possui em sua audição, causado por um acidente na infância), e sempre consegue escapar da polícia. No entanto, tudo fica mais difícil quando se envolve com uma garçonete chamada Debora (Lily James).

Como vocês podem ter notado, a trama principal não tem nada de original. No entanto, o que o roteiro de Edgar Wright adiciona mesmo nessa trama já batida, é o envolvimento musical. Toda a trilha sonora do filme é ouvida pelo protagonista, todas as cenas de ação foram escritas ritmadas com as respectivas músicas (os atores revelaram em entrevistas, que o diretor enviou anexado ao roteiro uma playlist para ouvirem enquanto liam certas passagens). Além de adicionar ritmo ao filme (em momento algum o espectador fica entediado), confere um tom musical completamente inesperado. É como se o espectador assistisse um musical de ação.



Outro aspecto digno de nota do roteiro, são os diálogos. Edgar Wright sempre exibiu em seus projetos uma característica marcante nos roteiros do seu mentor (e amigo) Quentin Tarantino: diálogos engraçados e divertidos, que subitamente se tornam tensos. Constantemente o espectador se vê rindo bastante, e de repente toda a cena exibe um perigo latente para os personagens. Uma conversa trivial sobre como gasta-se dinheiro em coisas fúteis, pode subitamente transformar-se num tiroteio (e considerando que com exceção de Baby e Debora, todos os outros personagens são criminosos e assassinos armado, isso é algo preocupante).

Essa tensão não seria possível, se o roteiro não desenvolvesse bem seus personagens. Todos eles (seja o par principal ou os coadjuvantes) exibem características marcantes. Repare Buddy (Jon Hamm, o eterno protagonista da série Mad Men) e Darling (Eiza Gonzalez): é um casal criminoso que tem verdadeiro prazer em realizar suas atividades, são completamente apaixonados um pelo outro, são absolutamente tranquilos com as missões (e diferente de outros criminosos que participam dos assaltos, adoram Baby). No entanto, basta alguém ameaçar o status quo criado por eles (seja ofendendo um deles, arriscando a missão ao improvisar ou até mesmo querendo saber mais sobre seus respectivos passados), para dispararem balas. Outro coadjuvante interessante, é Bats (Jamie Foxx). Que desde sua primeira aparição em tela, aparenta ser alguém instável e perigoso. No entanto, o roteiro deixa muito claro ao espectador, que o personagem é tão ameaçador que quase chega a ser engraçado (repare a cena na qual ele puxa um revólver para executar uma garçonete que não o respondeu corretamente).

Claro que o verdadeiro destaque, é o protagonista título. Baby é um personagem complexo (apesar de não sermos apresentados todos os detalhes sobre seu acidente, compreendemos tudo que este implicou em sua vida), incrivelmente carismático (poucas vezes somos apresentados a um protagonista que na primeira cena em que surge, faz algo tão bobo e ao mesmo tempo tão próximo do espectador) e ao mesmo tempo tão discreto (Ansel Elgort consegue dizer muito falando pouco, apenas com olhares, expressões e gestos. Algo que só se ressalta ao ser mostrada sua relação com seu padrasto). 



No entanto, o grande destaque do filme são as cenas de ação (envolvendo carros ou não). Todas são coreografadas como uma dança, todas são elegantes, todas passam perigo e ainda são incrivelmente originais. Fazendo jus aos filmes que inspiraram as perseguições presentes aqui ("Viver e Morrer em L.A", "Bullit", "Operação França").

Outro aspecto muito legal do filme, é a musicalidade. A trilha sonora é espetacular (procure no Spotify), passando o sentimento perfeito que cada cena precisa. Seja o 1o assalto ao som de Belbottoms ou a música nostálgica cantada por Sky Ferreira. Além disso, o filme apresenta-se como um musical informal. Assim, os movimentos feitos pelos assaltantes ao entrarem no banco, o trajeto de Baby na 1a entrega de café, os tiros disparados, tudo parece incrivelmente coreografo como num grande musical. Além disso, os efeitos sonoros e os cortes da edição muitas vezes são um auxílio narrativo para humor ou tensão (repare como um personagem diz a Baby que ele irá subir na vida, e ao mesmo tempo ouvimos o som do elevador subindo).

Como você deve ter reparado, gostei muito de "Baby Driver". Por mais que eu já esperasse um bom filme por ser fã do diretor, não estava esperando ser tão surpreendido como fui. A grande verdade é que crítica alguma reflete a experiencia que é assistir a este filme (quantas vezes vemos um elenco tão bom auxiliado por uma direção e roteiro tão impecáveis?). Corra para o cinema com o melhor som possível e aproveite a experiência.

Nota: 10

domingo, 9 de julho de 2017

Crítica: Homem-Aranha De Volta ao Lar


Após 5 produções, a Sony resolveu ceder os direitos do Homem-Aranha ao Marvel Studios, numa parceria na qual o cabeça de teia seria enfim integrado ao universo cinematográfico de personagens como Homem de Ferro e Capitão América. Desde o anúncio deste novo filme, foram prometidos: um protagonista que de fato está no colegial (assim, ele tem 15 anos e o ator tem idade próxima a isso), uma trama e lutas muito mais contidas (a megalomania dos 5 filmes anteriores seria deixada de lado) e um tom muito mais leve para as aventuras de Peter Parker (sem aquele peso presente nas encarnações do herói de Tobey Maguire e Andrew Garfield).

A história acompanha o jovem Peter Parker (Tom Holland), que sendo um jovem de 15 anos que ainda se encontra no colegial, mantém-se impressionado com sua  breve parceria com Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr) em "Guerra Civil". Assim, ele constantemente se vê ambicionando missões maiores do que simplesmente retirar o gato da árvore ou ajudar senhoras a atravessar a rua. O que culmina com a aparição de um criminoso intitulado de Abutre (Michael Keaton).

Sinto em ser aquele que dará um banho de água fria, mas achei esse novo filme do Homem-Aranha muito bobinho. Sabe aquela história de muitas críticas iniciais que diziam "É O MELHOR FILME DO HOMEM-ARANHA JÁ FEITO"? Acho que todos elas foram escritas por pessoas antecipadas demais. Falarei mais disso abaixo.




Pra começar, beleza. Eu entendo que a proposta do filme era fazer uma trama mais adolescente, contida e por quê não, mais inocente. No entanto, ser adolescente não significa que a trama tenha que ser boba e tonta. Tomemos por exemplo o bully de Peter Parker, Flash Thompson. Toda vez que ele vai zoar e atormentar o jovem Peter Parker, ele se limita a proferir frases como "Haha, Pênis Parker", ou então a ficar bravo porque ele não soube responder a pergunta que Parker soube (basicamente, Flash quer ser o gênio que Peter é). Grande bully, hein (o coitado chega a ser dj)? Faz o velhinho do Up parecer ameaçador.

Ou então, beleza. Entendo que eles queiram dar destaque para personagens que virão ser desenvolvidos nos próximos filmes, mas toda vez que Michelle (Zendaya) faz um de seus comentários, ela não parece uma jovem inteligente com comentários sarcásticos e engraçados. Ela só parece chata mesmo. É triste dizer isso, mas não somente as piadas da personagem são ruins. Esse é o filme da Marvel no qual as piadas mais soam forçadas. E sim, nisso estou comparando com o péssimo "Homem de Ferro 3".

Sem querer dar spoilers, outro sério problema que enxergo no filme é o fato de todos os momentos no quais civis estão em perigo, terem sido causados pelo próprio Homem-Aranha. Por mais que o vilão seja uma ameaça com um certo grau de perigo, diretamente ele não chega a ameaçar pessoas em suas ações. Ele é um ladrão equipado com tecnologia de ponta. Já o protagonista, sempre quer resolver a situação do seu jeito (levando em conta que é um adolescente, ou seja: completamente desajeitado, faz tudo errado, não pensa duas vezes) e acaba estragando tudo (como na cena da balsa). Eu entendo a intenção dos roteiristas em dizer que ele ainda é um herói em treinamento, mas precisava usar isso em todas as cenas que o herói age?





Falando nelas, eu sinto desapontar mas este é o filme da franquia com menos cenas de ação inspiradas. Apesar do uniforme do Homem-Aranha ser belíssimo, e até mesmo os equipamentos do Abutre serem interessantes (distantes do visual dos quadrinhos, mas incrivelmente funcional), os confrontos entre os dois são no mínimo preguiçosos. Uma leve comparação pra vocês entenderem: "Esquadrão Suicida" é um filme com cenas de ação melhores e mais elaboradas (e sempre lembrando, que até nisso o filme da DC conseguiu falhar).

No entanto, o filme não só possui erros. A começar pelo elenco, que é competente. Ainda não sei dizer se Tom Holland é o melhor Homem-Aranha, no entanto ele é o ator que encarna Peter Parker com mais naturalidade. Por uma simples diferença aos outros dois intérpretes anteriores do herói: ele é um jovem na faixa etária do personagem. A empolgação que ele transparece sempre parece genuína, e o misto de inocência só contribui para acreditarmos na figura do personagem (reparem como ele reage ao ver uma arma com um poder inacreditável: se esquecendo completamente que aquele vilão quer utilizar o poder desta para destruí-lo). Além disso, os momentos nos quais precisa demonstrar uma certa fragilidade (o momento dos escombros) convencem.

Os coadjuvantes também são interessantes. A química estabelecida entre Peter e Ned (Jacob Batalon) é sensacional, as participações especiais de Tony Stark (Robert Downey Jr) e Happy Hogan (Jon Favreau) são econômicas e divertidas. O mesmo não pode ser dito da participação da Tia May (Marisa Tomei). Sua personagem até transparece uma preocupação com seu sobrinho, mas o roteiro só a usa como "a tia gostosa". Percebam que todos os personagens masculinos que interagem com ela no filme, quando a veem parecem ativar um "modo pedreiro". Gente que dá comida de graça, gente que faz comentários sobre ela ser demais (até o melhor amigo de Peter que tem 15 anos). Cheguei a temer que em algum momento, um caminhão passasse ao lado dela e desse uma buzinada.


Mas de todos os nomes envolvidos, quem realmente se destaca é Michael Keaton. O ator consegue pegar um personagem que não possui longos monólogos ou que seja excêntrico (afinal, vilões de quadrinhos sempre acabam se restringindo a isso), e cria uma figura no mínimo realista. Toomes jamais se auto-intitula "abutre", não usa uniforme espalhafatoso para assaltar bancos ou ameaçar pessoas e inspirar medo. É simplesmente um traje com as ferramentas necessárias para transportar os materiais que ele precisa e garantir a segurança dos seus negócios. Além disso, o roteiro inúmeras vezes deixa claro que ele não quer dominar o mundo. Mas sim, conseguir o dinheiro necessário para sustentar os seus entes queridos (fazendo um paralelo interessante com Tony Stark, "Por que quando ele vende armas para assassinos, ninguém o confronta?"). Apesar disso, em todo momento no qual ameaça alguém o tom nas falas do ator sempre soa ameaçador e perigoso (sempre levando em conta, que ele foi o Batman e Beetlejuice). O que o difere do péssimo Barão Zemo (Daniel Brühl) de "Guerra Civil". Que no final das contas, era só um pobre coitado. O "Abutre" de Michael Keaton, é um vilão que não quer ser vilão. Mas que sendo necessário, o fará com toda violência possível (não é a toa, que muitos o estão comparando ao Tony Soprano interpretado por James Gandolfini, na sensacional série "Família Soprano").

Como vocês já devem ter percebido, eu não achei o novo Homem-Aranha um filme tão bacana assim. Não sei se por conta da expectativa da Marvel trazer para si seu filho favorito, ou se o fato de ser um filme do personagem sempre ser um filme evento (com efeitos especiais fantásticos, cenas de ação espetaculares, bom humor). Mas achei um filme muito bobinho e muito aquém da qualidade Marvel. Que por mais que não sejam meus filmes de super-heróis favoritos (prefiro o tom sério e "realista" da Dc), sempre conseguiam entregar um produto competente. No caso de "Homem-Aranha: De Volta ao Lar", o resultado foi um filme pelo menos esquecível.

Nota: 6,5

Ps: farei um comentário com spoilers referentes ao final do filme, se você quiser ler sublinhe abaixo:
Por que o Abutre não entrega a identidade do Homem-Aranha quando é preso? O cara destruiu sua vida, o fez ir pra cadeia, acabou com o sustento de sua família. MAS NÃO: vou guardar a identidade pra mim porque ele salvou minha vida. Que bullshit.

sábado, 1 de julho de 2017

Filmes Assistidos de Janeiro a Junho

Como alguns de vocês devem ter percebido, o número de críticas diminuiu bastante nos últimos meses. Isso se deve pelas atividades da faculdade (eu estava no final do semestre, então estou escrevendo este post num respiro de tempo). No entanto, para não deixar o espaço aqui vazio, resolvi fazer algo diferente. Este post reunirá todos os filmes lançados em 2017 no Brasil que pude assistir (de janeiro a junho), com alguns pequenos comentários e a devida nota.

Okja-Dirigido por Boon Joon Ho: 7,5
Novo filme do diretor de "O Hospedeiro" e "Snowpiercer" exibe as mesmas qualidades dos anteriores (o contexto familiar, a fábula com comentário social, o humor estranho), no entanto é o longa mais irregular de sua filmografia. Se em certos momentos, existe uma clara tentativa de fazer uma fantasia com comentários sociais, por outras flerta também com comédia (o personagem de Jake Gylehall é completamente destoante do resto do elenco, afetado e forçando uma fisicalidade que parece emular o Ace Ventura) e com o terror (a cena na qual é mostrada a perspectiva de Okja dentro do armazém). A mescla de gêneros não funcionou muito bem aqui. No entanto, os efeitos especiais, a relação entre a criatura e a menina, a atuação de Paul Dano e Tilda Swinton e a triste mensagem salvam o filme.




Assassin's Creed-Dirigido por Justin Kurzel: 4
Adaptação de game segue a linha das tentativas de se transpor games pro cinema, e falha miseravelmente. Mesmo com um excelente diretor e um elenco carismático, "Assassin's Creed" possui um roteiro medíocre, cenas de ação pouco inspiradas e além de tudo é incrivelmente entediante. No mínimo, imperdoável para um filme baseado num jogo de ação tão bem feito. Para saber mais sobre ele, leia a crítica.




A Lei da Noite- Dirigido por Ben Affleck: 8
Novo filme de Ben Affleck, tem ambição exacerbada. Fazendo um longa que consegue ser uma mescla entre "Scarface" (o de 1933, não o remake de Brian De Palma) e "O Aviador". Contando a história de um homem que por conta de uma motivação pífia, ergue um império criminoso (que se mescla com a própria industrialização e riqueza dos Eua). Uma pena que o protagonista seja tão apático, ainda mais se considerarmos a grandeza e escala do filme.




John Wick: Um Novo Dia Para Matar-  Dirigido por Chad Stahelski: 9
O 1o John Wick foi uma surpresa. Um filme de ação com um protagonista moldado a partir dos papéis anteriores de seu intérprete (Keanu Reeves, que tem toda uma carreira com artes marciais além de "Matrix"), que construía uma trama completamente absurda mas ao mesmo tempo divertidíssima. Mesclando ainda, excelentes sequências de ação e uma mitologia interessante. A continuação não é diferente, eleva tudo que foi apresentado no filme anterior à enésima potência. Quase que um musical de ação, "John Wick: Um Novo Dia Para Matar" só não é mais perfeito por conta do seu cliffhanger. Que torna insuportável a espera para o terceiro filme.


A Múmia- Dirigido por Alex Kurtzman: 5
Quando foi anunciado um novo "A Múmia", poucas pessoas botaram fé. Por mais que fosse estrelado por Tom Cruise (que goste ou não, tem feito blockbusters bons) e Sofia Boutella (uma das surpresas de "Kingsman"), havia um consentimento de que o remake do remake fosse fracassar. Dito e feito, o filme é simplesmente irregular. Além de possuir uma trama cheia de furos, visualmente ser completamente desinteressante (perceba como que todos os mortos-vivos são idênticos), o filme ainda é entediante. Digam o que quiserem de "A Múmia" estrelado por Brendan Fraisier, mas chato não era.



Rei Arthur-Dirigido por Guy Ritchie: 6
Guy Ritchie é um diretor curioso. A proposta dos seus filmes mais recentes demonstram uma clara tentativa de reinventar sua carreira, afinal: o que Sherlock Holmes poderia ter de similar aos gangsteres de "Snatch"? No entanto, seja no filme do detetive ou em "O Agente da U.N.C.L.E", o diretor britânico parece sempre retornar aos bandidos cockneys característicos de seus filmes iniciais. Em "Rei Arthur" isso não é diferente. É mostrado um Arthur malandro, cavaleiros da tábula redonda que utilizam jargões de gangues modernas. O bizarro, é que além dessa visão "moderna", o diretor ainda incluiu: batalhas a lá "Senhor dos Anéis" (lembra dos Olifantes?), criaturas que parecem ter saído da ilha de "King Kong", sequências em slow motion que parecem saídas de um clipe de banda de metal de segunda. Ou seja, uma grande salada que não faz o menor sentido. Existem casos que imperdoavelmente alguns filmes são fracassos de bilheteria. Assistindo a "Rei Arthur", dá pra entender perfeitamente o motivo.


Silêncio- Dirigido por Martin Scorsese: 10
Um tema recorrente na filmografia de Martin Scorsese, é o contraste da fé e da violência exercida pela exacerbação desta. Nisso incluem-se tanto os mafiosos de "Os Bons Companheiros" e "Cassino" com seus códigos de honra, o corretor de "O Lobo de Wall Street" e o dinheiro e até mesmo Jesus e o seu medo de morrer na sua missão de salvar a humanidade em "A Última Tentação de Cristo". O último filme do italo-americano, "Silêncio", não é diferente. Mostrando a missão de dois padres jesuítas (Andrew Garfield e Adam Driver), em ir ao Japão resgatar um antigo mentor (Liam Neeson), que parece ter sido convertido ao budismo e renunciado a fé cristã. Além dos paralelos claros com "Apocalypse Now" (a viagem ao inferno ao tentar procurar um antigo mentor), o filme estabelece uma discussão muito interessante: o que define a fé, a sua manifestação dela ou a sua mera crença íntima? A resposta, encontra-se no título. Que também define à resposta de Deus diante toda a violência e injustiça presentes no mundo.



Internet O Filme- Dirigido por Fillipo Capuzzi Lapietra: 1
Eu não sei porque vi este filme, estava ali na Netflix e pensei que talvez eu estivesse sendo preconceituoso. Aí resolvi conferir. Eu devia ter me mantido nos meus preceitos anteriores: "Internet O Filme" é ofensivo (um dos segmentos do filme, mostra uma competição: quem pegar a menina gorda e negra, leva o prêmio), estúpido (piada com pum, piada com pinto) e sem graça. Se por um lado, uma merda de filme, por outro um retrato bastante coerente do que é essa idolatria por Youtubers.



Fragmentado- Dirigido por M. Night Shyamalan: 8
Após um retorno ao caminho da luz com o divertido "A Visita", Shyamalan retoma temas recorrentes de sua filmografia (natureza humana/natureza animal, fé tornar certos eventos extraordinários) e faz suspense interessante. Apesar de possuir algumas falhas bem gritantes (como a pior psicóloga do mundo), o elenco e os contornos inesperados que a história traça fazem valer a pena a experiência. Para saber mais, leia a crítica.



The Void-Dirigido por Steven Kostanski e Jeremy Gillespie: 8
Uma das coisas que mais reclamo nos filmes de terror atuais, não é a falta de criatividade. Mas a tendência de fazer todo sangue e design de criaturas por meio de computação gráfica. Enquanto que nos anos 70/80, tudo era feito artesanalmente, gerando muito mais impacto no espectador. Os diretores de "The Void" perceberam isso, e criaram um filme com inspiração clara em Lovecraft. Assim, litros e litros de sangue falso são derramados, criaturas horrendas com tentáculos surgem (e todas feitas com próteses, animatrônicos), tudo que marcou o auge do cinema de horror está presente. Uma pena que faltou apresentar um pouco mais da mitologia ao culto dos antagonistas, mas como uma boa história de Lovecraft, talvez seja melhor deixar o mistério.



La La Land- Dirigido por Damian Chazelle: 7
O musical que quase ganhou o Oscar de melhor filme não é nada demais. É bonitinho, tem um elenco carismático e competente, possui um diretor bom. Mas tem uma história escassamente simples, não possui tantas músicas memoráveis (você consegue se lembrar de alguma além de "City of Stars"?), tem números musicais pouco elaborados. Acho curioso como que musicais recentes como "Sweeney Todd", "Os Produtores", "Across Universe" são muito melhores e não receberam essa aclamação. Quer saber o que mais acho do filme? Leia a minha crítica.



Justice League Dark- Dirigido por Jay Oliva: 7,5
Se no universo cinematográfico live action a Dc divide opiniões, no universo de animação ela é amada por todos. Animações como "O Cavaleiro das Trevas", "A Morte do Superman", "Mulher Maravilha" são excelentes. Portanto, as expectativas pras novas animações são sempre altas. No caso de "Justice League Dark", a animação é boa. Mas aposta em alguns clichês (especialmente no seu "Plot Twist"), que fazem refletir se a mão de um roteirista mais experiente não teria tornado o filme inesquecível. Além disso, desperdiçar um personagem excelente como Monstro do Pântano é simplesmente imperdoável.



T2- Trainspotting- 10
Eu assisti "Trainspotting" quando tinha 13 anos. Ainda estava na escola, não tinha a menor ideia do que faria na minha vida. Assisti a continuação, "T2 Trainspotting" com 21 anos, na metade da faculdade. É impressionante como que esta sequência apesar de ser tão engraçada quanto a original, é madura o suficiente para analisar os personagens de uma maneira mais realista. Mostrando como que as escolhas feitas no passado tiveram efeitos decisivos para a vida de cada um deles, e como que as coisas que repudiavam no passado (estabilidade financeira, uma família), agora se tornam ambições que nunca alcançarão (representada muito bem, na cena inicial: na qual Renton corre numa esteira. Um objeto no qual você pode correr o quanto quiser, mas nunca chegará a destino nenhum). Capaz de fazer rir e chorar em proporções iguais, "T2-Trainspotting" é tão relevante quanto seu antecessor. Dizer isso sobre uma continuação, ainda de um dos filmes mais relevantes dos anos 90, é algo a se considerar.



Lego Batman- Dirigido por Chris Mckay: 8
O mais novo filme da franquia Lego, reconhece Batman como um fenômeno da cultura pop. Assim, faz referência e tira sarro de todo merchandising, filmes, quadrinhos que o personagem teve nos seus quase 80 anos de história. Além da sátira hilária (a senha do batcomputador: "Iron Man sucks"), o filme ainda é um belo presente aos fãs do personagem. Visto que são poucos os filmes dele que são dignos de nota. Para saber mais o que achei, leia a crítica.



Manchester à Beira Mar-Dirigido por Kenneth Lonergan: 9
Drama indicado ao Oscar reflete sobre a natureza do luto, e a ação mais difícil de todas: o se perdoar. Investindo em um elenco excelente (Michelle Williams, Matthew Broderick, Kyle Chandler e o grande destaque e protagonista, Casey Affleck), um roteiro doloroso e triste e numa reflexão que pode não ser pra todos. Mas que é essencial.




Ghost in the Shell- Dirigido por Rupert Sanders: 8
Recebido com frieza por crítica e público, "Ghost in the Shell" foi uma adaptação que gostei muito. Além de respeitar o mangá e animação originais, o filme faz inserções bastante coerentes ao cânone da história. Seja para o passado da Major (Scarlett Johansson), quanto para o Section 9. Fora o espetacular visual que possui cgi, mas que também possui muita coisa criada artesanalmente pela Weta (as gueixas aranhas, por exemplo). Honestamente, acho que a rechaça foi injusta. Daqui a alguns anos, creio que este filme será visto com outros olhos. Para ler mais sobre, leia a crítica.




Life- Dirigido por Daniel Espinosa: 7,5
A proposta de "Life" foi criar um sci-fi simples. E tudo bem, o fizeram. É um bom filme, com um ótimo elenco (Jake Gyllehall, Rebecca Fergunsson, Ryan Reynolds, Aryion Bakare) e com efeitos especiais econômicos mas decentes. No entanto, não há nada original no filme. Da sequência inicial na qual é mostrada a nave num longo travelling (tirado de "Gravidade"), até o ataque do alienígena ("The Thing" ou qualquer filme da série "Alien") tudo é retirado de outro filme. O que tudo bem, nada é original de fato no cinema. Mas um respingo qualquer de criatividade seria bacana.




Kong: Skull Island- Dirigido por Jordan-Vogt Roberts: 7,5
Quarta versão de King Kong no cinema resolve concentrar-se na terra do gorila gigante. Assim, têm-se um contexto de Guerra do Vietnã (com toda trilha sonora que tem direito: Creedence Clearwater, Stones), influências de quadrinhos, influências de jogos e voilà, temos um novo filme "original". Agora sendo bem honesto, apesar de possuir sequências de fato impressionantes (o 1o ataque de Kong), o filme é bem econômico. Os personagens se dividem em arquétipos (militar que quer poder vivenciar uma nova guerra pessoal, fotógrafa pacifista, protagonista que é bom em tudo mas não quer assumir compromisso, maluco que acredita no culto ao macaco e servirá pra explicar tudo), o design das criaturas não é tão detalhista assim (percebam que todos os crawlers são iguais, até o maior de todos) e o final do filme soa um tanto apressado. É um bom filme? É, cumpre bem seu papel. Mas poderia ser épico.






Guardiões da Galáxia Volume 2- Dirigido por James Gunn: 8
O mais novo capítulo dos Guardiões da Galáxia é tão engraçado e visualmente interessante quanto seu antecessor, ainda conseguindo (pasmem) adicionar camadas de seriedade aos personagens. Todos eles (sem exceções) possuem um grau a mais de profundidade, o que é muito bem vindo. O problema é que parece que o roteiro de James Gunn não quer realmente explorar essas questões, perceba como que após uma cena na qual Gamorra (Zoe Zaldana) e Nebula (Karen Gillian) tem um momento emocionante há um corte imediato para Rocket (Bradley Cooper) fazendo uma piada com seu traseiro. Não sei até que ponto foi interferência da Marvel em não deixar as coisas sérias demais, no entanto acredito que os filmes já estejam tão saturados com as piadinhas, que mesmo uma mudança breve como a vista em "Guardiões 2" seria muito bem vinda.



Alien Covenant- Dirigido por Ridley Scott: 8
Eu não consigo gostar de "Prometheus". Por mais que tenha um visual impecável e uma atuação incrível de Michael Fassbender, o filme ainda possui um dos roteiros mais recheados de diálogos estúpidos que já vi (além de não entregar nada digno da série "Alien"). Fico muito feliz em dizer, que "Alien Covenant"era tudo que eu queria ter visto em "Prometheus". Além de ser um roteiro muito melhor escrito, ainda responde todas as questões que o filme anterior deixou em aberto, possui cenas de matança com o Alien que são sensacionais e ainda tem Michael Fassbender retornando a um personagem impecável. Tendo como único defeito grave a falta de profundidade da tripulação da nave, "Alien Covenant" é um belo retorno da série ao que tornou-a memorável.




A Bela e a Fera- Dirigido por Bill Condon: 5
A Disney tem investido em versões live action de suas animações clássicas, assim foram lançados filmes como: "Malévola", "Cinderela" e o melhor de todos, "Mogli". Quando foi anunciado o remake de "A Bela e a Fera", confesso que fiquei feliz, era uma das animações que mais assisti quando criança e o diretor Bill Condon (apesar de ter feito os últimos dois "Crepúsculo") havia dirigido ótimos filmes como "Deuses e Monstros". Infelizmente, seu "Bela e a Fera" não é 10% do filme original. Limitando-se a simplesmente reproduzir (e de maneira preguiçosa) o que já havia sido criado na animação (compare com "Mogli", que adiciona várias novas camadas e cenas, criando realmente uma nova história). Além disso, o cgi muitas das vezes falha miseravelmente (alguém realmente teria medo da Fera? Alguém achou os objetos memoráveis ou visualmente interessantes?), nenhuma das cenas clássicas tem o impacto da cena original. Um filme deveria ter mérito maior para existir além da nostalgia, coisa que esse "Bela e a Fera" não possui.



Logan- Dirigido por James Mangold: 9
Último filme de Hugh Jackman como Wolverine é tudo que os fãs sempre quiseram ver num filme do personagem: violento, sujo e pesado. Tratando Wolverine como um sobrevivente e não como um herói, "Logan" tem uma abordagem muito mais realista do personagem. Definindo que não importa se a pessoa é boa ou não, matar é um ato abominável, que mesmo grandes mentes podem sucumbir (como é o caso de Xavier, que possui uma doença degenerativa como Alzheimer) e que nunca se deve abandonar a esperança (simbolizada por Laura). Se quiser ler mais sobre o que achei de "Logan", leia minha crítica.



Mulher Maravilha- Dirigido por Patty Jenkins: 8,5
Só pelo fato de "Mulher Maravilha" ser o 1o grande filme de super heroína já feito,  já seria revolucionário no cinema. Mas também é um blockbuster leve, divertido (com piadas, mas que não surgem a cada dois minutos, ouviu Marvel?), recheado de cenas de ação empolgantes e ainda traz à tona diversas questões interessantes (a natureza da guerra, o machismo, a desigualdade de gênero). Falo mais sobre ele na minha crítica, que você pode ler clicando aqui.



domingo, 4 de junho de 2017

Crítica: Mulher Maravilha



Como todo mundo deve saber, sou assumidamente fã da DC Comics. Não me entendam mal, também gosto muito da Marvel (minha estante prova isso). No entanto, sempre tive predileção pelos temas trazidos pela Dc Comics e seus personagens. Isso também se refletiu no cinema, do "Superman" de 78, até a trilogia "Batman" de Christopher Nolan, gosto muito da maneira com a qual foram transpostos os personagens para as grandes telas. Em 2013, a DC lançou seu universo compartilhado no cinema (aos moldes do Marvel Studios) com "Homem de Aço". Muitos gostaram (eu), e muitos detestaram. Em 2016, lançaram dois grandes fracassos de crítica: "Batman vs Superman" e "Esquadrão Suicida" (como sempre, lembrando que gostei muito do 1o e detestei o 2o).

Portanto, quando foi anunciado o filme da Mulher Maravilha, havia pouca fé. Pois, mesmo com os filmes anteriores tendo fãs muito apaixonados (e sim, inacreditavelmente existem muitos fãs de "Esquadrão Suicida"), faltava um filme que fosse um sucesso unânime de crítica e público. Fico feliz em dizer, que este filme é "Mulher Maravilha". Longa dirigido por Patty Jenkins ("Monster"), que traz personagens carismáticos, ação extraordinária e um roteiro coeso capaz de levantar inúmeras questões relevantes.

A trama acompanha Diana (Gal Gadot), filha da Rainha das Amazonas, adentrando uma missão no mundo dos homens para acabar com a Primeira Guerra Mundial (acreditando ser causada pelo deus Ares). Isso é o que falarei da trama, pois as surpresas valerão a pena.



Se você assistiu aos três filmes anteriores da Dc e não gostou do tom "pesado e sombrio", fique tranquilo: "Mulher Maravilha" é um filme muito mais leve. Repare como que a partir do momento que Diana chega na capital do Reino Unido, o filme ganha contornos de uma aventura digna de "Indiana Jones" ou até "Tintim". Tudo isso sem a necessidade de colocar piadas a cada 5 minutos. 

Esse clima mais leve, é influência da diretora Patty Jenkins, Que deixa clara a influência do "Superman" de 1978 (chegando a fazer uma homenagem direta à cena que Clark Kent/Superman segura um tiro que acertaria Lois Lane num assalto). Recheando a trama com coadjuvantes que não são figuras unidimensionais (cada um possui sua história, suas motivações e conflitos), sem diálogos expositivos (perceba a cena na qual uma médica nota que um ferimento de Diana cicatrizou. Ela meramente diz "Estranho", enquanto que um filme mais desacreditado soltaria algo como "Veja que estranho, seu ferimento recente já cicatrizou. É quase como se você tivesse poderes").

Outro aspecto digno de nota de "Mulher Maravilha" são suas cenas de ação. Apesar de eu gostar muito dos confrontos épicos de "Homem de Aço" e "Batman vs Superman", ambos os filmes apostavam muito na brutalidade e no impacto das cenas de ação. Em "Mulher Maravilha", a direção tomada foi na elegância. Portanto, ao invés de vermos seres que partiam pra cima com tudo, aqui é apresentada uma mulher que desde pequena treinou para guerra. Então, são golpes menos afobados, apostando em movimentos menos espalhafatos e sim na precisão. A câmera lenta apresentada nas cenas, serve justamente para que o espectador entenda toda a estratégia da personagem para subjugar seus inimigos.




Apesar de todos os pontos que apresentei serem fantásticos, a verdadeira cereja do bolo do filme é a maneira com a qual é abordada a questão da desigualdade de gênero. Quando Diana chega em Londres, constantemente é repreendida (para depois bater de frente) pelo fato de querer exercer mesmas ações dos homens. Seja lutar no front de batalha, ou até participar de uma reunião intelectual. E cada vez que Diana se impõe ao ouvir as regras do mundo dos homens e as maneiras com as quais as mulheres são subjugadas, é impossível deixar de perceber que mesmo se passando na Primeira Guerra Mundial, os problemas apresentados aqui continuam vivos como nunca. 

Isso fica ainda mais interessante, por conta da dinâmica entre os personagens de Diana (Gal Gadot) e Steve (Chris Pine). Constantemente, a protagonista questiona as crenças do militar (a maneira com a qual uma mulher deve se vestir, como ela deve se portar, como ela deve obedecer), e o próprio espectador percebe que apesar de ser uma boa pessoa, Steve é um produto do seu tempo. É quase como se o personagem fosse o reflexo da platéia sobre os atos da protagonista. Reconhecendo com admiração, e ao mesmo tempo percebendo suas próprias limitações (e claro, constantemente tendo que ser salvo pela heroína).

Existem alguns problemas, como não poderia deixar de ser. O terceiro ato é um tanto frágil (o vilão é bacana, no entanto é apresentado de maneira apressada), sendo bastante contrastante com o resto do filme (muitas explosões, muitas frases de efeito,a receita básica do final de um filme de super-herói). Porém, não compromete o filme. Que será lembrado daqui a alguns anos como o 1o grande filme de uma super-heroína já feito. Tendo como cena motriz, o belo momento no qual Diana avança no front e é recebida por balas de todos os homens do campo adversário, Ela resiste e vai avançando sem deixar se abalar. Uma representação perfeita da histórica luta feminina pela igualdade de direitos. 

Nota: 8,5